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Pianista cego em Guabiruba esbanja talento e procura oportunidades para viver da música

Com fortes referências no jazz e no blues, William Miranda desenvolve habilidade impressionante desde a infância

O músico William Miranda estava sentado de frente para seu piano elétrico no ginásio do Sesc de Brusque, em 25 de julho, para a abertura da ParaCopa Sesc. Era uma das raríssimas vezes em seus 27 anos em que se via envolvido com o paradesporto ou qualquer esporte. Parecia tímido, às vezes imóvel, falando com poucas pessoas num ambiente totalmente novo para si.

Equipes de basquete sobre cadeiras de rodas assistiam à cerimônia e aos discursos das autoridades, enquanto aguardavam ansiosos pelo início das tradicionais competições. E William, num dos raros trabalhos agendados naquele mês, tinha duas tarefas protocolares naquele início de noite.

Na primeira, tocou o Hino Nacional com tremenda facilidade. Era como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes. Como se nem precisasse olhar o que estava fazendo.

E de fato, não precisava.

Quando a treinadora Fernanda Fidélis da Silva, da Apedeb, de Brusque, falou, impressionada, que William é cego, quem ouviu teve dificuldade para acreditar. Mas basta uma animada conversa com o músico para descobrir que seus óculos são apenas para estilo.

"Esses óculos aqui não me fazem enxergar, não, cara. Eu uso porque disseram que fica legal em mim. Aí, então tá, vou ficar de óculos", contou, bem humorado, semanas depois, em sua casa, no Centro de Guabiruba. 

Encerrando a cerimônia da ParaCopa, William se apresentou não apenas com o piano, mas também com os vocais: a interpretação de Don't Know Why, de Norah Jones, elevou o nível da solenidade.

William canta "Don't Know Why" na Paracopa Sesc | Foto: João Vítor Roberge/O Município

Talento desde a infância


A música acompanha William desde a primeira infância. Tinha apenas 2 anos quando descobria ritmos batucando em potes e no que pudesse fazer qualquer som que lhe interessasse.

Aos 4 anos, um teclado de brinquedo e uma alta capacidade de memorização começaram a revelar um talento a ser trabalhado.

"Eu ouvia as músicas no rádio, na igreja, na TV, em qualquer lugar. Tirava as músicas de ouvido, tirava as minhas melodias. Escutava ali uma trilha sonora e tocava uma melodia dela. Ia para a igreja, voltava, e e com base no que eu lembrava, tirava as músicas. Era, e é, meio que um exercício de memória, né? E eu decoro muita coisa", explica.

O talento se desenvolvia, e começava a impressionar cada vez mais as pessoas à sua volta. William encontra as teclas certas, as notas certas, com extrema facilidade, sem enxergar, e começa a tocar. Por muito tempo, o músico negou a classificação de seu talento como um "dom". Hoje, a visão é um pouco diferente.

"Talvez eu tenha um dom, sabe? Eu acho que o que eu faço, de fato, é Deus mesmo que me permite fazer isso. Sou grato a Ele por me deixar tocar. Mas é claro, se você tem um dom ou não, esse fato não pode substituir o estudo, então você deve fazer sua parte."

Foi na infância o talento começou a ser descoberto | Foto: Arquivo pessoal

Aperfeiçoamento


Aos 6 anos, William ganhou seu primeiro teclado de verdade. Aulas de música formais, de fato, só começaram aos 16, quando começou a perder os resquícios de percepção da luz que tinha até então. Antes, era tudo na base do aprendizado solitário dos acordes e da reprodução dos padrões "Foi quando eu me aprofundei mais no jazz, na bossa nova. Mesmo que eu já tocasse legal, eu fui dando nome às coisas, aos acordes. Fiz dois anos de aula."

Depois, o guabirubense integrou um conservatório em Itajaí, onde tocou dos 21 aos 23 anos. Foi uma vivência importante para refinar os aprendizados, mas também uma experiência com dificuldades.

"As aulas práticas eram bem legais, eu me divertia bastante. Fiz parte da banda do conservatório, o que também foi bem divertido para mim, fiz amizade com os integrantes, com o professor. (...) Mas de modo geral, as aulas de teoria, muito visuais, para um cego, acabam sendo praticamente desnecessárias", avalia.

