A lembrança de que os poloneses também colonizaram Brusque deve-se, em grande parte, ao esforço de descendentes que não medem esforços para perpetuar a cultura de seus antepassados.

Esses voluntários conseguiram avanços nos últimos anos, como a instituição do Dia Municipal da Imigração Polonesa. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para chegar ao patamar em que estão as culturas alemã e italiana.

Fundada em 30 de agosto de 1999, a Sociedade Berço da Imigração Polonesa capitaneou os trabalhos a favor dos polacos no município. Fundador e presidente até hoje, Sérgio Witkosky explica que o objetivo ao criar a entidade foi o resgate histórico.

“Anos atrás, a memória polonesa havia se perdido. Quando se falava em imigração, só eram lembrados italianos e alemães. Começamos a ficar incomodados que os poloneses não apareciam, apesar de terem importância em Brusque”, comenta.

Por isso ele e um grupo de descendentes resolveram colocar mão na massa para mudar esse cenário. Eles fizeram pesquisas históricas na Casa de Brusque, museus da região e outros arquivos para contar a história da imigração.

Uma iniciativa importante foi o levantamento de sobrenomes realizado pela entidade. Os pesquisadores verificaram nos arquivos do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Samae) os sobrenomes dos cidadãos e conseguiram ter uma lista mais atualizada da presença polaca na cidade.

A sociedade também chegou a organizar três edições da Festa de Nossa Senhora de Czestochowa, entre 2004 e 2006, na igreja católica do bairro Santa Luzia, em Brusque.

Witkosky conta que foram cerca de dez anos de muita dedicação e luta em favor dos poloneses. Um fato marcante foi a votação, em 2009, na Câmara de Vereadores, do projeto que instituiu 25 de agosto como o Dia da Imigração Polonesa em Brusque. O escritor Celso Deucher teve papel importante para a criação da lei municipal.

Sérgio Witkosky é o presidente da Sociedade Berço da Imigração Polonesa | Foto: Marcos Borges

A sociedade ainda existe, mas hoje está praticamente adormecida. Witkosky conta que, atualmente, o trabalho se resume a passar informações para pessoas que o consultam para dupla cidadania e pesquisas genealógicas.

Fundação José Walendowsky

A Fundação José Walendowsky surgiu em 2014, mas a data significa apenas a formalização de uma luta que se iniciou na década de 1990, com Ivan Walendowsky. Muito ligado às suas raízes polacas, ele é, até hoje, o principal incentivador de ações em prol da polonidade.

Logo após 1989, o fluxo de informações da Polônia para o Brasil ficou mais fácil, pois a União Soviética havia ruído. A partir de 1990, Walendowsky entrou de cabeça na causa dos poloneses e passou a promover eventos e buscar suas raízes.

Já em 1990 ele realizou um evento polonês que chegou a ser noticiado por jornal em Curitiba (PR). Desde então, a fundação realizou 11 edições do Evento Cultural Polonês em Brusque.

A entidade não se limita a promover festas. Ela também participa ativamente de eventos do Consulado-Geral da Polônia e em outras cidades.

A fundação também promoveu uma viagem até a Polônia em 2018, da qual participaram descendentes e pesquisadores.

Filho de Ivan, o atual presidente João Paulo diz que o plano é aumentar as atividades, inclusive incentivando o ressurgimento de grupos folclóricos e até aulas de polonês, futuramente. Assim como o pai, ele é um entusiasta da cultura polonesa.

A fundação também capitaneou a articulação com a Assembleia Legislativa para que o Dia Estadual da Imigração Polonesa fosse mudado para 25 de agosto, assim como é a data municipal em Brusque. A lei estadual foi sancionada pelo governador em julho último.

Marco do sesquicentenário

A Fundação José Walendowsky elabora uma praça em homenagem ao sesquicentenário da imigração.

O local intitulado de Imigrantes da Polônia fica situado na rua Francisco Sassi, bairro Jardim Maluche, e contém duas estátuas em granito cinza: O Semeador e O Batismo, ambas do artista David Rodrigues.

A primeira obra é inspirada em uma escultura do polonês Jan Zak, que depois de se naturalizar brasileiro ficou conhecido como João Zacco Paraná. A escultura simboliza a cultura, as tradições e a força do trabalho dos poloneses.

Já a segunda obra simboliza o batizado do menino Estevão Sienovski, que nasceu em 1869, ainda no navio que trouxe para Brusque as primeiras 16 famílias de imigrantes poloneses.

João Paulo Walendowsky é o atual presidente da fundação | Foto: Marcos Borges

Nacionalismo prejudicou ensino do idioma

Poucas pessoas falam polonês hoje em dia. Ao longo das gerações, o idioma se perdeu  devido ao medo dos colonos e ao nacionalismo.

Clotilde Imianowsky diz que os seus antepassados eram muito fechados, não buscavam o passado, nem contavam sobre os ocorridos. Isso aconteceu inclusive com o idioma, que não foi repassado adiante.

Essa situação de não ensinar o polonês às outras gerações é comum entre as famílias. A maioria delas não têm mais falantes do idioma dos antepassados.

Uma das explicações para esse fato é que Brusque era majoritariamente alemã quando os polacos chegaram. Por isso, para se comunicar muitos deles usavam o alemão. Esse fato é comprovado por vários relatos.

Um exemplo é o caso de José Walendowsky, pai de Ivan, que foi alfabetizado na língua alemã. Quando não era o idioma germânico, o usual era falar em português. Os poloneses só falavam o idioma entre si.

Livro didático usado no curso de polonês da Sociedade Berço da Imigração Polonesa | Foto: Marcos Borges

Mas até mesmo esse pouco foi perdido ou severamente prejudicado com campanha de nacionalização promovida por Getúlio Vargas a partir de 1938, com a proibição de outros idiomas e fechamento de dezenas de escolas polacas em Santa Catarina.

Depois, os alemães e italianos conseguiram recuperar em parte o aprendizado do idioma. Até porque Alemanha e Itália são países com mais exposição no mundo e naturalmente atraem mais interesse.

Mas o polonês ainda engatinha. O país sofreu com o comunismo por décadas, o que o prejudicou em termos de contato com os descendentes.

A Sociedade Berço da Imigração Polonesa chegou a ter um curso de polonês nos anos 2000. Os livros didáticas foram buscados fora de Santa Catarina, pois não era fácil achá-los.

Sérgio Witkosky diz que o polonês é um idioma muito difícil. A turma começou com cerca de 15 pessoas, mas logo se encerrou.


Você está lendo: Descendentes buscam perpetuar cultura polonesa


Leia também:
Colonos de língua inglesa antecederam os poloneses
Polônia não existia como Estado no século 19
Dezesseis famílias polonesas foram assentadas no Sixteen Lots
Saporski leva imigrantes de Brusque para Curitiba
Descendentes de Saporski relembram trajetória do bisavô
Tecelões de Lodz promovem revolução industrial em Brusque
Poloneses foram fundamentais para a Renaux e a Schlösser
Imigrantes são assentados em áreas mais distantes
Famílias polonesas marcaram a história de Brusque
Comunidade polonesa está presente em 16 estados do Brasil

Deixe uma resposta