Há 57 anos, Grupo Escoteiro de Brusque forma cidadãos por meio do escotismo

De Lobinhos à Pioneiros, crianças e jovens desenvolvem habilidades e competências em atividades na natureza e com a comunidade

Há 57 anos, Grupo Escoteiro de Brusque forma cidadãos por meio do escotismo

De Lobinhos à Pioneiros, crianças e jovens desenvolvem habilidades e competências em atividades na natureza e com a comunidade

Há 57 anos, o Grupo Escoteiro de Brusque (GEB) vem desenvolvendo atividades com e para a comunidade. Muito mais do que levar as crianças e jovens para acampamentos e atividades na natureza, o grupo segue a filosofia do escotismo e trabalha incansavelmente na formação de bons cidadãos. Hoje, são cerca de 200 escoteiros, entre os seis anos e meio e os 21 anos de idade, além dos 70 adultos voluntários que participam das ações do GEB no município.

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Mais do que centenário, o movimento escoteiro foi fundado em 1907, na Inglaterra. O escotismo se espalhou pelo mundo como um movimento educacional e de formação, desenvolvendo habilidades sociais, físicas, intelectuais, afetivas, espirituais e de caráter nas crianças e jovens que fazem parte. Em Santa Catarina, são 10 mil integrantes, e o grupo de Brusque é o terceiro maior do estado.

Com seis anos e meio, a criança já pode entrar no grupo como Lobinho e fazer parte de uma “alcateia”, e pode permanecer até os 21 anos, passando pelos ramos Escoteiro, Sênior e Pioneiro. Depois disso, se desejar continuar fazendo parte do movimento, pode se tornar chefe ou ser voluntário na organização de sua cidade.

Presente em mais de 150 países, o escotismo foi fundado por Robert Stephenson Smyth Baden-Powell como uma tentativa de formar o caráter e praticar os valores humanos com crianças e jovens. O movimento ensina o companheirismo, a superação das adversidades, igualdade e o respeito pela natureza por meio de atividades lúdicas, ao ar livre e pelo serviço comunitário. O propósito do escotismo é contribuir para que os integrantes do movimento assumam seu próprio desenvolvimento, atingindo suas potencialidades como cidadãos responsáveis.

No dia 20 de outubro, o GEB realizou um encontro com todos os integrantes na sede do grupo, no Centro. Cada um dos ramos participou de atividades voltadas à faixa etária, e o tema geral era comunicação: foram trabalhados código morse, alfabeto fonético, cartas, rádio e outros meios. As crianças aprenderam a se comunicar de novas formas, desenvolvendo novas habilidades.

Código morse e telégrafo fizeram parte das atividades do dia 20 | Natália Huf

Thais Helena Haacke e Guilherme Euzebio dos Santos fazem parte do ramo Sênior, etapa em que os escoteiros passam a enfrentar desafios e aplicar todos os aprendizados dos ramos anteriores: são aventuras, como escalada, rapel e acampamentos. “O escotismo te prepara para a vida, você faz amizades, aprende sobre lealdade a fazer sempre o seu melhor”, diz Guilherme. Tanto ele quanto Thais acreditam que o ramo Sênior é o mais legal do escotismo, no qual o escoteiro precisa enfrentar seus medos.

Para as Escoteiras Gabriela Gosslen, de 11 anos, e Helena Kentt, de 12, as atividades de pioneiria – aprender a construir coisas com bambu – são as mais interessantes. “Acampar pela primeira vez deu medo, eu chorei muito e queria minha mãe”, relembra Gabriela. Mas, hoje, elas afirmam que aprenderam muito, sabem cozinhar e se virar em várias situações. As duas são melhores amigas e se conheceram no GEB: elas estudam em escolas diferentes e contam que as amizades que fizeram no grupo são as melhores.

Além das atividades na natureza e “de sobrevivência”, as crianças e jovens trabalham também pela sociedade, trabalhando em ações com entidades e com a comunidade em geral. Hoje, as tropas são mistas, mas o escotismo só passou a aceitar meninas na década de 1980: “Como é um movimento educacional, foi se modernizando, mas sem perder os princípios”, pontua Malisa Bruns, diretora técnica do GEB.

