Era 1969 quando a tradutora, professora e intérprete Helga Kamp começou a primeira escola de idiomas de Brusque. Nascida em Blumenau em 13 de março de 1932 e descendente de uma nobre família alemã, ela aproveitou os privilégios que possuía para viajar por diversos países, se tornar poliglota – fala alemão, português, inglês, espanhol, francês e italiano – e então compartilhar parte de seus conhecimentos com a cidade em que mora até hoje.

Era comum na primeira metade do século 20 que as famílias das classes socioeconômicas mais altas tivessem aulas de idiomas e, na época, uma das línguas mais populares era a francesa. Helga cresceu em um ambiente semelhante, em que as origens alemãs se faziam presentes pela casa. Ela aprendeu alemão e português quase simultaneamente e, mais tarde, fez o curso de inglês e o de francês. Foi criada de forma quase cosmopolita, consumindo o conteúdo de diversas revistas estrangeiras e brasileiras.

“Acho um tanto triste que muitas pessoas não aproveitem o privilégio de aprender um idioma novo por herança da própria família. Há jovens com parentes que são descendentes próximos de imigrantes e não têm o interesse. Depois, quando percebem a importância, precisam começar do zero em um curso de línguas. Aprender um novo idioma abre muitas portas, amplia a visão do mundo”, afirma Helga, aos 86 anos, em entrevista realizada em sua casa, no bairro Jardim Maluche.

Helga também lamenta o fato de que algumas famílias imigrantes pararam de se comunicar em suas línguas nativas dentro de casa. “O português precisa ser aprendido, e é aprendido também fora de casa, afinal é o idioma nativo. Mas dar às outras gerações as noções de outros idiomas no cotidiano seria muito importante”, avalia.

Era 1952 quando Helga, por insistência da mãe, fez um curso de verão na Cornell University, em Ithaca, estado de Nova Iorque, nos Estados Unidos. “Como eu já dominava o inglês, aproveitei para fazer todo tipo de aulas e aprender o máximo possível. As pessoas se impressionavam por eu ser brasileira e estar falando inglês britânico, que foi o que aprendi”, relembra.

Ainda na infância, Helga já era relacionada ao estrangeiro: seu apelido de infância era Micki, o que deduz ser uma referência a Mickey Mouse, personagem de Walt Disney cujos desenhos animados começavam a se popularizar.

A experiência nos Estados Unidos foi interrompida quase na metade, em julho, quando seu pai, diretor técnico da empresa da família, a Büettner, faleceu. Na volta forçada ao país, ainda buscando aperfeiçoar seu inglês, conquistou o Higher Cambridge Certificate of Proficiency, o certificado máximo de proficiência da cultura inglesa.

Seis anos mais tarde, em 1958, Helga vai com a mãe à Europa, onde morariam durante um ano. Os destinos foram Itália, Suíça e Alemanha. Seus conhecimentos em idiomas renderam importantes frutos desde então, pois na Alemanha ela conseguiu seus primeiros trabalhos como intérprete e tradutora, inclusive com o o idioma italiano, que Helga aprendeu com uma outra paixão, nascida anos antes: o canto lírico.

Pausa para a família

A mãe de Helga retorna ao Brasil em Abril de 1959, mas ficou acordado que a jovem tradutora continuaria na Europa pelos próximos seis meses. Isto foi definitivo para determinar os rumos de sua vida.

Foi em um restaurante vegetariano de Munique em que Helga Erbe conheceu um jovem alemão nascido no Chile: Ernst Otto Kamp. É com Kamp, filho de um embaixador alemão no Chile, que Helga se casa, apenas seis meses depois de terem se conhecido. E é com Kamp que Helga vive até hoje, 59 anos depois. A brusquense chega volta ao Brasil e passa a morar na casa construída por seu pai, Heinz Richard Bruno Erbe, em uma colina da rua Felipe Schmidt, próxima ao atual Supermercado Archer do bairro São Luiz.

Desde então até 1969, Helga se dedica à criação de seus três filhos e de sua única filha, conciliando as atividades domésticas com algumas aulas de idiomas que ministrava a algumas jovens da chamada alta sociedade brusquense.

O casarão Büettner em 1906 | Arquivo/Grupo Curto Fotos Antigas de Brusque

Pioneira

Em 1969, um senhor de sobrenome Werner, como recorda Helga, a procurou com uma proposta: assumir um de seus grupos de alunas de inglês. A resposta foi imediata: não. Afinal, o caçula sequer havia completado dois anos, e era necessário cuidar da família.

Na verdade, Werner vinha a Brusque de Itajaí, onde vivia, para dar as aulas, mas percebia que o lucro era mínimo, por causa das longas viagens a que se submetia. Ele ministrava as aulas em uma sala alugada acima do Cine Coliseu. Utilizava o método Yázigi, da escola que ele possuía na cidade onde morava.

O morador de Itajaí retorna a Brusque e insiste. Mais uma vez a mãe de Micki insiste. Ela promete cuidar das crianças enquanto a filha estiver em sala de aula. A proposta ficou mais interessante.