"Para um cego que quer aprender a tocar alguma coisa, melhor fazer aula particular. Não recomendo nem faculdade, nem conservatório. Porque o professor particular é que vai ter que se adaptar ao aluno. É muito mais fácil que o professor de uma turma adaptar todo um sistema com outros alunos."

https://youtube.com/shorts/eTTnEht6FZs?si=Ut1WZZ7YDVL95ncW

Como funciona


William é apaixonado por jazz e blues, dois dos gêneros que mais curte tocar no piano. É de onde busca mais referências, de onde consegue se expressar com mais fluidez. Ouvidos afiados, memorização e harmonia se unem, e as melodias são construídas ou reproduzidas.

"É uma combinação entre tato, memória e mentalização. E se você coloca isso no jazz, isso fica ainda mais maluco. Porque o jazz, em uma amostra, pede improvisação. Então, eu tô tocando jazz, eu faço uma melodia, só que tem improvisação. E aí, eu rodo pelo piano todo", explica, enquanto dá um rápido exemplo, passeando com desenvoltura pelo piano.

"São padrões relacionado à harmonia, melodia, rítmica, né? São muitos padrões que eu tenho dentro de mim. E quando eu tô tocando, eu simplesmente escolho o padrão que eu considero mais interessante. E vou aplicando diversos padrões, diversas linguagens. É como se você falasse vários idiomas na música. São vocabulários musicais com mentalização, com tato, com percepção, com sensibilidade. E se tem um nome para isso, para esse estudo, eu também não sei."

Foto: Arquivo pessoal

Gostos e referências


Para além de jazz e blues, William se encontra em gêneros como o Pop Country e o R&B. De Michael Jackson e Prince, passando pelo jazz de Keith Jarrett, Oscar Peterson, Bill Evans e Tommy Flanagan e por eruditos como Chopin, Debussy, Shostakovich e Stravinski, o músico guabirubense encontra suas principais referências.

"São as pessoas que eu estudo, que eu ouço e penso: 'Esse cara aqui faz umas coisas legais, que vale a pena eu tentar fazer também. Não no sentido de tocar como eles. São as boas ideias que eu posso aproveitar.'"

Entre os diferentes gêneros, há uma ênfase em um específico: "Eu adoro blues. Eu gosto de tudo de blues mesmo, desde o início. Ele meio que está em quase toda música americana. Inclusive eu acho que o blues é essencial para quem quer tocar bem. Você quer tocar bem? Você tem que tocar blues. É, sem a linguagem do blues, eu não sei nem dizer, fica muito difícil."

Por outro lado, trilhas sonoras também fascinam William de diferentes formas, desde John Williams com Star Wars até Toshio Masuda com Naruto.

https://www.youtube.com/watch?v=4o9WygC9dZE

Não é sobre superação


As habilidades e o repertório no piano são vistos, com frequência, como exemplo de superação. Mas, para o músico, "superação" não é a palavra certa. Ele é crítico desta abordagem, e a vê como uma questão cultural distorcida de tratar a pessoa com deficiência. Seu modo de lidar é outro. Problemas estruturais para esta parte da população não são resolvidos, e vê-los tentando contornar dificuldades que não precisavam existir se torna "superação".

"Não é muito minha onda. Eu sou mais realista. Quando você vai ver, o cego raramente tem oportunidade de emprego. Para superar desemprego, tem que ter emprego. Para superar fome, você se alimenta. É assim que funciona."

Viver de música?


Apesar de todas as habilidades e de um talento impressionante, William não consegue viver de música, nem mesmo ter uma renda complementar constante. Falta encontrar um lugar que o acolha enquanto artista para um trabalho fixo com seus estilos.

Ele também oferece aulas particulares. "Meu estilo de dar aula é bem prático mesmo. Não tem partitura, porque nunca li partituras, não tenho acesso. Então é bem mão na massa."

Enquanto não consegue se manter com o que mais gosta, William até pensa em outras soluções. Já trabalhou em agência de banco em Brusque, mas o transporte público quase inexistente em Guabiruba inviabilizou a continuidade.

Nas redes sociais, o músico faz a divulgação de seu trabalho no Instagram e no YouTube: @williammirandamusic. Realiza edições e publicações quando consegue alugar um MacBook, que, em sua avaliação, tem a acessibilidade ideal para uma pessoa cega.

"Eu tô procurando um lugar que combine com o meu perfil. Um lugar que aceita um trabalho artístico, um trabalho pianístico, com pessoas de mente aberta. Estou com 27 anos e não posso deixar correr muito mais tempo", resume.

Foto: O Município/Reprodução

Assista agora mesmo!


Quem foram e como atuavam os primeiros médicos a atender as famílias de Guabiruba:


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