É numa entradinha estreita, camuflada no terreno a poucos metros da Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, na avenida Primeiro de Maio, que começa a viagem no tempo e na história de Brusque.

Seguindo a pequena trilha, chega-se a uma espécie de floresta com grandes árvores nativas ainda preservadas. O caminho – que adentra a mata – tem aspecto úmido e frio e, aos poucos, cada curva vencida vai revelando o cenário, um dos mais fantásticos da cidade.

No alto da colina está a imponente mansão construída para Cônsul Carlos Renaux – o fundador da primeira fiação de Santa Catarina, que deu à cidade o título de “Berço da Fiação Catarinense”.

Interior da casa ainda guarda os móveis que eram usados pelo cônsul

A casa – que poderia muito bem servir de cenário para um belo filme de época – esteve sob os cuidados da bisneta do cônsul, Maria Luiza Renaux, que fez questão de manter preservado cada detalhe do local onde viveu o bisavô até o fim da vida, em 1945. “A minha vida se concentra nisso”, disse a historiadora e arquiteta em 2015, cerca de um ano de falecer.

Se a parte externa já deixa qualquer um encantado, conhecer o interior da casa é ainda mais incrível. Ao cruzar a porta, é difícil não perder o fôlego. A primeira impressão que se tem ao ultrapassar o corredor em direção a uma das salas é que se foi teletransportado direto para os anos 1930.

Cada móvel, quadro e objeto de decoração remete à época em que o cônsul retornou ao Brasil, em 1935, após o então presidente Getúlio Vargas cancelar os consulados honorários. Do ventilador Siemens, de 1933 – que continua funcionando – passando pelo piano, pelo grande lustre que embeleza a sala de jantar e até pelas poltronas: tudo permanece intacto, como se o tempo não tivesse passado.

Ventilador Siemens, de 1933, continua funcionando

DE BADEN-BADEN A BRUSQUE
A construção da grande casa iniciou em 1932, sob a supervisão do filho mais velho do cônsul, Otto Renaux, que o substituiu no comando da fábrica em 1918, quando ela foi transformada em sociedade anônima.

“Foi Otto quem construiu esta casa. Cuidou dos materiais, da mão de obra, de tudo”, conta Maria Luíza, neta do primogênito do cônsul.

O local escolhido para construir a grande casa do patriarca da família Renaux foi próximo à fábrica, um costume da época. O projeto foi realizado por um arquiteto alemão chamado Rombach, que fez um modelo muito semelhante à casa do cônsul em Baden-Baden – cidade alemã situada na região administrativa de Karlsruhe.

A construção do casarão iniciou em 1932, sob a supervisão do filho mais velho do cônsul, Otto Renaux

“O que havia de diferente entre as duas casas do cônsul é que nesta colina não havia nada além de árvores, principalmente a canela preta, que serviu de base para a madeira da casa”, diz. A construção ficou pronta em 1935, quando Carlos Renaux voltou a Brusque. A casa foi habitada, então, pelo cônsul e pela sua terceira esposa. “Os filhos já eram todos grandes. A casa era do casal e, como de costume, toda quarta-feira eles recebiam a família”, destaca Maria Luíza.

CONSTRUÇÃO PECULIAR
Em 80 anos de existência, a casa do cônsul passou apenas por duas reformas. A primeira, há 24 anos, quando Maria Luíza foi morar no local e a segunda atualmente.
“Foram reformas apenas para manter a conservação, mas pequenos reparos são constantes, sempre tem uma coisa ou outra para fazer. A segunda grande reforma está sendo feita agora com a pintura externa, a instalação das câmeras de vigilância e o veneno para os cupins”, afirma.

O material usado para a construção da casa é peculiar. A base é toda feita de madeira de canela preta encontrada na região. O teto é construído a partir do estuque – uma argamassa resultante da adição de gesso, água e cal, usada como um aditivo retardador de secagem rápida – e vigas de palmito.

“Este material seca bem e segura, mas tem que ser o nosso palmito, o euterpe edulis (palmito-juçara), porque ele não umedece e não pega cupim”, explica.

