Estudo analisa água do rio Itajaí-Mirim e de ribeirões de Brusque; veja resultados ponto a ponto

Pesquisadoras da Unifebe interpretam resultados e apontam pontos a evoluir

Estudo analisa água do rio Itajaí-Mirim e de ribeirões de Brusque; veja resultados ponto a ponto

Pesquisadoras da Unifebe interpretam resultados e apontam pontos a evoluir


Cinco anos depois, o jornal O Município e a Unifebe voltaram a realizar um estudo de análise de 12 pontos do rio Itajaí-Mirim e ribeirões da cidade para analisar e comparar a qualidade da água.

Foram coletadas amostras do rio Itajaí-Mirim no Santa Rita (ponte do Trabalhador), Limoeiro, Jardim Maluche e Cristalina. Já os ribeirões foram analisados nos seguintes bairros: Bateas, Cedro Alto, Dom Joaquim, Limeira, Santa Luzia, São Pedro e Zantão. Além disso, foi também analisada a água da gruta do Azambuja.

O estudo

Os mesmos pontos que foram analisados em 2017 foram os objetos do estudo deste ano. Coordenadora do curso de Engenharia Química da Unifebe e responsável pelo laboratório, Rafaela Bohaczuk Venturelli Knop explica que os resultados desta análise são mais precisos pela evolução dos métodos de pesquisa.

“Nosso método de análise evoluiu. Trocamos o equipamento e a forma de análise, usando outros reagentes. Fornecem resultados mais precisos. Comparar os valores diretamente fica um pouco complicado, porque otimizamos os dados e parâmetros. Mas conseguimos perceber algumas mudanças pelo que foi encontrado em cada amostra”, explica.

Na maioria dos pontos, a análise feita foi a de balneabilidade, como é feito também em praias, já que, nesses trechos, a água não é utilizada para consumo.

“Essa água do rio, o Samae faz a coleta e o tratamento. Mas tem gente que usa diretamente para consumo dos animais, para irrigação. Então é importante sabermos se é uma água ruim e também demanda uma quantidade de químicos maior para tratar”, diz.

A única análise diferenciada foi feita na gruta do Azambuja, onde as pessoas retiram direto para consumo. Neste caso, os critérios são de potabilidade.

Água da gruta do Azambuja foi analisada de acordo com critérios de potabilidade | Foto: Luiz Antonello/O Município

Rafaela destaca que, em ambas as análises, as condições climáticas eram bem próximas, de relativa seca do rio, o que é positivo para que o estudo seja mais preciso.

“Isso interfere muito na hora da análise. Quando chove muito, por exemplo, o Samae não consegue captar, porque entope os filtros. Além disso, os químicos podem diluir mais facilmente por causa da chuva, deixaria o percentual menor”.

As análises foram feitas de acordo com orientações do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O órgão definiu métodos para a classificação dos corpos de água e diretrizes ambientais para o seu enquadramento, bem como estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes.

O Conama também dispõe sobre condições, parâmetros, padrões e diretrizes para gestão do lançamento de efluentes em corpos d’ água receptores e sobre os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade.

Análise dos resultados

As águas do rio Itajaí-Mirim, e seu conjunto de afluentes, são responsáveis pelo abastecimento de toda a cidade de Brusque. Além disso, em regiões periféricas onde há o cultivo de subsistência e a pecuária, é comum o uso desta água para irrigação e consumo de animais.

Entre os achados na análise verificou-se que todos os 11 pontos têm presença marcante de íons ferro, quatro pontos têm presença marcante de íons de cromo e outros quatro de íons manganês, um tem presença marcante de íons potássio e cinco possuem condutividade elevada.

*clique nos ícones para ver fotos e detalhes das análises de cada local

O que mais chamou a atenção das pesquisadoras foi a presença de níveis de ferro maiores do que o recomendado em praticamente todos os pontos. Apesar disso, Rafaela destaca que isso não é tão preocupante porque existem vários processos para a remoção dessa substância.

