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Brusquense deixa trabalho no Correios após mais de 40 anos de dedicação e relembra trajetória

Ex-funcionário relatou dificuldades vividas pela empresa, casos de bioterrorismo e ameaça de clientes

Nildo Venturelli, de 64 anos, encerrou no dia 20 de junho uma passagem de mais de 40 anos pelo Correios de Brusque. Natural de Brusque e morador do bairro Águas Claras, ele relatou ao jornal O Município as mudanças na unidade ao longo do tempo e as dificuldades que a instituição tem passado por conta da falta de funcionários.

Ele entrou no Correios em 1981 após receber uma indicação de um amigo que estava há apenas 17 dias.

“Ele me indicou para trabalhar lá, disse que tinha várias vagas, mas eu não queria trabalhar na rua, de carteiro. Aí mais tarde contou que havia vaga para mensageiro, mas mensageiro também é na rua, para entregar telegrama”. E assim acabou aceitando. Aos 19 anos, Nildo iniciava sua carreira profissional no Correios de Brusque. Ele atuava no Centro de Distribuição dos Correios, localizado na avenida Bepe Rosa.

Mas antes, o jovem já havia trabalhado em outros lugares. Aos 14 anos ingressou na antiga Fábrica Renaux, passando depois para uma empresa na localidade do Bulcão Viana.

Depois de um curto tempo nos Correios, Nildo fez o concurso e passou em segundo lugar, disputando com cerca de 30 pessoas. No período, residia no bairro Primeiro de Maio. E conta que o gerente foi até sua casa para chamá-lo. Logo fez os exames e foi para Florianópolis passar por um período de experiência. Na função de mensageiro, atuou por dez anos. “Depois eu mudei de cargo, aí comecei a trabalhar lá dentro como operador telegráfico”. Como mensageiro, trabalhou por oito horas, após a mudança de função, passou a trabalhar seis horas diárias.

De acordo com ele, o trabalho era resumido em passar e receber telegramas, além de colocar correspondência em caixas postais. Naquela época, eram entregues de bicicleta, “hoje, esse serviço é entregue de motocicleta. Às vezes, de carro, quando o cara vai levar um pacote, por exemplo, aí ele já leva”.

Vitor Souza/O Município

Ao longo dos 44 anos de trabalho na empresa, ele destaca que a principal mudança foi trazida pelos computadores. “Antes, quando comecei, era arcaico”. Essas evoluções puderam ser vistas na última função que exerceu no Correios, como operador de triagem e transbordo. De forma resumida, era responsável por classificar, organizar e direcionar os destinos das mercadorias.

Quando ainda era uma cidade com 40 mil habitantes, Nildo menciona que a demanda era menor, mas agora, com um ganho de mais de 100 mil habitantes, conta que é uma “loucura” e aponta as dificuldades que a instituição tem passado. “O Correio está passando por uma crise de falta de contratação de funcionários”. Apesar de ter realizado um concurso recentemente, Nildo explica que os novos profissionais ainda não foram chamados.

Além da não apresentação de novos funcionários, os que já são mais antigos estão aderindo ao Plano de Desligamento Voluntário (PDV). A iniciativa permite disponibilizar um incentivo financeiro às pessoas que quiserem sair da empresa. Ela é voltada para quem trabalha na estatal há pelo menos 25 anos. Assim, a baixa de funcionários e a falta de reposição de trabalhadores têm prejudicado a prestação de serviços e, segundo ele, é o principal motivo para as várias paralisações já realizadas.

Outro apontamento que o ex-funcionário traz é a falta de reposição salarial, assim como o encarecimento do convênio médico. “Íamos ao médico e pagávamos apenas pela consulta, pagava só pelo que usava, a consulta ou o exame. Agora não. Sem usar, eles já estão descontando do salário”, desabafa.

Com as conversas sobre a tentativa de privatizar o serviço prestado pelos Correios, Nildo entende que esse não é o melhor caminho e que no governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, houve um sucateamento da estatal com a intenção de fazer a privatização.

“Ele [Bolsonaro] disse que privatizar melhoraria, mas eu não sei. Isso – a situação atual – é uma coisa que vem de tempo. Se tivessem contratado os carteiros, os entregadores suficientes, não iriam acontecer essas coisas”, conta.