Decoração de toda a casa é com os objetos do cônsul

Alguns cômodos com estuque foram revitalizados após uma invasão que aconteceu na casa em 2013. “O meliante entrou pelo telhado e, no piso superior, furou cada quarto. Aí apareceram as vigas de palmito. Essas foram restauradas naquela época”, afirma Maria Luíza.

O telhado é todo de metal, e constantemente passa por manutenção. “Tem uma empresa de Guabiruba que esporadicamente vem e troca as chapas de metal”, conta.

O AR-CONDICIONADO
Em meio a tantas relíquias conservadas na casa, uma é ainda mais especial, e está preservada no porão: o primeiro aparelho de ar-condicionado do Sul do Brasil, segundo a historiadora.

Retrato do cônsul Carlos Renaux pode ser visto ao fundo na sala de visitas

“Aqui era muito quente, diferente da Alemanha. O cônsul sofria de bronquite, então importaram o aparelho e o Rombach instalou. Pela calha penetra água da chuva que vai para o porão. No verão, esta água esfriava os canos do ar-condicionado, e no inverno uma caldeira com termômetros regulava a temperatura. Isso era inédito por aqui”, conta Maria Luiza.

A instalação do aparelho não foi fácil. “Lendo as cartas daquele período percebo que eles passaram um grande trabalho. O Otto avisava o cônsul que os arquitetos não estavam conseguindo encaixar as instalações porque eles não tinham experiência com o clima tropical. Eles projetavam uma coisa, mas no verão a madeira incha e no inverno diminui, então não havia encaixe, demorou algum tempo para conseguirem”.

O aparelho permanece no porão, assim como cônsul deixou. Hoje não funciona mais, mas a intenção de Maria Luiza é restaurá-lo e abrir o local para visitação.

Nos fundos do casarão fica o mausoléu onde está o corpo da terceira esposa do cônsul, Maria Luíza Auguste Lienhaerts

“No futuro o porão será restaurado para que os engenheiros e os estudantes possam ver a instalação do ar-condicionado e ter uma descrição de engenharia e não de uma dona de casa”, brinca.

AMOR PELO PATRIMÔNIO
Maria Luíza se orgulha da missão que assumiu: manter preservada a história de sua família e, consequentemente, de Brusque. “Para mim, isso é muito natural. Não é difícil manter, mas é preciso ter recursos”, diz.

A vontade da bisneta do cônsul é, um dia, abrir a casa para visitação e, assim, mostrar o trabalho que tem realizado ao longo dos anos. “Por enquanto, me atenho aos projetos escolares porque não dá para abrir de vez. Estou selecionando toda a documentação, quero ter um blog para matar a curiosidade das pessoas. Como não serei eterna, minha vontade é transformar tudo isso em museu”.

Bicicleta que Otto Renaux usava para ir ao centro da cidade está guardada no casarão cuidado por sua neta

Ela acredita que manter a história por meio da preservação de construções antigas como a casa do cônsul é fundamental para a identidade cultural de uma cidade. “Assim como o DNA é importante para a medicina. Para a identidade cultural, se não for a partir de uma base concreta, tudo pode ficar no diz que me diz”.

A bisneta do cônsul lamenta a falta de visão com o patrimônio histórico no Vale do Itajaí. “Se todos os municípios da região se basearem somente em construções atuais, qual será a diferença entre um e outro? Nenhuma. Turismo é uma opção regional, e nós sabemos que se a Europa não tivesse os monumentos e construções históricas, as visitações seriam muito menores. Se Brusque, Blumenau, Pomerode, Itajaí tivessem, além do desenvolvimento comum, uma característica própria, seriam bem mais procuradas”.

O tombamento como patrimônio histórico, que amedronta muitos proprietários de construções antigas, é o objetivo de Maria Luiza para a casa do cônsul. “Tenho todo o interesse no tombamento. Não é investir em coisa velha, que já era. É investir em sustentabilidade cultural. Este é o meu projeto de vida”, diz.

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