“Foi um pouco acima do que a legislação para balneabilidade permite, mas não interfere tanto na água que será consumida, porque a captura do ferro na água é um processo muito desenvolvido na literatura, tem vários métodos que conseguem fazer, como o com a utilização de sulfato de alumínio. Não é de tão difícil remoção”.

Nível de ferro estava acima dos parâmetros recomendados em todos os pontos | Foto: Luiz Antonello/O Município

Rafaela acredita que, como o ferro foi encontrado na maioria dos pontos, a causa não deve ter sido o descarte irregular de efluentes.

“Como apareceu em todos os pontos, o ferro é uma questão mais complexa. Pode vir diretamente do próprio solo. Às vezes, uma chuva mais na cabeceira antes do período da coleta mexeu no fundo do rio e levantou o ferro que está ali. Pode ser também da indústria metalmecânica, mas, ainda assim, como pesquisadora, não me parece ser pelas empresas, já que não foi em apenas um ponto específico. Como vem desde a Cristalina, acho difícil ser um problema de tratamento de descartes”, analisa.

Técnica do laboratório de Engenharia Química, Elisabete Debatin explica que a movimentação do solo pode ser antrópica – causada por ação do ser humano – quando se retira material da margem do rio ou se fazem obras de terraplanagem.

Em outro ponto, também foi identificada uma quantidade de potássio acima dos parâmetros permitidos. Para Rafaela, a causa pode ser a utilização de fertilizantes na região.

“O potássio não vem da indústria metalmecânica e têxtil e, quando vem, é em pequena quantidade, não podemos atrelar a isso. Acreditamos ser proveniente de fertilizantes, já que é uma área mais agrícola”.

Entenda o que a presença de cada substância na água representa

Cromo
O cromo é utilizado na produção de ligas metálicas, estruturas da construção civil, fertilizantes, tintas, pigmentos, curtumes, preservativos para madeira, entre outros usos.
Na forma trivalente, o cromo é essencial ao metabolismo humano e sua carência causa doenças. Na forma hexavalente, é tóxico e cancerígeno. Os limites máximos são estabelecidos basicamente em função do cromo hexavalente. Portaria do Ministério da Saúde estabelece um valor máximo permitido de 0,05 mg/L de cromo na água potável

Ferro
Nas águas superficiais, o nível de ferro aumenta nas estações chuvosas devido ao carreamento de solos e a ocorrência de processos de erosão das margens. Também poderá ser importante a contribuição devida aos efluentes industriais, pois muitas indústrias metalúrgicas desenvolvem atividades de remoção da camada oxidada (ferrugem) das peças antes de seu uso, processo conhecido por decapagem, que normalmente é procedida através da passagem da peça em banho ácido.

O ferro, apesar de não se constituir em um tóxico, traz diversos problemas para o abastecimento público de água. Confere cor e sabor à água, provocando manchas em roupas e utensílios sanitários. Também traz o problema do desenvolvimento de depósitos em canalizações e de ferro-bactérias, provocando a contaminação biológica da água na própria rede de distribuição. Por estes motivos, o ferro constitui-se em padrão de potabilidade, tendo sido estabelecida a concentração limite de 0,3 mg/L pelo Ministério da Saúde. É também padrão de emissão de esgotos e de classificação das águas naturais.

Manganês
O manganês e seus compostos são usados na indústria do aço, ligas metálicas, baterias, vidros, oxidantes para limpeza, fertilizantes, vernizes, suplementos veterinários, entre outros usos. Ocorre naturalmente na água superficial e subterrânea, no entanto, as atividades humanas são também responsáveis pela contaminação da água.

Potássio
Potássio é encontrado em baixas concentrações nas águas naturais, já que rochas que contenham potássio são relativamente resistentes às ações do tempo. Entretanto, sais de potássio são largamente usados na indústria e em fertilizantes para agricultura, entrando nas águas doces através das descargas industriais e de áreas agrícolas.