Tarefas pela internet fazem parte das atividades do grupo Sênior | Natália Huf

Desenvolvimento pessoal
Em cada um dos ramos do escotismo, a criança ou adolescente irá desenvolver habilidades específicas, de acordo com sua faixa etária. Desde a socialização e o trabalho em equipe até pensar em ser um bom cidadão e desenvolver um projeto de vida, em cada fase de crescimento dentro do movimento há etapas que o escoteiro deve cumprir, nos âmbitos social, físico, intelectual, afetivo, espiritual e de caráter.

Conforme as competências são atingidas e as habilidades são desenvolvidas, o escoteiro conquista algumas especialidades: são mais de 200 durante o curso do escotismo. Quando atinge todas as especialidades de seu ramo, o escoteiro recebe um distintivo especial. No último dia 20, três Lobinhos receberam a insígnia Cruzeiro do Sul e, pela primeira vez, uma Pioneira recebeu a insígnia de “B-P”, como é chamada a Baden Powell, mais alta conquista do ramo.

Matheus Gabriel Isleb, de dez anos, conta que conquistou o Cruzeiro do Sul depois de cumprir todas as atividades propostas para o ramo Lobinho, do qual faz parte. Em breve ele irá passar para Escoteiro, e diz que, com as ações do grupo, já aprendeu a cozinhar algumas refeições, como hambúrguer, ovo no espeto e o pão de caçador, e que sabe acampar, montar sua própria barraca e dar vários tipos de nós.

Com dez anos, Matheus já possui a insígnia Cruzeiro do Sul, a maior conquista dos Lobinhos | Natália Huf

Gustavo De Nez, que começou a participar do grupo aos sete anos, diz que muita coisa que ele encontrou no escotismo ele não teria encontrado sem fazer parte do grupo: “As boas influências, principalmente. Estamos em contato com pessoas do bem, que te levam para frente, ajudam a desenvolver habilidades, especialmente liderança. Hoje vejo o resultado, aplico muito no meu trabalho”, conta o rapaz, que é formado em Engenharia de Produção e empresário. “Como adulto, queria continuar repassando as coisas boas que aprendi aqui”, diz o chefe de grupo.

Quem também pensa assim é Christian Thomsen, de 18 anos, que hoje faz parte do ramo Pioneiro, o último do GEB. “Ser escoteiro me fez uma pessoa melhor, e quero continuar como voluntário. Já estou fazendo os cursos preparatórios.”

Christian é aluno do último ano do Ensino Médio e participa do grupo desde os 11 anos. Ele foi convidado por um amigo e, como sempre gostou de contato com a natureza, decidiu conhecer o escotismo. “Aprendi muita coisa. Eu era uma criança terrível, brigava muito. Hoje evoluí muito e, como Pioneiro, acho que sou um bom exemplo”, conta ele, que é o representante do ramo de Pioneiros em Brusque e recebeu, quando Sênior, a insígnia de Escoteiro da Pátria, a mais elevada do ramo. “O escotismo está aqui para nos transformar, fazer a gente evoluir como cidadão.”

Participação familiar
A integração das famílias com o grupo escoteiro e com o movimento é parte muito importante das atividades. Segundo a diretora técnica Malisa Bruns, os pais das crianças e jovens são indispensáveis para o escotismo e são convidados a fazer parte e acompanhar as ações.

“Eles auxiliam nas atividades e também na nossa estrutura”, diz. “E a gente vê a diferença nas crianças quando elas veem os pais presentes, isso é também uma aproximação para eles, em todas as idades”, completa.

Família de Malisa está na terceira geração de escoteiros | Natália Huf

O compromisso da família não é apenas levar e buscar os filhos na sede do grupo, mas se integrar nas atividades, ajudando na organização, como Joselene Fontana, que tem um filho de dez anos que é lobinho no grupo de Brusque. O menino já participa do escotismo há pouco mais de um ano, e ela faz parte da equipe de pais e mães que colaboram na cozinha durante os eventos do GEB.

