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José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

A qualidade da imaginação

José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

A qualidade da imaginação

Segundo o relato bíblico, quando Deus quis um rei para Israel “segundo o seu coração”, escolheu um menino aparentemente frágil, pastor de ovelhas. Nas longas e solitárias jornadas do seu pastoreio, preenchia o tempo e o coração tocando sua harpa e compondo canções, exercitando a imaginação com as coisas simples do cotidiano, visto com um olhar que ia além do óbvio, do que qualquer um pudesse enxergar.

Com a alma talhada pela música e pelas inspirações elevadas do seu coração, aprendeu a arte da guerra, tornou-se um guerreiro corajoso, confiante e muito habilidoso, tanto nas armas quanto nas palavras. As guerras e a insegurança, entre ciúmes e trapaças na corte do rei Saul – que ajudaram a construir tanta gente truculenta e mesquinha – com o tempero da alma do menino pastor e poeta, forjaram a sabedoria que o levou ao trono e fez dele, mais que um grande rei, uma verdadeira lenda, um símbolo para as gerações futuras.

Mas a educação que forjou o rei Davi não é exclusividade dos hebreus. Na Grécia antiga, os grandes heróis guerreiros eram educados primordialmente com ginástica e música. A poesia e as artes, aliadas à destreza física, formavam a base para o grande ideal grego: uma mente sã num corpo são. Os bárbaros, como eram chamados os que não tinham a cultura grega, eram considerados próximos aos animais, pois sua educação seguia apenas o ritmo das lidas da vida, de modo que o guerreiro bárbaro (ou mesmo o grego de formação deficiente) ou estava na guerra ou nas tabernas.

O refinamento do gosto e do espírito era considerado o mais importante sinal distintivo do grego, e certamente preparou o grande desenvolvimento intelectual que ali se processou, do qual somos herdeiros.

O que há de mais sábio nisso tudo é a percepção de que é preciso desenvolver adequadamente a sensibilidade, o coração, sem o que a moralidade ou a racionalidade serão deficientes ou estéreis. Nossa existência como seres sensíveis é um dado muito mais fundamental que a nossa capacidade racional.

Daí que o aprendizado não pode prescindir de preparar um ambiente adequado, esteticamente bem orientado, para que as coisas mais fundamentais da nossa humanidade sejam apreendidas, antes de qualquer lição formal, na naturalidade do dia a dia. Sem uma educação estética adequada, a sensibilidade nos animaliza, pois seu peso é preponderante no nosso modo de ser.

Creio que temos muito que aprender com Davi e com os gregos, para que possamos forjar em nós mesmos, nos nossos filhos e educandos o caráter que nos predispõe ao melhor que pudermos ser. E isso começa com o ambiente que criamos, a literatura e a música que consumimos, as crenças e hábitos saudáveis. Se você quer avaliar a qualidade da sua educação estética, observe para onde vai sua imaginação quando está só e em silêncio, que tipo de imagens ou sensações são evocadas.

A imaginação reflete a qualidade da nossa vida interior, e esta começa a ser formada na mais tenra infância. Erich Fromm fala da importância de uma mãe segura de si, que tenha fé na vida e alegria para que a criança possa desenvolver-se de modo sadio, sobretudo na sua capacidade de amar. As primeiras experiências são marcantes e fundamentais, pelo que devemos imprimir mais qualidade a elas, para que as melhores disposições possam se desenvolver. Não é necessário ter talento musical, literário ou dramático, mas desenvolver a sensibilidade para a boa música e para a produção artística em geral.

Admiro ainda a bela pedagogia das artes marciais, que desenvolvem as habilidades físicas aliadas à virtude moral, ocupando o corpo e a mente com o que é saudável. Segundo Einstein, a imaginação é mais importante que o conhecimento. Uma imaginação bem orientada pode nos levar a grandes descobertas científicas e à produção de belas obras de arte. No mínimo, vai nos tornar pessoas bem melhores, mais saudáveis de corpo e de mente, sobretudo, bem mais felizes.

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