O potássio é usualmente encontrado na forma iônica e os sais são altamente solúveis. Ele é pronto para ser incorporado em estruturas minerais e acumulado pela biota aquática, pois é um elemento nutricional essencial. As concentrações em águas naturais são usualmente menores que 10 mg/L.

Condutividade
A condutividade é a expressão numérica da capacidade de uma água conduzir a corrente elétrica. Depende das concentrações iônicas e da temperatura e indica a quantidade de sais existentes na coluna d’água e, portanto, representa uma medida indireta da concentração de poluentes. Em geral, níveis superiores a 100 µS/cm indicam ambientes impactados.

A condutividade também fornece uma boa indicação das modificações na composição de uma água, especialmente na sua concentração mineral, mas não fornece nenhuma indicação das quantidades relativas dos vários componentes. A condutividade da água aumenta à medida que mais sólidos dissolvidos são adicionados. Altos valores podem indicar características corrosivas da água.

Lixo nos rios

Elisabete foi a responsável por colher as amostras e realizar a análise da água do rio. Para ela, o que mais chamou a atenção foi a quantidade de lixo encontrada ao longo do Itajaí-Mirim.

“Com relação à água, não tivemos nenhuma surpresa em relação aos índices que identificamos, porque sabemos que tem um descarte de efluentes. Já o lixo que encontramos me impactou, em todos os pontos, desde o mais afastado, no Zantão, até o Limoeiro. Encontramos plástico, panela, garrafa, sapato, pantufa, pneu de caminhão”.

Pesquisadora encontrou pantufa na beira do rio, no Cristalina | Foto: Luiz Antonello/O Município

Elisabete explica que a decomposição do lixo afeta o ecossistema dos rios no longo prazo.

“As coisas na natureza vivem em ciclo, não estão isoladas. O lixo também vai afetar a água ou o meio ambiente que tem relação com ela. Temos costume de apontar para as empresas, por causa da alteração da coloração do rio ou espuma. Mas as pessoas acabam esquecendo que suas ações também influenciam na qualidade da água. O ser humano, como um todo, faz parte de um ciclo”.

Como evoluir

Apesar de problemas de poluição e de falta de saneamento básico na cidade, o rio Itajaí-Mirim é um rio vivo e rico em ecossistemas, além de ser importante para a economia e o desenvolvimento da cidade.

“Acho como em todo o Brasil, é necessário um saneamento básico mais eficiente. Quanto antes começarmos, mais chance de termos um rio saudável por mais tempo. Essa parte de conscientização industrial, principalmente, de fazer o tratamento e o descarte regularizado, ajuda muito. Se todo mundo fizer sua parte, é possível manter o rio saudável”, analisa Rafaela.

“Se as políticas públicas não vierem antes, não tem como exigirmos que as empresas façam”, destaca Elisabete | Foto: Luiz Antontello/O Município

Para que o rio continue vivo, ela destaca que é necessário avançar em políticas públicas para equilibrar o desenvolvimento econômico e o cuidado com o meio ambiente.

“Quanto mais os processos forem otimizados e modernizados, mais vai prolongar a vida do rio. Muitas vezes, o rio está sujo, mas o descarte está dentro da norma. Nossos olhos são mais rigorosos que as normas. Se as políticas públicas não vierem antes, não tem como exigirmos que as empresas façam. Existe a necessidade de encontrar um equilíbrio e um avanço viável, porque precisamos da indústria. Começa em casa no descarte do lixo”.

Elisabete acrescenta que é necessário um avanço em relação ao descarte e tratamento de resíduos sólidos, para que eles não cheguem até os rios, mas também uma mudança de postura em relação à questão ambiental, que parta desde as crianças.

“A gente interfere no ciclo da natureza de uma forma que nem percebemos. Faltam políticas públicas, mas também conscientização. Tem que começar com as crianças e adolescentes, mudar a mentalidade. É um trabalho conjunto, deveria ser um costume o cuidado com o meio ambiente a questão ambiental, não apenas no Dia do Meio Ambiente ou no Dia da Água”.


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