Conheça projeto que luta por inclusão dos surdos em Brusque: “acham que não somos capazes”
Falta de acessibilidade em escolas e empresas ainda limita oportunidades
Apesar dos avanços, a comunidade surda ainda enfrenta obstáculos significativos, especialmente na educação e no mercado de trabalho. Em Brusque, a Associação de Surdos de Brusque (Asbru) atua como entidade voluntária e sem fins lucrativos em defesa dos direitos dessa comunidade. Atualmente, conta com 52 associados, entre surdos e ouvintes.
O projeto incentiva surdos de todas as idades a acreditarem em seus sonhos, utilizando esporte, lazer e cursos como ferramentas de inclusão. Oferece apoio online em psicologia, psiquiatria, fonoaudiologia e Libras, com planos para atendimentos presenciais em Brusque. Também busca ensinar Libras a ouvintes e criar uma Central de Libras, garantindo intérpretes qualificados em serviços públicos.
Sem sede própria, a Asbru utiliza uma casa e tem como meta conquistar um espaço definitivo para ampliar atendimentos e oferecer cursos acessíveis.
A presidente da Asbru, Camila Carolina da Costa Voss, surda de nascença com surdez bilateral profunda, também é vice-diretora de Esporte da Federação Desportiva dos Surdos de Santa Catarina. Ela divulga campeonatos, orienta associações filiadas e apoia atletas surdos na busca por bolsas e oportunidades, incluindo competições como as Surdolimpíadas.
Também apoia atletas surdos em busca de bolsas e oportunidades no esporte, além de incentivar a participação em competições como as Surdolimpíadas.
“Acredito que o esporte e a educação são caminhos de inclusão e autoestima. Sempre digo para as crianças, adolescentes e jovens: não desistam dos seus sonhos, vocês são capazes!. Meu papel é mostrar que a comunidade surda pode realizar grandes conquistas, representar Brusque, Santa Catarina e o Brasil, e ter orgulho de sua identidade”, afirma Camila.
Desafios na educação
Um dos principais obstáculos é a falta de acessibilidade nos conteúdos escolares. Muitos vídeos não têm legenda e professores dependem exclusivamente da fala, sem apoio visual, escrito ou em imagem, limitando a aprendizagem.
“Quando há intérprete de Libras todos os dias e instrutora de Libras uma vez por semana, já faz diferença. Cada estudante surdo tem sua própria personalidade e precisa de métodos adaptados. A presença de intérpretes ajuda na evolução, mas o desafio continua grande”, explica Camila Voss.
Ela destaca também a ausência de matérias pedagógicas em Português e Libras, fundamentais para que surdos acompanhem melhor os conteúdos junto aos ouvintes.
A presença de intérpretes de Libras que possui fluência desempenha um apoio significativo. No entanto, quando o conhecimento é apenas básico, a comunicação fica prejudicada pela falta de informações. “As escolas poderiam disponibilizar telas com legendas para que os surdos acompanhem melhor as falas”, exemplifica.
"Na minha experiência, o ideal é o uso da Libras junto com o português escrito. Cada aluno aprende de forma diferente. Também falta formação continuada para professores, para que compreendam a cultura surda e saibam adaptar as aulas de forma inclusiva", ressalta.
Na questão da inclusão de alunos surdos na escola, Voss destaca que o mais importante seria oferecer a disciplina de Libras em todas as instituições de ensino. Dessa forma, professores e alunos poderiam se comunicar melhor com colegas surdos, promovendo empatia, integração e amizade.
Desafios no mercado de trabalho
Camila relata que a maior dificuldade no mercado de trabalho é a comunicação. Muitas empresas não estão preparadas e não oferecem intérpretes de Libras, o que acaba, nas palavras dela, gerando preconceito. “Acham que surdo não é capaz”, expõe.
