Na década de 1930, Rodolfo Pruner trouxe de Blumenau a famosa e imponente caleça, carruagem fúnebre que transportou durante muitos anos os brusquenses até a última morada.

Até hoje, a carruagem, que está em exposição na Casa de Brusque, povoa o imaginário de muitos brusquenses que acompanharam inúmeros cortejos até os cemitérios da cidade.

Naquela época, o ritual fúnebre era um ato solene e de muito respeito. Quando morria alguém, a primeira pessoa a ser avisada era Rodolfo Pruner, que imediatamente iniciava a preparação da caleça.

“Quando chegavam lá no meu avô dizendo que alguém morreu, ele ia buscar os cavalos no pasto, lustrava, passava escova, passava cera na caleça, era todo um ritual”, conta Silvana Eccel Roza, neta de Pruner.

No livro Sentinela do Passado II, Laércio Knihs relata que o primeiro enterro feito com a caleça de Pruner foi o da vizinha, Agnes Wagner Ulber, em 17 de setembro de 1938.

Cortejo do cônsul Carlos Renaux, em janeiro de 1945 | Foto: Curto Fotos Antigas de Brusque

A partir de então, o serviço prestado por Pruner se tornou indispensável para os moradores da cidade. Antes da existência de funerárias, era ele quem comandava os ritos fúnebres no município. A primeira funerária de Brusque – São José – surgiu apenas em 1945.

Nos primeiros anos, inclusive, não havia caixões prontos. Quando a pessoa morria, os familiares tiravam uma porta de casa, colocavam apoiada em cadeiras e o defunto ficava ali. “O defunto ficava esperando assim até chegar o caixão. A pessoa tirava a medida e só então ia fazer o caixão”, diz Silvana.

A tradição era a caleça puxar o cortejo e todos os participantes, a pé, seguiam até o cemitério. Os carros ficavam em casa.

“Era algo muito respeitado. Quando o cortejo passava, as pessoas fechavam as janelas das casas e as lojas da avenida principal também fechavam as portas”, lembra Silvana.

Ao lado de Pruner, que estava sempre vestido com um impecável terno preto, ia uma criança, que segurava uma cruz durante todo o cortejo. As coroas de flores, feitas em casa, eram penduradas nas laterais da caleça e também na parte de cima da carruagem.

Enterro de Heinz Erbe, em 1952 | Foto: Marcos Erbe/Curto Fotos Antigas de Brusque

Toda trabalhada e pintada com verniz negro brilhante, a carruagem puxada por dois exuberantes cavalos negros transportou o corpo de pessoas de todas as classes sociais.

Uma das imagens mais famosas da história de Brusque é o cortejo do corpo do cônsul Carlos Renaux pelo centro da cidade, rumo ao cemitério luterano. Foi a caleça de Pruner quem transportou o cônsul até sua última morada, em janeiro de 1945.

“Na caleça do meu avô foram enterradas desde as pessoas mais importantes de Brusque até as mais simples. Não havia distinção”, conta.

Depois de alguns anos atuando de forma independente, Pruner chegou a prestar serviços com a caleça para a Funerária São José. Com a entrada dos veículos motorizados nas funerárias, aos poucos, os serviços da caleça foram deixados de lado.

A imponente carruagem serviu aos brusquenses por 34 anos.  De acordo com o livro Sentinela do Passado II, o último enterro com a caleça foi realizado em 1972, ocasião em que transportou o padre Guilherme Kleine até o cemitério.

Após aposentar a caleça, Rodolfo Pruner decidiu doar a memorável carruagem fúnebre à Casa de Brusque, onde permanece em exibição. Pruner faleceu em 1982, aos 82 anos.


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