Encontrar jovens com o desejo de se tornarem padres, hoje em dia, é algo raro, se comparado a décadas passadas. Reflexo disso é que as salas de aula nos seminários ficaram menores. Portanto, a Igreja Católica tem, diante de si, o desafio de conseguir manter o número de seminaristas, e o Seminário de Azambuja contribui diretamente nessa missão.

A casa de formação católica completa 90 anos de sua instalação em Brusque com vários desafios na formação dos padres. A empreitada é árdua: conseguir atrair mais jovens como Dumas Rafael Silveira Suligo, Tobias Ribeiro Garcia, Adson da Silva Muniz e Rafael da Costa Bolsanel, todos seminaristas atualmente.

Os quatro estão em diferentes estágios da formação sacerdotal, mas têm em comum um fato: contrariaram as estatísticas para buscar a formação sacerdotal. O padre Francisco de Assis Wloch, reitor do seminário, tem noção do que está à sua frente. Em tom de brincadeira, ele afirma que cuidar da formação de 30 jovens dá mais trabalho do que administrar uma paróquia com 100 mil habitantes.

Padre Francisco assumiu a reitoria há cerca de dois anos, mas tem uma história longa no Seminário de Azambuja. Ele estudou na instituição durante a década de 1960 e experimentou o seu estilo rígido.

O reitor diz que, naquela época, a formação do padre era muito mais fechada. O superior ordenava e o seminarista obedecia sem questionar. Mas isso mudou. “Tenho trabalhado um slogan: estamos formando os futuros padres e os padres do futuro. A gente estuda hoje para agir depois, e o mundo muda muito rapidamente”.

Seminaristas têm três momentos de oração no dia / Marcos Borges

A tecnologia e a velocidade da informação impactam no trabalho com os seminaristas. “O jovem é influenciado não só pelos formadores, mas pelas notícias. Na minha época, tínhamos pouco contato com o mundo. Hoje, os seminaristas têm mais contato com o mundo que com os formadores. Hoje, a influência sobre eles é menor que no passado”, considera o reitor do seminário.

Formação do padre na atualidade
Uma das instituições mais antigas do mundo, a Igreja Católica Apostólica Romana modernizou a formação dos sacerdotes. Ainda assim, no Seminário de Azambuja, o regime é rigoroso. Os jovens acordam por volta de 5h30, com a primeira oração às 5h45. Esse é o primeiro dos três momentos diários para a reza.

Há horários para cada atividade, e todos os estudantes devem participar de atividades laborais, como ajudar na preparação das refeições e na manutenção da horta. O regime é puxado, mas é bem visto pelos seminaristas.

O seminário acolhe candidatos a padre da Arquidiocese de Florianópolis e da Diocese de Tubarão. Os jovens em idade escolar frequentam o Seminário Menor – o Ensino Médio. Eles estudam na Escola de Educação Básica Dom João Becker, no bairro Jardim Maluche.

O segundo estágio da formação sacerdotal é o Seminário Maior – Ensino Superior. Os seminaristas, nessa etapa, estudam Filosofia na Faculdade São Luiz, no Centro. Há, ainda, uma exceção: estudantes que não fizeram o Seminário Menor passam pelo Ano Propedêutico (um ano preparatório) antes de entrar no Seminário Maior.

A última fase da formação é o curso de Teologia – também parte do Seminário Maior -, que dura quatro anos e é realizado em Florianópolis. Depois, o seminarista está apto a ser ordenado sacerdote.

O padre Eder Claudio Celva, formador no Seminário Menor, explica que os jovens estudam fora, mas também têm aulas internas, como acontecia décadas atrás. Padre Eder leciona internamente Oratória e Catecismo. No momento, também ensina a Bíblia, pois o padre titular está ausente.

Jovens são acompanhados de perto
A Igreja Católica tem, atualmente, mais cuidado na formação dos padres. Em outros tempos, explica o padre Francisco, um adolescente falava à família que queria ser padre e já era enviado ao seminário. O resultado eram salas repletas, com 50 alunos.

O esquema mudou hoje em dia. O jovem que tem interesse procura o padre na sua paróquia, e partir dali passa a ser acompanhado individualmente pela Pastoral Vocacional. Um padre visita a família e o jovem participa de encontros do Grupo de Orientação Vocacional (GOV).

Padre Francisco Wloch, atual reitor do Seminário de Azambuja / Arquivo pessoal

Foi assim com o jovem Dumas Rafael Silveira Suligo, 20 anos, que está no segundo ano de Filosofia, no Seminário Maior. “Decidi entrar no seminário aos 15 anos, mas os meus pais disseram para terminar a escola primeiro e ver se esse desejo continuaria no meu coração”, conta.

A vontade continuou, por isso, em 2014, ele frequentou o GOV para tirar as dúvidas. No ano seguinte, entrou no seminário. O processo foi mais tranquilo do que em outros tempos.
Colega de Dumas, Adson da Silva Muniz, 20, está no terceiro ano de Filosofia e diz que a igreja, hoje, trata com carinho quem escolhe o sacerdócio. “Antes, o seminário era cheio, com quase 200 pessoas, numa turma tinha 50, mas dois se ordenavam padres. Hoje, temos turmas de oito ou nove, mas seis ou sete ficam padres”, afirma.

Vida de seminarista exige dedicação
As redes sociais potencializaram o espírito festeiro dos jovens. A bebida também ganhou evidência, bem como outros comportamentos exagerados. Mas os jovens seminaristas têm de se manter fiéis à sua crença.

O primeiro desafio é contar à família e aos amigos que quer ser padre. Rafael é o mais jovem de todos: tem 15 anos, está no segundo ano do Seminário Menor, cursando o Ensino Médio. Natural de Florianópolis, ele conta que, a princípio, o pai não gostou da ideia, mas depois aceitou e hoje o acompanha.

As histórias dos quatro têm em comum o fato de terem nascido em famílias muito religiosas. A aceitação foi mais fácil, e houve até comemorações. Mas o segundo e mais complicado desafio é saber lidar com o estilo de vida de um sacerdote.

Tobias, que está no primeiro ano de Filosofia, diz que o desejo de ajudar os irmãos prevalece nesses momentos. “Você renúncia a muitas coisas, mas ganha outras em troca”, completa Dumas. A visão é compartilhada pelos colegas.

Disciplina é marca do cotidiano
A vida dentro do seminário é regrada. O uso de redes sociais, por exemplo, é moderado. Os alunos do Seminário Maior têm mais liberdade do que os do Seminário Menor. No entanto, o uso de Facebook e WhatsApp é comum entre os internos de Azambuja.

Embora vivam sob regras, seminaristas também têm momentos de brincadeira e diversão / Marcos Borges

“Nós, da Filosofia, temos um acesso maior a isso, com o devido cuidado e equilíbrio, mas utilizamos as redes sociais para alcançar aquele que está do outro lado. Buscamos todos os métodos para que o evangelho chegue às pessoas”, afirma Adson.

As saídas também são controladas. Se for necessário comprar algo, por exemplo, o seminarista deve informar ao padre, para que seja autorizado a sair do Seminário e, automaticamente, da rotina de estudos e trabalho.

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