A curta rua perpendicular entre a Felipe Schmidt e a Guilherme Niebuhr, no Centro de Brusque, onde está localizada uma das raras alfaiatarias do município, tem nome de alfaiate: Gustavo Krieger foi o primeiro da cidade. Nascido em uma das famílias mais influentes, Krieger deixou como descendentes importantes nomes da história do município e da música nacional, como o filho Aldo e o neto Edino Krieger.

Em 26 de janeiro de 1878, quando Brusque ainda era a Colônia Itajahy e o Brasil ainda era um império, nasceu Gustavo Krieger, ou, em seu nome original alemão, Phillip Gustav, filho dos alemães Jacob Krieger e Auguste Fridericka Luise Kuchenbaecker.

Encontro imperial no Rio de Janeiro

Jacob Krieger era um empresário que possuía uma fábrica de charutos, inclusive com filial no Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil. Lá, seus produtos eram vendidos na rua do Ouvidor, no Centro. No mesmo local, costumava passear o imperador Dom Pedro II.

Jacob e seu filho viajam à capital do Brasil em 1880. Enquanto o pequeno Gustavo brinca com outras crianças, Jacob vê, de sua loja de charutos, o imperador passar, cumprimentando os súditos, até parar no grupo de crianças onde seu filho estava, as cumprimenta também e passa a mão sobre a cabeça de Gustavo. O pai, à distância, se sente lisonjeado e se emociona.

Mais tarde, conversando em um bar, Jacob e alguns de seus amigos encontram uma nota de 5 mil réis. Sem encontrarem o dono, jogam na loteria, ganham muito dinheiro e dividem entre si. Jacob afirma que o motivo foi a sorte trazida pelo imperador no encontro com Gustavo.

A Alfaiataria Elegante em 1934. À esquerda, em pé, Nilo e seu pai Gustavo; à direita, Bertilha, Oscar, Axel e Melida. Aos fundos, Adelaide, esposa de Gustavo | Foto: Nilo Sérgio Krieger/Arquivo pessoal – postado no grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook

Alfaiataria Elegante

Gustavo Krieger perde os pais ainda muito jovem. A mãe, quando tinha quatro anos: Auguste morre num parto mal sucedido. Aos 14 anos, quem morre é o pai, Jacob. Criado por sua tia e madrasta Henriette Ernestine Kuchenbaecker, Gustavo é levado a Desterro, atual Florianópolis, para estudar e aprender alguma profissão.

De acordo com sua biografia publicada em 1978, Gustavo aprende de um imigrante, de nome Monegália, o ofício de alfaiate. Após alguns anos, ele retorna a Brusque para abrir sua própria alfaiataria, a primeira do município, localizada em uma das salas de um dos prédios da Renaux, localizada na atual praça Barão de Schneeburg, onde ficou até o final dos anos 40.

Aos 24 anos, em 19 de novembro de 1902, Gustavo Krieger se casa com a italiana Adelaide Diegoli, nascida em Bolonha. O casal tem nada menos que 17 filhos, sendo que quatro falecem ainda na infância. Vários dos filhos acabam aprendendo a serem alfaiates.

A Alfaiataria Elegante produzia roupas sociais baseadas nas tendências europeias, de acordo com os contatos que Gustavo Krieger conseguia ter com a moda do Velho Continente. Uma das características era o bom papo do alfaiate com seus clientes. Diversos aprendizes também passaram pela Elegante e depois abriram seus próprios negócios.

O próprio cônsul Carlos Renaux encomendava seus ternos com Gustavo Krieger, quando era possível fazer os modelos europeus. Frequentemente, os trabalhos do alfaiate cruzavam o Atlântico, nas viagens de Renaux.

Gustavo Krieger viveu tranquilamente até 22 de novembro de 1949, quando faleceu com 71 anos. Ele já era viúvo desde 1945. De acordo com um de seus netos, Nilo Sérgio Krieger, foi uma morte tranquila.

“Infelizmente não cheguei a conhecer meu avô, que, segundo a história, foi um homem digno, honrado e muito bem quisto na sociedade brusquense. Foi um bom pai de família e ancestral de inúmeras personagens ilustres da sociedade local e do Brasil, que herdaram seu caráter e honradez”, comenta.

Adelaide Diegoli Krieger, em 1933, trabalhando na alfaiataria com sua máquina de costura | Foto: Rosimari Kühn Krieger/Arquivo pessoal – postado no grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook

A alfaiataria pós-Gustavo

A Alfaiataria Elegante teve este nome até 1949. De todos os filhos de Gustavo, apenas Axel e Nilo (pai de Nilo Sérgio Krieger) se interessaram em continuar o negócio. O nome mudou para ser Alfaiataria Krieger, e a localização passou a ser em um prédio em frente à praça, demolido no início de 2003. Atualmente, é onde fica a Drogaria Raia.

Quem trabalhava no local eram os dois irmãos e, depois de um certo período, o cunhado Davino Ferreira de Melo. O negócio passou a crescer até que a alfaiataria se tornasse uma franquia da Confecção Renner, de Porto Alegre, durante os anos 50.

O progresso chegou ao negócio até o ponto em que o trabalho artesanal e charmoso do alfaiate se transformasse em indústria. Foi nos anos 60 que a alfaiataria passou a ser Confecções Krieger e Loja Krieger. Enquanto confecção, o negócio durou mais algumas décadas até a queda que culminou com a decretação de falência, em 1995.

Música e política

Um dos principais hobbies de Gustavo Krieger era a música. O alfaiate tocava flauta, viola de concerto, clarineta e concertina. Esta paixão foi passada aos filhos, em especial a Aldo. Em 1929, cinco filhos alfaiates (Aldo, Érico, Oscar, Axel e Nilo) se juntaram a cinco marceneiros da família Diegoli, da esposa (Primo, Augusto, Aníbal, Rudi e Ivo), criando a Jazzband América, “o mais célebre conjunto de danças que Brusque já possuiu”.

Gustavo Krieger ainda participou, de certa forma, da política. Esteve envolvido na guerra civil da Revolução Federalista, com os Pica-Paus, ao lado do governo brasileiro. O confronto foi contra os Maragatos, gaúchos que buscavam, além da descentralização do poder da República recém-proclamada, a deposição do governador Júlio de Castilhos. A luta armada se deu entre 1893 e 1895 e foi vencida pelos Pica-Paus.

Prédio da Loja Krieger em setembro de 1967 | Nilo Sérgio Krieger/Arquivo pessoal – postado no grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook

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