“Eu tenho ajudado por enquanto, mas pretendo me voluntariar para ser chefe no ano que vem”, conta Joselene. Além de poder participar das mesmas atividades que o filho, ela percebeu também uma mudança de comportamento nele, que ficou mais maduro e responsável: “Ele ajuda mais em casa, vejo o quanto ele gosta e que vai levar isso pra vida. Gosto de participar, meu marido vem também”, diz.

Mãe de Lobinho, Joselene também participa das atividades do grupo | Natália Huf

Miriã Bruns, de nove anos, faz parte do GEB desde que tinha seis anos e meio e foi muito incentivada pela mãe, Malisa. “Ter a minha família no grupo é muito legal, meu avô é chefe de escoteiros e meu irmão é um ‘coiote’, como a gente chama quem acompanha mas ainda não tem idade para entrar”, conta a menina. Ela está muito ansiosa para passar para Escoteira, quando vai participar de acampamentos e fazer novas amizades.

Para Pedro e Neide De Nez, voluntários no grupo desde 1994, o movimento agrega não apenas para as atividades ali desenvolvidas, mas para a vida: “A nossa forma de criar nosso filhos mudou para melhor depois de entrarmos para o grupo. Ser escoteiro não é estar aqui, uniformizado, todo sábado. É praticar o escotismo na vida”, diz Neide.

O marido concorda, e conta que a filha mais velha do casal, que começou como Lobinha e hoje já não está mais no movimento, ainda carrega consigo os princípios aprendidos no grupo. “Ela leva isso para a vida pessoal, para o trabalho. Mesmo que já tenha seus 30 anos, é tudo fruto do movimento.”

O filho deles, Gustavo De Nez, de 24 anos, também começou como Lobinho e hoje é chefe de um grupo de crianças de 11 a 14 anos. “É magnífico. Eu não tenho filhos e estou longe e ter, mas aprendo muito a respeitar as crianças e ter a responsabilidade sobre eles. E é aquela velha história, eu aprendo muito mais com eles do que eles comigo.”

Neide e Pedro são voluntários no grupo desde 1994 | Natália Huf

Inclusão
Segundo a diretora técnica Malisa Bruns, a inclusão não é um tema pensado pelo escotismo: “Acontece naturalmente, de forma automática”, conta. Crianças e adolescentes de várias idades trabalham juntos nos eventos que reúnem todo o grupo, uns ajudando os outros.

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“Temos crianças de várias classes sociais, todos juntos. Temos religiões diferentes, cores diferentes. No escotismo, todo mundo entra igual.” Além das diferentes histórias de vida de cada uma das crianças e jovens, o grupo conta também com dez integrantes autistas, alguns até mesmo com graus severos.

“Eles se sentem bem, se entrosaram facilmente. Como todas as atividades são em equipe, todos se ajudam com as diferenças”, explica a diretora. Ela conta que pais e mães de jovens autistas relataram melhoras significativas na socialização, atenção e responsabilidade dos filhos após integrarem o movimento.

Conheça os ramos dos escoteiros

Os grupos de integrantes do GEB são divididos por faixa etária, e cada um deles forma um “ramo”. Cada ramo possui uma habilidade específica que será desenvolvida durante os anos de escotismo, com atividades apropriadas para a idade.

  • Lobinho: dos seis anos e meio aos dez, as crianças desenvolvem principalmente a socialização, aprendem a trabalhar em equipe e conviver uns com os outros.
  • Escoteiro: entre os 11 e 14 anos, as crianças e adolescentes exercitam a autonomia. É nessa faixa etária que começam a acampar sozinhas, cozinhar, ser mais responsáveis.
  • Sênior: os jovens do ramo têm entre 15 e 17 anos e é com esta idade que começam a enfrentar desafios, aplicando os conhecimentos adquiridos nos ramos anteriores. Fazem atividades como rapel, escalada e acampamentos.
  • Pioneiro: último ramo, abrange os jovens de 18 a 21 anos, e trabalha o projeto de vida. O lema dos Pioneiros é “servir”, e eles passam a participar de projetos sociais para contribuir com a comunidade.
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