O restaurante dançante Carlinhos Bar foi um dos locais mais marcantes de Brusque nos anos 50 e 60. Sua história durou pouco, mas ficou na memória dos jovens das classes sociais mais altas naquela época e tiveram a chance de fazer refeições e dançar no local, que ficava no prédio onde hoje está o Shopping Gracher. O estabelecimento foi uma das várias empresas da família Gracher, e é considerado o primeiro point chique de Brusque.

Carlos Gracher Neto, filho de Arno Carlos Gracher e neto de Carlos Gracher, tinha aproximadamente cinco anos quando foi criado o bar em sua homenagem, no segundo semestre de 1957. “Apesar da pouca idade, ele gostava de estar no meio dos adultos, participando das comemorações. O ambiente era muito aconchegante e familiar”, relata Nayr Gracher, mãe de Carlos Gracher Neto, no livro Gracher – Uma empresa faz 100 anos.

“Aos domingos, depois da missa, se dançava até 11h30. As tardes dançantes atraíam jovens de Blumenau, Itajaí, Florianópolis e até de Curitiba. A bebida mais consumida era o Cuba Libre [coquetel feito à base de rum, refrigerante de cola e limão] e as músicas de Ray Connif encantavam a todos – ora tocadas no piano, ora em discos numa vitrola”, relata Nayr no livro.

Vânia Gracher Baran, uma das filhas de Arno Carlos Gracher, afirma que seu pai permitia que ela frequentasse o estabelecimento da própria família. “Quando abriu, acho que eu tinha uns 12 anos. Meu pai morria de ciúmes. Para mim, era um cômodo da casa. Ele dizia que os rapazes iriam me tirar para dançar, e eu acabaria dançando com 12 anos. Eu aparentava ser mais moça.” Só aos 14 anos foi dada a permissão.

Solenidades oficiais e aniversários de família também costumavam ser realizados no Carlinhos Bar. E era praticamente tradição: às 10h30 de domingo, após a missa, os jovens iriam ao Carlinhos Bar, muitas vezes embalado por Raynério Krieger no piano. Mensalmente, colunistas sociais elegiam a Brotinho do Mês, uma espécie de miss entre as frequentadoras do local. Os agitos terminavam antes da meia-noite, e, conforme o rito social, mulheres precisavam estar acompanhadas da família.

“Havia diversos quesitos para a eleição de Brotinho do Mês. No fim, acabava-se quase fazendo um rodízio. Tinha faixa e tudo. Se não me engano, geralmente era no terceiro domingo do mês. Colunistas sociais de Florianópolis e Blumenau vinham para cá”, relembra Vânia, que teve sua festa de 15 anos no local

Ela relata ainda uma rivalidade entre os rapazes de Brusque com aqueles que vinham de fora, especialmente de Blumenau e Florianópolis, que vinham à procura das garotas brusquenses. “Ali começaram muitos namoros, que depois viraram casamentos. Muita gente veio para Brusque e também saiu de Brusque em função dos encontros no Carlinhos Bar.”

“O Hotel Gracher, que ficava no mesmo prédio, também teve um papel importante nisso. Eram apenas homens solteiros que se hospedavam no hotel, e acabavam conhecendo moças daqui”, lembra a irmã de Vânia, Gisela Gracher Stieven.

O fim da onda

O dono do Carlinhos Bar, Arno Carlos Gracher, sentiu um choque de gerações entre os anos 50 e 60 e começou a se cansar do negócio, conforme contam suas filhas, Vânia e Gisela. O público passou a ser outro, popular. Chegava uma geração nova. Desmotivado, Gracher preferiu não investir mais.

“Passou a ser mais danceteria. O pai se incomodou a ponto de ter que tirar algumas pessoas que passavam um pouco dos limites, principalmente em relação ao horário de ir embora e à bebida. Isto causava alguns atritos, porque às vezes eram filhos de seus amigos”, explica Vânia.

Vânia e Gisela não se lembram da data exata do fechamento do Carlinhos Bar, mas acreditam que foi no início dos anos 60, quando a família Gracher abriu a fábrica de sorvetes Real no mesmo lugar do bar.

Eleição do Brotinho do Mês foi tradição de vários anos | Foto: Livro Gracher – Uma empresa faz 100 anos

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