“Conheço muitos surdos formados em Administração, Ciências Contábeis, Recursos Humanos, Moda, Design Gráfico, TI, entre outras áreas. Mesmo assim, muitas vezes são excluídos só por não escutarem. Além disso, as entrevistas raramente são acessíveis. Muitas vezes o surdo é eliminado antes mesmo de mostrar sua capacidade”, relata.
Ela compartilha sua própria experiência de cinco anos na contabilidade, marcada por exclusão devido à falta de comunicação adequada.
As áreas mais difíceis são aquelas que exigem comunicação rápida e constante, como comércio, saúde, atendimento ao público, bancos, reuniões de empresas.
“Já vi bons exemplos. Em São José dos Pinhais (PR), conheci uma empresa com ótima acessibilidade para a comunidade surda. A comunicação era confortável e natural, mostrando que somos capazes. Quando há Libras, há inclusão. Sem Libras, somos invisíveis”.
Segundo ela, para serem mais inclusivas, as empresas devem oferecer intérprete de Libras nos processos seletivos e entrevistas. Depois, dar oportunidade real, observando a capacidade da pessoa. Se ela não se adapta em uma função, pode se ajustar em outra.
“Muitas empresas colocam surdos apenas na produção, ignorando suas formações superiores. Isso desvaloriza o talento. As empresas precisam analisar o currículo, oferecer vagas de acordo com a formação e investir em treinamento básico em Libras para funcionários ouvintes”.
Camila ressalta que em Brusque, a maioria das vagas para surdos é em produção, sem considerar suas formações. Muitas vezes é apenas para cumprir cota. Mas surdos podem atuar em setores administrativos com comunicação por escrito, chat e e-mail. Isso já seria suficiente para inclusão.
“Queremos a Central de Libras, com apoio do vereador Paulinho Sestrem. Isso ajudaria empresas, hospitais e instituições. Também sonhamos com uma sede própria para a Associação de Surdos de Brusque, para receber a comunidade, oferecer cursos, oficinas e palestras. Em outras cidades já vi estruturas incríveis, e espero que possamos conquistar aqui também”, explica.
No esporte, os avanços são visíveis: atualmente há bolsas-atleta destinadas a surdos, além de campeonatos estaduais, nacionais e até as Surdolimpíadas. Essas iniciativas fortalecem a autoestima e comprovam que é possível competir em condições de igualdade.
Igualdade de oportunidades
Camila ressalta que deseja que a sociedade conheça de fato o que é a comunidade surda. Segundo ela, não se trata apenas da Libras, mas também de histórias de vida, conquistas e superação. Cada pessoa surda, afirma, possui uma trajetória única.
“Peço que nos acolham, que busquem aprender Libras, que participem de palestras e conheçam nossa realidade. Contratar um surdo não é caridade, é reconhecer capacidade”.
Ela comenta que quando encontra alguém que sabe Libras, fica feliz porque recebe informações importantes. “Meu marido também é surdo e usa apenas Libras, tem dificuldade com português, e quando encontra intérprete sente-se acolhido, sem depender de mim”.
“Um exemplo marcante foi quando fiz o implante coclear em Florianópolis. Durante minha internação, minha mãe e prima saíram e meu marido ficou preocupado por não saber como se comunicar com a equipe do hospital. Mas um enfermeiro sabia Libras! Ele tirou todas as dúvidas do meu marido, que voltou emocionado. Isso me deixou muito feliz, porque mostrou que a comunicação pode ser natural e acessível ", relembra.
Camila Voss pede acolhimento às pessoas surdas. “Muitos se afastam quando descobrem que sou surda, mas não sou um monstro, sou apenas humana”, afirma.
Diante de dificuldades na comunicação, a orientação é ter coragem para usar gestos, escrever ou recorrer a aplicativos como o ICOM, que traduz Libras em voz e voz em Libras. Embora tenha limite de tempo, o recurso já representa um grande apoio. Além disso, empresas podem estabelecer parcerias com o ICOM ou com uma Central de Libras.
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