Como uma forma de melhorar o atendimento, Nildo explica também que a empresa passou a contratar funcionários de forma terceirizada, que geralmente fazem as entregas de pacotes.

Perrengues


O ex-funcionário relembra golpes que sofreu envolvendo a entrega de cartões de crédito para pessoas que apresentavam documentos falsos.

“Entregava um cartão para pessoa, mas não era aquela pessoa a proprietária. Eles utilizavam um documento falso e pegavam os cartões. Eu entreguei já dois cartões para uma pessoa que apresentou um documento falso para mim. Teve um dia em que eles descobriram, pois a foto do documento não bateu com a identidade. Aí chamaram a polícia, que algemou o golpista”.

Ele acredita que alguém de dentro do banco estaria passando informações sobre os cartões. “Alguém do banco devia estar sabendo a senha, pois o cartão vem separado”.

Nildo sempre gostou de trabalhar no Correios e conta que nunca se arrependeu | Vitor Souza/O Município

Em outro momento, teve o cartão furtado da mão enquanto ainda explicava ao golpista que não podia lhe entregar o produto. “Uma vez estava com o cartão na mão e explicando que não podia entregar porque não estava no nome da pessoa. Então, o cara veio e arrancou o cartão na minha mão e saiu correndo”.

A partir de casos como esses, Nildo explica que a segurança na retirada de alguns produtos passou a ser maior. “Até a gerente do Correio dizer para nós: ‘olha, não entregue mais cartão com autorização’, pois ele vinha com uma autorização para ser retirado por terceiros”.

E menciona também as confusões causadas por familiares ou conhecidos que recebiam as entregas dos proprietários dos produtos. “A pessoa falava ‘eu vim buscar um pacote, mas aqui no sistema diz que foi entregue para um tal de Rogério’. Sim, foi entregue para o Rogério. Quem é o Rogério? ‘É meu filho!’. E mesmo assim o cara vai lá no Correio reclamar que o filho recebeu o produto e não entregou para o pai”.

Questionado se já foi abordado na rua enquanto estava com o uniforme de trabalho, ele responde que sim, e por diversas vezes. “Há muito tempo que não entrego na rua, mas, geralmente, quando é carta simples, chega até a nos ameaçar”.

“Tem gente muito boa pra atender, mas tem alguns que não querem nem saber”. E também exemplifica clientes que vão até o local para cobrar a retirada de encomendas. “Quer ver a tua encomenda? Tem mais de quatro, cinco mil objetos aqui. Vai lá e procura, se conseguir achar…”.

Conforme Nildo, às vezes a encomenda pode estar no contêiner, da unidade, mas nem sempre esse produto já consta no sistema dos profissionais.

Períodos difíceis


Vivendo acontecimentos marcantes da cidade como grandes enchentes e a pandemia da covid-19, ele relembra que a pandemia foi um períodos difícil, mas também aponta problemas no início dos anos 2000, onde houve bioterrorismo envolvendo a distribuição de cartas contaminadas com “antraz”, nos Estados Unidos.

“Diziam que as coisas que vinham de fora poderiam ter algo estranho e dar algum problema, então usávamos máscara, mas foi por pouco tempo”. Sobre a pandemia, também falou do grande incômodo em utilizar máscaras e o contato diário com o público.

Caminho a seguir


Agora, sem trabalhar, Nildo ainda não sabe o que fazer. “Estou acostumado a trabalhar desde os 14 anos, acordando cedo, cumprindo horário, toda vida chegava cedo, nunca chegava tarde, quase nunca faltava”. Risonho, ele afirma que agora deve aproveitar o tempo brincando com os netos.

“Uma hora a gente vai ter que sair. A gente sabe que vai ter que sair, por bem ou por mal. Então aproveito esse incentivo que o governo dá para a gente sair. Também não dá para sair sem, de repente, pode não ter mais”.

Ao final, ressalta que não se arrepende de ter trabalhado no Correios e que sempre gostou do trabalho. “Fiquei e fui gostando do trabalho, se eu não gostasse, não estaria. É uma empresa que não atrasa o salário, pode ser crise, como for; entra e sai governo, mas nunca atrasa”. E encerra torcendo para que a situação da empresa melhore.

Uma das poucas fotos que Nildo tem com a equipe | Arquivo pessoal

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Como surgiu e o que restou da primeira usina elétrica da região, criada em 1913 em Guabiruba:


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