Em primeiro lugar, quero afirmar que, sim, você é uma Beltrana. Porque todas nós, mulheres, somos beltranas. Nós transformamos nosso “lugar histórico” em protagonismo, em uma capacidade linda de sermos donas da nossa História. Você é como nós.

Isso dito, vem a parte ruim. Há uma semana, você, beltrana desconhecida, loiríssima, chiquérrima e distraidíssima, resolveu que o mundo tem que girar ao seu redor, não importando quem você iria, literalmente, ferir no caminho. Sua pressa – que é compartilhada por todo mundo, maldito tempo em que todos vivem com pressa, mesmo em uma cidade tida como mais tranquila, sem a tradição de correria das metrópoles – levou você a achar aceitável furar um sinal que já estava fechado para você há uns 10 segundos. Verificando, apenas, se algum carro poderia atingir o seu. Você nem se lembrou se olhar para o outro lado e verificar a faixa de pedestres. Infelizmente, beltrana desconhecida, isso mostra as suas prioridades. E elas não são lá muito defensáveis. Ah, sim, isso aconteceu na problemática esquina entre a R. João Bauer e a Felipe Schmidt, cenário de muitos atropelamentos.

Foi assim que você atingiu, ainda bem que não o suficiente para causar maiores problemas ou uma tragédia, um homem e seu cachorro, que estava no colo dele. Melhor dizendo (e me perdoem o horrível uso de um advérbio que denota pura posse, é só uma questão de deixar claro), meu homem e meu cachorro. Preciso contar que eles, pedestres defensivos, esperaram vários segundos para atravessar a rua, na faixa, depois que o sinal abriu para eles. Justamente porque muitas pessoas agem como você agiu.

Nicki, minha cria de quatro patas, só não foi arremessado em direção aos carros que seguiam conforme as regras, do outro lado da esquina, com o semáforo verde, porque Juliano, meu namorido, teve reflexos maravilhosamente rápidos e protegeu o cachorrinho com seu corpo, expondo o braço dele ao seu carro e se machucando levemente, mas o suficiente para atrapalhar a rotina dele. Você achou que podia fazer isso, beltrana egoísta. Por que você achou que podia fazer isso?

Até agora indignada com a situação e só conseguindo imaginar qual teria sido o cenário mais grave, com direito a um cão morto e uma pessoa bem ferida, tenho vontade de perguntar para você, beltrana irresponsável, como foi que você ainda teve coragem de jogar um mísero pedido de desculpas pela janela e, mais uma vez, arrancar seu carro e sumir na cidade. Sem saber se as suas vítimas precisavam de socorro. Isso não se faz, beltrana. Não se faz de jeito nenhum.

Imagino que você tenha ficado com medo das consequências. Das reações das pessoas. Imagino que você não seja uma pessoa acostumada a admitir erros e assumir o papel de resolvê-los. Imagino, infelizmente, que você não tenha o sentimento de que todas as pessoas tenham os mesmos direitos. Imagino que você tenha que desenvolver a civilidade e a empatia.

Era isso que eu queria dizer para você, beltrana desumana. Evolua. Exercite a atenção e a gentileza. Não trate o mundo como o seu quintal. Não se sinta a dona, a princesa de tudo. Nós também estamos aqui e temos o direito, básico, de atravessar uma rua sem ser vítima da sua estupidez.

Você é capaz de fazer isso?


Claudia Bia
– jornalista e beltrana conhecida

Em primeiro lugar, quero afirmar que, sim, você é uma Beltrana. Porque todas nós, mulheres, somos beltranas. Nós transformamos nosso “lugar histórico” em protagonismo, em uma capacidade linda de sermos
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