Santa Catarina é um dos estados mais bem servidos de infraestrutura portuária. No Litoral Norte, há dois principais portos: o de Itajaí e o de Navegantes. Ambos têm planejamento para ampliações, mas, para que o crescimento possa se concretizar, é preciso que as rodovias deem condições de circulação de cargas.

Os portos e as rodovias são vitais para o desenvolvimento da economia. Tê-los em patamares competitivos é importante principalmente para a indústria, que importa grande parte da sua matéria-prima.

Gabriel Dantas, do Núcleo de Comércio Exterior da Associação Empresarial de Brusque (Acibr), diz que Santa Catarina tem como grande diferencial o Imposto sobre Operações relativas à Circulação de Mercadorias (ICMS) mais baixo do que noutros estados.

Entretanto, a competitividade portuária catarinense é minada pela qualidade das rodovias. “Os portos têm sido modernizados a passos largos, mas a malha rodoviária ainda é um gargalo grande”, avalia o especialista em comércio exterior.

Com experiência de atuação em portos do Sudeste do país, Dantas avalia que os dois portos têm boa infraestrutura e tarifas competitivas em relação aos concorrentes.

Rodovias
Héder Cassiano Moritz, assessor de direção da Superintendência do Porto de Itajaí, avalia que os portos são totalmente reféns da infraestrutura rodoviária, na medida em que não existem ferrovias que os conectem ao destino das cargas no interior do estado.

A rodovia Antônio Heil tem importância central no desenvolvimento dos portos do Vale porque nela fica o chamado “porto seco”. Os terminais de armazenagem e de logística se concentram nessa região e é por ali que passa grande parte das cargas que desembarcam nas docas de Itajaí e de Navegantes.

“Com a rodovia duplicada, há uma agilidade no transporte e tem mais segurança. O volume de cargas e caminhões conflitando com os de menor porte é menor”, avalia Moritz.

O Portonave recebe diariamente, em média, 1,6 mil caminhões. Em alguns dias, chega a picos de 2,1 mil. O volume expressivo significa que há pouca margem para erros.

“Qualquer obstrução de via é um problema muito sério para cumprir prazos na operação dos navios. A operação é muito rápida, e ela precisa que essa carga tenha um fluxo regular. Qualquer diminuição, interrupção ou redução no volume pode afetar a produtividade dos terminais”, afirma Osmari de Castilho Ribas, diretor-superintendente do Portonave.

Brusque chegou a ser homenageada com guindaste

A indústria brusquense tem uma ligação histórica com o Porto de Itajaí. Moritz, que é de Brusque, conta que desde a década de 1940 as grandes empresas – Schlösser, Renaux, Buettner e outras – têm importante participação na movimentação de cargas.

Era o tempo de ouro da indústria têxtil, que trazia bastante matéria-prima de navio. Mas a metalurgia também era relevante, com a Zen e a Irmãos Fischer. O segmento de produtos químicos também era importante.

O volume era tão grande que a cidade recebeu uma deferência da direção portuária. “Brusque chegou a ser homenageada com um dos guindastes que fazia a operação dentro do porto. Um dos guindastes do porto se chamava Cidade de Brusque, em função da importância que Brusque sempre teve”, comenta o assessor de direção.

Porto de Itajaí planeja aumentar acesso aquaviário

Necessidade antiga, o Porto de Itajaí planeja inaugurar em breve o acesso aquaviário, a bacia de evolução, em execução desde 2016. A obra é necessária para que navios maiores possam ser recebidos.

Atualmente, o porto está limitado a receber embarcações com, no máximo, 307 metros de comprimento e 48 metros de largura. Contudo, o comércio marítimo tem utilizado navios cada vez maiores, por isso é necessário aumentar a capacidade.

Com a nova bacia de evolução, a previsão é poder receber barcos de 335m a 365m de comprimento e 50m de largura, que são os navios já previstos para a costa brasileira.

“Queremos chegar ao fim de 2018 em condições de receber esses navios. Estamos perdendo uma parcela de carga que hoje não chega por essa limitação”, afirma Moritz.

A obra fará com que mais navios cheguem ao porto, com mais cargas. Isso tem impacto direto na quantidade de caminhões transitando pelas rodovias, sobretudo na Antônio Heil, onde fica o porto seco.

Moritz avalia que é peremptório que os acessos e as rodovias sejam melhorados e acompanhem a evolução da estrutura portuária.

No primeiro semestre deste ano, o Complexo Portuário de Itajaí – que integra o porto público, o Portonave e outros terminais privados – registrou crescimento de 4% na movimentação de cargas. Foram mais de 552 mil TEUs (Twenty-Foot Equivalent Unit – unidade internacional equivalente a um contêiner de 20 pés).

Cabotagem
A cabotagem (navegação entre os portos do mesmo país) tem ganhado cada vez mais espaço. De acordo com a Superintendência do Porto de Itajaí, no primeiro semestre deste ano foram movimentados 40.555 contêineres. No mesmo período de 2017, o volume havia sido de 17.568.

“Esse sistema tem tudo para incrementar no aumento de movimentação e assim se consolidar neste segundo semestre tornando-se uma importante alternativa no transporte de cargas”, afirma Moritz.

Portonave tem 400 mil metros quadrados de área | Foto: Portonave/Divulgação

Crescimento do comércio exterior depende de obras 

O Portonave planeja crescimento para os próximos anos. Já há algum tempo o porto de Navegantes tem ganhado mais relevância e “roubado” clientes do vizinho de Itajaí.

Privado, o porto navegantino possui 400 mil metros quadrados de área e 900 m de cais, divididos em três berços. Um diferencial é que o Portonave conta com armazém refrigerado, o Iceport, para cargas frigorificados.

O diretor-superintende Ribas explica que a empresa vê o estado inteiro como potencial cliente. “Toda a região é muito relevante, mas enxergamos Santa Catarina como um grande potencial para o comércio exterior.”

O Portonave movimentou 54% de toda a operação de contêineres em Santa Catarina no ano passado. Segundo Castilho, ficou atrás somente de Santos (SP), o maior porto do Brasil.

O aumento na movimentação de cargas depende de que os clientes tenham como levar e trazer os contêineres até o porto. Ou seja, é preciso que a infraestrutura dê condições para o crescimento.

As cargas do Alto Vale e do Meio-Oeste, por exemplo, chegam aos dois portos pela BR-470. A rodovia federal é uma artéria vital para o desenvolvimento de todo o Vale.

“Temos o impacto direto da BR-470 que chega ao Portonave. E temos essa malha viária local, como a Antônio Heil e a BR-101. Qualquer lugar com ponto de retenção, um gargalo, prejudica o escoamento tanto na importação quanto na exportação. Toda a malha rodoviária chegando próximo ao porto é muito importante”, afirma o diretor-superintendente.

O secretário-executivo da Câmara de Transporte e Logística da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), Egidio Antônio Martorano, afirma que é necessário pensar no eixo litorâneo da BR-101.

Para Martorano, a via expressa portuária é um projeto importantíssimo que deve estar na pauta o quanto antes. O secretário-executivo diz que pouco adianta somente duplicar a Antônio Heil e a BR-470 sem pensar no eixo da BR-101.


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