Rio Itajaí-Mirim
Sob o pseudônimo de Alberto Caeiro, o poeta português Fernando Pessoa referenciou em uma das mais de mil poesias que escreveu: ‘o Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia’.
Que dizer sobre o Itajaí-Mirim, um rio que passa na ‘aldeia’ chamada Brusque? Uma Oração de Graças ( 1987) escrita por Maria Teresinha Krieger Merico lembra: “Obrigada, Senhor, pelo rio Itajaí-Mirim, estrada pela qual vieram nossos antepassados”. Escrevi um poema dedicado à imigração polonesa em Brusque e nele lembro da ‘Mulher Imigrante, à beira do rio Itajaí-Mirim, batendo a roupa.’ Seja através de uma oração ou de uma referência, não há como separar o referido rio da nossa história.
Ele está representado no Brasão de Armas do município. Já serviu de navegação, tendo sido utilizado como único meio de comunicação no início da colonização. E o foi por quase dez anos, quando os donos de serrarias usavam para transportar as toras. Elas flutuavam desde a sede da então Colônia Itajahy (atual Brusque) até a foz do rio Itajaí-Açú.
Ah! O rio da minha aldeia! Serviu até para emprestar seu nome à Colônia. Mas ele nem sempre foi sonho e ilusão, negócios e meio de transporte. Foi tormenta e tristeza também.
Oscar Gustavo Krieger, no Guia da Cidade de Brusque (1947), fez referências às enchentes, destacando as nove primeiras. Desde sempre, do início da fundação da cidade (1860), o noticiário já apontava calamidades. Ei-las: 7-9/1862; 10/10/1862; 7/9/1864; 31/1/1866; 26/11/1868; 31/1/1869; 21/1/1876; 22/1/1877; 22/9/1880 – essa, a ‘enchente grande’.
Há que se considerar uma enchente aqui não relacionada, a de maio de 1877, ‘cuja calamidade atingiu Porto Franco e lugares vizinhos, com prejuízos totais, perdendo-se toda a lavoura e, na forma do costume, danificando estradas e pontes’, segundo o historiador Oswaldo Rodrigues Cabral.
As águas do rio Itajaí-Mirim eram implacáveis. Assustavam a todos, não dando trégua para a lavoura, gado ou habitantes. Pelas datas das enchentes, muitos imigrantes de diversas nacionalidades haviam chegado recentemente à Colônia: 1862/1868: os alemães; 1869/1876: os poloneses; 1876/1880: os italianos.
A de 1880 foi citada por Cabral: “Em setembro de 1880 registrou-se a maior enchente que a Colônia já vivera em seus 20 anos de existência e as águas do rio Itajaí e seus tributários, a 22, começaram a crescer com grande velocidade e, a 23, já alcançavam o peitoril das janelas das casas (…)”. Chegou a repercutir na província do Paraná, levando a uma campanha de solidariedade entre os paranaenses, a fim de arrecadarem doações em dinheiro para os atingidos. Um documento datado de 16/9/1880 (Arquivo Público do Paraná, pesquisa da autora), do Palácio da Presidência da Província de Santa Catarina, assinado pelo dr. João Rodrigues Chaves, agradecia ao Presidente da Província do Paraná a atenção: “aos sofrimentos dos habitantes das Colônias Itajahy e Príncipe Dom Pedro e Blumenau. Em nome d’esses infelises, agradeço cordialmente a V. Ex. a sua louvável iniciativa n’esse caridoso empenho (…) “(sic).
Outras enchentes, de tristes lembranças como as de 1961 e 1984, ainda povoam o imaginário das muitas pessoas, pois foram igualmente trágicas.
O Código de Diretrizes Urbanísticas, previsto pelo Plano Diretor do Município de Brusque cita como um de seus objetivos: ‘Resgatar a presença do Rio Itajaí-Mirim como elemento da paisagem urbana, desenvolvendo o seu papel como principal referência para a imagem e a identidade de Brusque’ (Cap.II, art. XI).