“Ao saber deste plano, meu irmão Rolf, então diretor técnico da Büettner, cedeu a casa construída pelo nosso avô, Eduard von Büettner, que pertencia à empresa. Tudo sem nenhuma contrapartida, para que eu pudesse instalar a minha própria escola”, explica.

A ideia da concessão do imóvel foi posta em prática porque o futuro da mansão de von Büettner era incerto. Durante o período de construção do prédio da Prefeitura de Brusque onde hoje está o banco Itaú, na avenida Cônsul Carlos Renaux, a sede da administração municipal era a mansão.

Helga então viaja a São Paulo para conhecer a matriz da Yázigi, seus métodos e exigências. A empresa já possuía franquias em diversas capitais do país. Na época, Brusque já possuía cerca de 30 mil habitantes, um dos requisitos mínimos para um município possuir uma franquia.

Em setembro de 1969, a escola Yázigi de Brusque iniciava suas atividades, no primeiro andar da casa construída por von Büettner. Suas primeiras alunas foram todas senhoras da alta sociedade do município. Maria Buerger, a Frau, assumiu recepção e secretaria, além de ter sido a primeira professora de alemão da escola. Ela continuaria a exercer o ofício de professora até chegar à casa dos 80 anos.

Filhos de pastores luteranos e das próprias professoras eram isentos dos pagamentos, com os quais as classes mais altas poderiam arcar. “Gerentes do Banco do Brasil e das grandes empresas têxteis locais estudavam inglês, enquanto seminaristas do Convento Sagrado Coração de Jesus estudavam francês, um idioma importante para seus estudos”, recorda Helga.

Micki se tornou, então, a dona da primeira escola de idiomas de Brusque, e da primeira franquia. Tudo em uma época na qual o ensino de idiomas ainda era restrito às grandes cidades e na qual o fato de uma mulher trabalhar por conta própria e ter seu próprio negócio era mais comum, mas ainda raro.

Professora Maria Buerger, a secretária Vera Schulenburg, a diretora Helga Kamp e as professoras Lenita Siegel e Marise Badura, em 1976 | Foto: Helga Kamp/Arquivo pessoal

Evoluções

A partir do final dos anos 70 e principalmente durante os anos 80 e 90, a escola começou a crescer, pois a procura por aulas de idiomas começou a se popularizar, com o acesso da classe média aos cursos. Em 1980, a professora Lenita Siegel se tornou a sócia para a abertura de uma nova escola de Helga Kamp, uma Yázigi em Blumenau. Célia Walendowsky, Tânia Schaefer, Norma Archer, Anja Kamp e Viviane Zink passaram a dar aulas de inglês na escola de Brusque. Marise Badura foi contratada como professora de francês e Mônica Dunker juntou-se a Frau Buerguer para lecionar alemão.

Em 1983, a velha mansão onde a escola esteve instalada foi demolida. A área central de Brusque que era propriedade da Büettner foi vendida para que novas instalações fossem construídas no bairro Bateas. Helga não queria que o casarão tivesse sido demolido. Já havia buscado abaixo-assinados e enviado ofícios à Fundação Catarinense de Cultura, mas sem sucesso.

Em 1985, a Yázigi de Brusque se mudou para a rua Rodrigues Alves, 350. As instalações passaram por grandes melhorias, desde a placa luminosa no lado de fora até o maior espaço das três salas de aula. Todas eram climatizadas, diferentemente dos anos anteriores, em que as aulas eram refrescadas por grandes ventiladores. Junto a todas as mudanças, a mais chocante era o início da informatização do sistema de controle da escola. Na nova fase, houve ainda o reforço da professora Marieane Petermann.

Helga nos anos 80 | Foto: Helga Kamp/Arquivo pessoal

Adeus

Helga Kamp sentia seu ciclo na Yázigi perto do fim. Em 1989, a tradutora e intérprete completava 20 anos comandando a escola de idiomas. No início da década de 90, ela já havia cedido a coordenação para professoras: primeiro para Tânia Schaefer. Depois, para Karina Ristow.

A escola chegava aos seus 28 anos em 1997, e Helga completava seus 65 naquele 13 de março. A Yázigi de Brusque já havia passado por dias melhores financeiramente e, para completar, a coordenadora Karina Ristow havia anunciado que abriria sua própria franquia, da Link Idiomas.

“Ainda hoje a Link é referência, principalmente nos cursos para crianças. E ela decidiu pela franquia independentemente do ônus que isto carrega. Na Yázigi, 8% de todo o faturamento era repassado à franqueadora”, conta Helga.

Sabendo que uma longa fase de 28 anos estava acabando, Helga Kamp refletiu sobre o que queria fazer pelos próximos anos. Os filhos já estavam crescidos e bem encaminhados. Ernst, seu marido, estava aposentado. Um jovem professor de inglês procurava uma franquia para comprar. Micki tinha uma franquia para vender.

“Decidi que não queria continuar, porque não era daquele jeito que eu pretendia continuar a minha vida pelos próximos anos, ao lado do meu marido. Então continuei fazendo traduções, principalmente de textos técnicos, junto com ele. E sabe o que eu também fui fazer? Voltei a fazer minhas aulas de canto lírico”, encerra, aos risos, a pioneira.

Micki relembra momentos importantes da carreira e da vida | Foto: João Vítor Roberge

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