Ex-trabalhadores da Souza Cruz relembram história da empresa que deu nome ao bairro

Demanda por mão de obra trouxe famílias de diferentes regiões do estado

Ex-trabalhadores da Souza Cruz relembram história da empresa que deu nome ao bairro

Demanda por mão de obra trouxe famílias de diferentes regiões do estado

A atividade de uma beneficiadora de tabaco foi tão importante para o crescimento do bairro Souza Cruz que o nome da companhia serviu para denominar a área. A demanda era tamanha que profissionais de outras cidades de Santa Catarina se estabeleceram na região para trabalhar na companhia.

Com a atividade industrial, o bairro começou a se desenvolver e criou novas perspectivas de vida no seu entorno. As lembranças são do brusquense Nelson Pöpper, 81 anos. Ele dedicou 32 anos da vida como secador de fumo na empresa, e se orgulha de ter trabalhado até o último dia de atividade da companhia, em junho de 1990.

“Ele trabalhou 32 anos, 2 meses e vinte dias, e só faltou um dia”, lembra a esposa, Maria, 80. Depois do período, chegou a trabalhar por mais 10 anos com a filha, que mantém uma confecção no bairro. Além dela, eles possuem mais um casal de filhos.

Mesmo antes da Souza Cruz ter começado a operação no município, ele já atuava no local onde iria ser a empresa. Começou como servente de pedreiro pela Mafra, uma empreiteira contratada para fazer as edificações. Tinha 21 anos e havia trabalhado como terceirizado na Fábrica de Tecidos Carlos Renaux.

Na época, lembra, a obra era vista como improvável, devido às características do terreno, e foi preciso uma atenção grande com o aterramento e fundações. As obras terminaram no fim de novembro de 1959. Com o início da safra, um dia depois, foi chamado para trabalhar na linha de produção para o período.

O trajeto do bairro Rio Branco – onde moraram até 1969 – até a Souza Cruz era superado, na maior parte do tempo, de bicicleta. Mais tarde, a família conseguiu uma moto para facilitar a ida até o trabalho, mas o percurso exigia a travessia por uma ponte pênsil, motivo de apreensão de dona Maria. “Deixei alguns guarda chuvas ali”, brinca Nelson. Desde que deixaram o Rio Branco, Nelson e Maria vivem a poucos metros do antigo local de trabalho.

Lembranças guardadas
Durante o período que trabalhou na empresa, a organização e as amizades entre os colegas são lembranças marcantes para Nelson. Segundo ele, o bom convívio entre as famílias ajudava a manter a aumentar o carinho que ele tinha pelo ambiente de trabalho.

A disciplina, lembra, era rígida. Os uniformes deveriam estar alinhados, cabelos curtos, barba feita e os sapatos bem lustrados. Chegou a cuidar do time de futebol interno, classificado por ele como “um dos melhores de sua época na cidade”. Algumas fotos de prévias de partidas pela década de 1970 ainda estão guardadas na casa dele, tão preservadas quanto a memória das escalações utilizadas.

Entre os objetos guardados está um relógio, ainda na caixa original e entregue a ele quando completou 25 anos de empresa. O item é mantido como uma herança de família e é preservado como presente de formatura do neto, estudante.

Assim como ele, Maria guarda lembranças do período que o marido trabalhava na companhia de tabaco. Toalhas com a marca da empresa, recebidas no último encontro de ex-funcionários, em 1998, nunca foram usadas.

“Era um lugar muito respeitado”
Os rumores sobre um possível fechamento da empresa começaram 10 anos antes, segundo o ex-funcionário. No período, afirma não ter cogitado buscar outras oportunidades profissionais. Acreditava ser improvável o desfecho. A confirmação veio em um comunicado, em frente aos portões da empresa.

Ex-taxista, Isair Vieira, 76, começou a trabalhar na empresa em 1966, após o convite de Otocar Agueemann, um dos gerentes da época. Foram 20 anos de trabalho no setor de manutenção e transporte, onde preparava os veículos para os trabalhos externos e levava representantes entre as unidades.

Durante o período dirigindo pela empresa, ele conviveu com episódios marcantes, como a queda da ponte Irineu Bornhausen, em 1980. No episódio, ele passava pelo local momentos antes da estrutura ir parar no rio Itajaí-Mirim.

Anos antes do encerramento das operações da Souza Cruz, os boatos, propostas de saída oferecidas pela empresa e uma nova oportunidade profissional o levaram a ir para a Irmãos Fischer. A saída mexe com ele até hoje.

“Era uma disciplina como de militar, era um ambiente limpo, as pessoas traziam os macacões limpos para trabalhar e era como uma grande família. Até hoje eu lembro da empresa. Cheguei a ficar mal depois de sair. Nós parecíamos ser da polícia, era um lugar muito respeitado”, lembra. Pouco tempo após ter deixado a empresa, chegou a pedir um retorno ao setor.

Para ele, as amizades e união dos trabalhadores da época são lembranças valiosas. De acordo com ele, além das experiências pessoais, a atuação da empresa foi importante para o desenvolvimento do município.

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