Diferentes regiões e edificações de Brusque foram atingidos pela força das águas, na inundação de agosto de 1984.

O antigo prédio do Fórum da Comarca, localizado na rua João Archer, bairro Jardim Maluche, teve o subsolo totalmente submerso e o primeiro andar inundado por quase dois metros de água. O espaço incluía as salas de audiência e gabinetes dos juízes e promotores das 1ª e 2ª varas.

Na época, o Juiz e diretor do Fórum Carlos Prudêncio, foi pego de surpresa pela inundação. Na manhã de segunda-feira, 6 de agosto, o ex-desembargador relembra que a babá do filho dele não pôde passar pela ponte Irineu Bornhausen, a atual estaiada.

“Abri a janela e vi que a água já estava chegando no Jardim Maluche, era 7h10”, conta.

Segundo ele, logo ligou para Osmar Perón, que era promotor de justiça. Foram eles, e o também promotor João José Leal para o Fórum averiguar a situação do local.

“A água já estava dentro do prédio, chegava no joelho. Fomos tentar salvar alguma coisa, mas não adiantava mais. Não tínhamos condições de ficar transitando”, recorda Prudêncio.

O segundo andar da edificação não foi atingido, mas o primeiro deu trabalho para Prudêncio e os promotores. “Começamos a tirar os processos para colocar em cima de mesas. Mas a água subiu rápido demais”, completa.

Ele ressalta que toda a memória judiciária foi abalada pela total destruição do arquivo morto, que continha todos os processos desde a fundação da Comarca, em 16 de março de 1892, até 1984. Os processos estavam arquivados no subsolo.

“Seriam todas as ações, civis, criminais, públicas, durante todas essas décadas. Em cada processo contém de 50 a mil folhas. Todas as folhas, tinham as petições, certidões de nascimento, batismo, casamento. Ações que levavam dez anos para se resolverem estavam perdidas”, conta.

O que foi salvo

Segundo Promotor de Justiça aposentado, João José Leal, os processos que estavam em andamento judicial foram preservados. “Foi uma feliz coincidência, ou até previamente previsto, os cartórios ficarem em cima”, conta.

Ele destaca que, felizmente, os livros do Cartório do Registro Civil não foram atingidos. “Onde estão anotados todos os nascimentos e óbitos, a mesma coisa com o registro imobiliário de Brusque, que também foi preservado por estar no segundo andar”, conta.

Entretanto, segundo ele, os processos que estavam nos gabinetes dos promotores foram perdidos. “São os processos do dia. No meu gabinete subiu entre 1,6 e 1,7 metro de água”, explica.

Leal ainda ressalta que, as documentações de peso histórico não foram perdidas, pois não estavam no Fórum. Entre eles estão os documentos do processo da morte de Ivo Renaux, que faz parte do acervo do museu Casa de Brusque.

Para ele, os impactos foram brandos, pois tiveram poucos casos em que existiu a necessidade de recorrer a informações de processos arquivados.

Segundo Prudêncio, no entanto, processos mais complexos na época, como, por exemplo, a separação de um casal, ficaram mais difíceis de serem comprovados.

Após a inundação

Segundo Leal, a inundação foi rápida e violenta. “Deixou um rastro de destruição muito grande”, conta.

Em torno de uma semana, Prudêncio e promotores foram até o Fórum avaliar os estragos. “Era um desastre total. Começamos a tentar chegar no subsolo, era só lodo, lama pura”.

De acordo com Prudêncio, o que conseguiram resgatar de documentos foi enviado para a fábrica Renaux, que deixou-os em fornos para a secagem. No entanto, só conseguiu recuperar 50% do arquivo.

“Foi lamentável, porque perdeu-se a história de Brusque. Todos os documentos, todos os processos, que estavam em arquivo, foram perdidos grande parte desse material”, avalia.

Digitalização

Segundo Prudêncio, não é possível mensurar as perdas de documentação durante a enchente de 1984. “Não tivemos nada o que fazer, não tinha mão humana que pudesse reconstituir isso. Só se a pessoa tivesse os documentos em casa”, conta.

Brusque Memória/Acervo

A perda de documentação ficou mais difícil de acontecer com a digitalização. “Caso perder o papel, tem o digital, está registrado. Naquela época não tinha isso”, complementa.

“Hoje a tendência é obrigatoriamente a informatização, até dos próprios jornais, não é possível você conservar os arquivos em papel. Até por uma necessidade econômica”, avalia Leal.

Novo espaço

A antiga sede, atingida pela inundação, foi inaugurada em 17 de fevereiro de 1975, durante o governo de Colombo Salles.

De acordo com Prudêncio, após a destruição em 1984, o local foi reformado, totalmente repintado. O prefeito na época era José Celso Bonatelli, e foi cogitada a ideia de transferir a casa para o antigo prédio do Banco do Brasil, inutilizado na época. Mas não deu certo.

A mudança veio em 28 de fevereiro de 1992, quando foi inaugurado o novo e atual Fórum da Comarca de Brusque, situado ao lado da prefeitura. Dois anos depois, Prudêncio saiu do cargo de direção da casa, quando foi promovido a desembargador.

O antigo prédio, então, tornou-se espaço do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), que permaneceu lá até 2016, quando mudou para um novo local na Antônio Heil.

Atualmente, o prédio abriga o Centro de Educação Infantil (CEI) Hilda Anna Eccel.

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