Em 5 de março de 1958, um incêndio de proporções gigantescas destruiu a Casa do Rádio, a loja especializada em eletrodomésticos e eletrônicos de Brusque, considerada como uma das primeiras do ramo no município.

Numa das tragédias mais chocantes na história de Brusque além das enchentes, seus proprietários conseguiram fazer a loja se reerguer e permanecer na ativa até os anos 70. “À vista ou a prazo, resolvemos seu caso”, era o slogan. Até para retomar os negócios após a catástrofe houve solução.

Anselmo Mayer e a negociação familiar

A Casa do Rádio foi aberta no início da década de 50 por Anselmo Mayer, um empresário apaixonado por negociar. “Ele não era muito apegado às suas empresas, vivia sempre negociando. Sua esposa, Evelina, participava bastante das atividades, era mais ativa”, explica o sobrinho Valério Schlindwein.

O forte do estabelecimento, na administração de Anselmo e Evelina, estava nas bicicletas, nas geladeiras e, claro, nos rádios. Mas pouco resta na memória da família sobre o desenvolvimento e a breve história da empresa nas mãos de seu fundador. Mayer era brusquense e viveu no Centro, morando em casa no final da rua Paes Leme.

Um dos sobrinhos de Mayer, Norberto Schlindwein, tinha um posto de combustíveis e decidiu vendê-lo para comprar a Casa do Rádio, que estava prestes a fechar. Tornou-se sócio majoritário, com 80% das ações. Quem completava a sociedade eram os irmãos Valério, Nievert e Ademar, além do primo Nelson Gevaerd. O ano era 1957.

Anúncio na edição de 1º de março de 1958 no jornal O Município | O Município/Arquivo

Fogo

No ano seguinte à compra da loja, houve o incêndio. Valério e seu irmão Nievert moravam no andar de cima da Casa do Rádio. “Me sobraram uma calça, uma sandália e uma camisa. Mais nada. Queimou tudo”, lembra Valério, hoje aos 80 anos.

A decisão de retomar os negócios foi praticamente imediata, e foi tomada por Norberto. “Começar um negócio sem dinheiro já é difícil. Começar um negócio sem dinheiro e já devendo uma porção é muito mais difícil”, comenta Valério. O prejuízo foi pago em 24 meses.

“Eu vi o fogo ainda quando era pouco. As baterias de rádio, que eram baterias de carro na época, estavam carregando em série em uma parede. Quando saí para ir ao colégio, vi o fogo. Não havia extintores ou mangueiras. Quando cheguei com um balde de água… Já nem adiantava mais. Queimou tudo. Foi triste. Só sobrou uma cozinha, que era de onde meu irmão morava.”

Os prejuízos foram avaliados em cerca de 5 milhões de cruzeiros. Os bombeiros das empresas têxteis combateram o fogo, que começou por volta das 18h. Bombeiros de Blumenau chegaram quase às 20h.

Recuperação

Vários fornecedores, como Semp, Campos Salles e Monarca, venderam novos produtos à Casa do Rádio e fecharam acordos para pagamento após o incêndio, que se tornaria peça-chave na falência. Outros acordos e financiamentos foram importantes para manter a empresa ativa.

De acordo com Valério Schlindwein, o negócio faliu em 1974. Ele também comenta sobre a falta de rigidez e controle nas finanças, especialmente referentes às filiais espalhadas por outras cidades catarinenses.

“Nunca foi fácil administrar, sempre foi um pouco com as contas apertadas. Claro que é difícil afirmar, mas é possível que tenha havido alguns desvios nas filiais em cidades mais distantes”, reflete.

Os clientes poderiam também levar os produtos para casa por período pré-determinado. Estas chamadas demonstrações serviam como verdadeiros testes. Depois, ou o produto era devolvido ou comprado. “Algumas vezes o pessoal levava, ficava, não pagava. Faziam demonstração até de fogão, geladeira…”

A Casa do Rádio no início da década de 1970 | Foto: Sérgio Bodenmüller/Arquivo pessoal – postado no grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook

Matriz, filiais, especialidades e estrutura

A Casa do Rádio tinha três lojas no Centro de Brusque. A matriz, onde hoje está a agência do banco Bradesco, uma na esquina da agência lotérica, e outra onde estão algumas lojas de departamento atualmente. Na gestão dos Schlindwein, haviam sido abertas lojas em Nova Trento, São João Batista (gerenciada por Evaldo, primo dos irmãos Schlindwein), Tijucas, Canelinha, Camboriú e Itajaí.

A empresa tinha dois caminhões Mercedes Benz à disposição, utilizados para serviços de venda, cobrança e entrega. “Iam por Bom Retiro, Leoberto Leal, até Lages. Um caminhão era o único entregador da Liquigás de Brusque com um veículo específico para o serviço”, comenta Valério. Em ocasiões especiais, músicos participavam de eventos promocionais em frente às lojas, e decorações especiais eram instaladas em época de Natal.

As grandes forças da Casa do Rádio estavam nas geladeiras, bicicletas, e claro, nos rádios. Em Brusque, a empresa possuía oficinas para estes itens, oferecendo assistência técnica e serviços de garantia. Peças para reposição e consertos ficavam em estoque. “Vendíamos e dávamos assistência grátis dentro da garantia, cobrávamos quando a garantia expirava. Vendíamos a prazo e sem entrada em 36 vezes.”

“A Casa do Rádio foi uma escola para mim, com muitas experiências. Não tive a oportunidade exatamente de estudar, estudei até o terceiro ano do Ginásio [atual 8º ano do Ensino Fundamental]. Foi muito importante. Todos os mais antigos conhecem a Casa do Rádio”, completa Valério Schlindwein.

De terno, o vendedor Janga Loos; à direita, o vendedor Osnildo Coelho, com o caminhão da Casa do Rádio em Santo Amaro da Imperatriz | Foto: Sandro Ristow/Arquivo pessoal – postado no grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook
Incêndio reuniu multidões | Foto: Erico Zendron/Arquivo pessoal – postado no grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook
A matéria sobre o incêndio em edição do jornal O Município. Abra a imagem em nova guia para pode ler

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