Alexandre Garcia

Jornalista

Espírito nada santo

Alexandre Garcia

Jornalista

Espírito nada santo

Alexandre Garcia

As imagens dos saques no Espírito Santo, praticados por bandidos ainda não profissionais, chocam mas não surpreendem. Não precisa ser adivinho para perceber que acabaríamos assim, sem lei e sem ordem. Fica bem claro que aqueles ladrões são os que elegem seus semelhantes ladrões. Hipócritas que chamam os políticos de ladrões quando eles próprios, eleitores, são os ladrões primeiros a continuar, pelo exemplo aos filhos, a formar gerações de ladrões que só se contêm quando a polícia está de olho. Sem polícia, eles soltam sua selvageria latente, essa mesma já saída de pais que nunca disseram não, jovens que foram formados na permissividade preguiçosa de pais e mães – adultos com a irresponsável e infantil paternidade carente de amor dos filhos e não exigente de respeito.

Cruel e já espalhada pelo país tropical essa selvageria saqueia ônibus e caminhões tombados nas estradas, ainda com feridos à espera de socorro. Falar em respeito aos mortos, em respeito à lei, em respeito à ordem, em direitos dos outros é recebido hoje uma bobagem anacrônica. Gerações que foram educadas sem limites para as liberdades, tendo como objetivo o prazer e a satisfação dos desejos de consumo – seja um tênis, um boné ou um carro, um relógio. Para isso, vale tudo, já que o ego é o centro do mundo. Não há limites na lei ou no direito alheio para a realização de suas ficções. E a mídia mostra que a estética é um valor superior à ética.

Viver virou apenas um jogo. “Perdeu!” – comemora o assaltante ao arrancar o celular de alguém. O governo tirou o direito de defesa e não defende ninguém. O vale-tudo nos transforma numa bagunça a que já nos acostumamos, no trânsito, no lixo, no mau-cheiro, na corrupção, nos impostos sem serviços, nas escolas abandonadas, nos professores malformados, nos profissionais-amadores, no improviso, na falta de planejamento, no descumprimento de horário, na palavra descumprida, na banalização de 160 homicídios por dia e quase outro tanto de matança no trânsito. Perdemos todos. E começou em casa, como já demonstrei no artigo anterior.

Vi também o povo aplaudindo o Batalhão de Infantaria saindo do quartel em socorro aos cidadãos ilhados em suas casas. Já havia visto isso em 1964, com ainda mais aplausos, mas aquela solução não é a de hoje. Hoje vai ser preciso convencer as pessoas de que agir dentro da lei e da ética é a melhor forma de viver bem, em segurança, com direitos garantidos. Não é utopia. Ali no Uruguai ou no Chile é assim; não precisamos ir para o hemisfério norte. A vida fica fácil dentro da lei e da ordem. O que acontece no Espírito Santo já nem é mais um alerta, porque já passamos do ponto de retorno. Agora vai demorar gerações, até que se recupere a família que foi jogada na sarjeta.

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