Natural de Santa Cruz do Sul, Romilda Mueller fez dupla pioneira com Janete Zen Cherem, criando a primeira academia de ginástica e dança do município. A academia Rojan, inaugurada em 5 de agosto de 1980, chegou a acumular cerca de 200 alunos e participou de festivais de dança por Santa Catarina, especialmente em Joinville.

Romilda

Romilda Mueller nasceu em 28 de março de 1927, em Santa Cruz do Sul (RS). Sua paixão pela atividade física começou na cidade natal, ainda na infância, em uma escola alemã de elite, que contava praticamente com estrutura olímpica para os esportes. O gosto pela ginástica foi formado naquele breve período, quando chegou a praticar ginástica olímpica com aulas de uma professora russa.

Cercada de luxo, ela buscou se espelhar em uma de suas tias, com a qual morava. Foi da tia que puxou a classe e a postura que a tornariam admiradas pela sociedade brusquense, a partir dos anos 50.

No entanto, um choque de realidade surgiu quando o pai de Romilda a tirou da escola e a levou para São Borja. O motivo era um conflito entre ele e um tio de Romilda, na época em que ambos trabalhavam juntos em um comércio.

São Borja era um município muito mais isolado, e ela viveria junto de uma parte da família, com qualidade de vida bem abaixo àquela com a qual estava acostumada. É no município do Oeste gaúcho que nasce a irmã mais nova. Ela começa a trabalhar para a casa e a cuidar dos irmãos.

Após se casar em 1950, em Blumenau, onde seu pai passou a trabalhar, chegou a morar em Lajeado (RS) e, por fim, se mudou para Brusque. A mudança para o município foi devido a uma transferência do marido. Teve seis filhos, sendo que três nasceram em Lajeado e outros três em Brusque.

Por muito tempo, Romilda trabalhou como recepcionista na indústria de cigarros Souza Cruz, em Brusque. Ela vive até hoje no Jardim Maluche, e tinha contato com a ginástica por meio de grupos no Sesi. Quando uma das professoras decide passar os grupos adiante, Romilda é quem assume. Ela herda os grupos da professora, e os traz para a própria casa.

“A Romi tinha um refinamento muito apurado. Era uma das mulheres mais elegantes da cidade. Uma mulher muito bem articulada, muito fina. Possuía um senso de independência. Não era uma daminha delicada, uma donzela fresca, por assim dizer. Estava quase sempre de agasalho de ginástica, faixa na cabeça, tênis no pé. Se diferenciava. Era um outro nível de elegância”, relata Adalberto Ghislandi, o Betinho, amigo da família.

Romilda, no canto inferior esquerdo, com lenço no pescoço, comandando seu primeiro grupo de dança, antes da academia | Romilda Mueller/Arquivo pessoal

Rojan

A veia empreendedora de Janete Zen se une com as aulas de Romilda Mueller. Uma sociedade entre as duas cria, em 5 de agosto de 1980, a academia Rojan, localizada no edifício Carlos Zen, sala 31, na rua Adriano Schaeffer, no Centro. O nome é a junção das primeiras sílabas dos nomes de suas fundadoras.

Diversas apresentações de dança e números foram realizadas ao público geral, com vários elogios publicados pela imprensa na época. A academia atuava também fora de Brusque, apresentando números de dança por todo o estado, principalmente em Joinville.

Não havia musculação na academia, apenas ginástica e modalidades de dança como jazz e dança contemporânea. Romilda dava aulas de ginástica, até mesmo para gestantes, e Janete era encarregada da dança.

“A Janete é uma peça fundamental da Rojan, sem ela provavelmente a academia não teria existido. A iniciativa de abrir a academia é da Janete, que viu na Romi um potencial, com todas suas alunas e seguidoras”, relata Betinho. O Município entrou em contato com Janete Zen Cherem para uma entrevista, mas não obteve resposta.

O sucesso da parceria foi efêmero. Em 1985, um ano após a fatídica enchente, Romilda decide morar em Balneário Camboriú, onde abre nova academia com Clara Walendowsky. Desentendimentos com Janete levam a parceria ao fim, e a academia dura até 1987, sendo fechada por decisão da própria Janete.

Apresentações eram frequentemente realizadas, tanto em Brusque como em festivais pelo estado | Foto: Romilda Mueller/Arquivo pessoal

Somma e fim de carreira

Sentindo falta da vida que levava em Brusque, Romilda retorna já em 1987, e em 1988 abre a academia Somma, localizada onde hoje é a escola Charlotte. Em 1990, a academia de Romilda é levada à Geschäftshaus, na rodovia Antônio Heil. Lá começaram outras modalidades, como dança de salão, musculação, sapateado e até caratê.

O ano de 1990 também é o ano do fim da carreira de Romilda como professora, que havia começado já na meia-idade. Problemas sérios nos joelhos e nos quadris fizeram com que ela passasse a ficar apenas nos bastidores, administrando a academia. De acordo com a família, o baque das lesões foi tão forte que Romilda chegou a enfrentar uma depressão.

Em 2003, veio o Alzheimer. Sete anos mais tarde, aos 83 anos, Romilda volta à Santa Cruz do Sul com os filhos. Juntos, fazem um passeio pela cidade, passando por diversos lugares que ficaram marcados na vida de Romilda, que recontou toda a sua história aos filhos. Era como se precisasse guardar as memórias, antes que as perdesse.

Aos 92 anos, Romilda Mueller vive aos cuidados da família, que mantém viva a memória de sua história, de suas conquistas e de seu pioneirismo.

Romilda e Betinho criaram amizade especial | Foto: Romilda Mueller/Arquivo pessoal

O preferido de Romilda

O atual proprietário da academia Somma é Betinho Ghislandi, um dos melhores amigos de Romilda Mueller. Sua paixão pela dança começou em um dia de 1984, após sair de uma consulta odontológica. O consultório era localizado no mesmo prédio da academia Rojan, na rua Adriano Schaefer.

De repente, ele ouve no prédio a música Maria, Maria, de Elis Regina. Olha pela janela e vê um grupo de mulheres dançando, em uma sala repleta de espelhos. No mesmo ano, se torna aluno, e começa a trabalhar com Romilda na Somma em 1988. A nova relação de Betinho com a dança chegou a causar estranheza no Exército, onde não permaneceu.

“Fiquei encantado com a dança, e queria saber mais, queria aprender. Assim começou minha história com a dança. Todas as minhas coreografias tinham que passar pelo aval da Romi. A Janete me levava a vários espetáculos de dança contemporânea”, explica. Hoje o pupilo de Romilda e Janete ainda é professor, e suas especialidades são o jazz e a dança contemporânea.

Elogios da imprensa eram costumeiros no cotidiano da Rojan | Foto: João Vítor Roberge/Reprodução
Academia abriu os olhos da cidade para a dança e para a ginástica | Foto: Romilda Mueller/Arquivo pessoal

Você está lendo: – A breve e bela história da Rojan


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