Era 1915 quando o pioneiro Carlos Gracher, aos 37 anos, instalou, anexo ao Hotel Schaefer, o Cine Esperança. Natural de Tubarão, ele se mudou para Brusque em 1893, aos 15 anos, trabalhou nos Correios e teve uma casa de comércio.

O Cine Esperança exibia filmes mudos, que eram apresentados com o acompanhamento de músicos da cidade. De acordo com o historiador Ayres Gevaerd, era a banda que fornecia a trilha sonora, em uma sequência improvisada de músicas. Quando não era a banda, era um “DJ”, que tinha à disposição alguns discos para definir as trilhas de cada momento, à medida em que o filme passava. No entanto, imagem e som raramente combinavam.

“Na verdade, meu avô por muito tempo tinha o cinema de forma itinerante, alugando diversas salas e levando seus aparelhos aonde pudesse”, relata a sócia-proprietária das empresas Gracher e neta de Carlos, Gisela Gracher Stieven.

A cadeiras eram de palha, agrupadas e separadas por um corredor no meio do local. Havia ainda as cadeiras para o delegado de polícia e para sua esposa. Além de garantir a ordem da sessão, o delegado tinha lugar mais à frente da plateia, mas precisava assistir aos filmes de lado, entre plateia e tela, à direita do público.

Anos depois, Gracher ganha do sogro uma das primeiras casas construídas na atual avenida Cônsul Carlos Renaux. No caso, a construção abrigava um antigo convento. Ali, Gracher abriu um bar e uma loja de arreios para cavalos. Todos os cômodos restantes se formavam uma pensão, que se tornaria o principal empreendimento da família até os dias atuais.

Sala lotada na Semana da Criança, em 1966. Evento era parceria com o Lions Clube | Foto: Livro Gracher – Uma empresa faz 100 anos

Guarany e Colyseu

Em 1934, após reformas no local, foi inaugurado o moderno Cine Guarany, onde hoje está o Shopping Gracher. Assim, o Cine Esperança foi substituído. Três anos depois, após a morte da esposa, Tereza Kormann, Gracher aluga a sala de cinema para Henrique Brattig, que muda o nome do Cine Guarany para o primeiro Cine Colyseu, e assim permanece até 1945. A transição é relatada no livro Gracher – Uma Empresa Faz 100 anos, de Nayr Flor Gracher.

Unidos pelo cinema

Em 1940, aos 17 anos, Arno Carlos Gracher, filho de Carlos, conheceu sua esposa, Nayr Flor, no Cine Guarany. Conforme conta Nayr no livro, ela havia ido com uma amiga até o local para assistir a uma sessão de um dos filmes do herói espacial Flash Gordon.

Ainda na fila, elas foram abordadas por um rapaz, que lhe entregou dois ingressos, a mando de Arno. Eles assistiram à sessão lado a lado. Na época, Nayr tinha 12 anos. Após ter sido delatada pelo irmão, Elmo, o Lóla, a garota levou uma grande bronca e ficou de castigo. Só três anos depois, com muita insistência, o namoro havia sido aprovado pelo pai, Manoel Flor.

As bilheterias antes da sessão de inauguração do Cine Teatro Real, que continuou a tradição dos cinemas da família | Foto: Livro Gracher – Uma empresa faz 100 anos

Cine Real e Cine Teatro Real

Foi inaugurado, em junho de 1949, o Cine Real, depois de uma grande reforma do Cine Guarany, e só aos 74 anos, em 1952, Carlos Gracher deixa as empresas da família a cargo do filho, Arno Carlos Gracher. O pioneiro, criador do Cine Esperança, falece no fim do anos 60.

Ainda em 1952, um incêndio interrompe as atividades. O fogo começa na cabine de projeção, durante uma sessão. Naqueles tempos, os filmes eram tocados a cartão. Um palito era aceso e ditava a qualidade da projeção do filme. Naquela noite, a janela do projetor ficou aberta, causando a tragédia.

Os próprios espectadores, após saírem pela única porta da sala, foram buscar água para combater o fogo. A apólice do seguro foi perdida, e o Cine Real foi fechado por meses.

Cinco anos depois, no mesmo lugar, após uma recuperação financeira da família, é inaugurado o Cine Teatro Real, no lugar do prédio onde haviam funcionado os cinemas Guarany, Colyseu e Real.

A inauguração foi realizada em 10 de agosto de 1957, às 16h, e a primeira sessão foi feita quatro horas depois, com o filme britânico Tudo que o Céu Permite (All That Heaven Allows), de 1955. A sala, de 1.250 lugares, dos quais 110 eram poltronas estofadas, ficou lotada.

Os filmes entravam em cartaz no sábado. Filmes mais famosos estreavam nas noites de sexta-feira, com reprises no sábado e no domingo. As sessões de domingo eram realizadas às 14h, 16h e 20h. A maioria do público dependia de ônibus, que chegava e partia da praça Barão de Schneeburg.

A estrutura no novo Cine Teatro Real permitia a Brusque receber sucessos de bilheteria dos principais estúdios dos Estados Unidos. O sucesso absoluto do cinema, no entanto, sofreu queda com a popularização dos aparelhos de TV. Para se manter por cima, foram feitos investimentos para que fossem trazidos filmes ainda mais consagrados e também companhias de teatro de renome nacional.

O Cine Real termina sua história com este nome em 1994, quando é fechado para dar lugar ao Cine Gracher, anexo ao Shopping Gracher.

Cine Teatro Real, sequência do esperança, foi inaugurado em 10 de agosto de 1957 | Foto: Livro Gracher – Uma empresa faz 100 anos

Cine Gracher

Na inauguração do Shopping Gracher, em 17 de março de 1999, a gigantesca sala de cinema antiga já havia sido reduzida. Uma única sala, com capacidade para 230 espectadores, era o cinema de então, remanescente da sala de 1957, com novos recursos tecnológicos.

A inauguração do Shopping encerrou o período em que Brusque ficou sem cinema, já que em 1994 a sala havia sido fechada para reformas. Só em 2005 foram construídas mais duas salas com estrutura avançada de som e imagem.

Em 2010, a família dá sequência ao pioneirismo de Carlos Gracher e Arno Carlos Gracher: chega o 3D a Brusque. “Lançamos a tecnologia do cinema 3D praticamente em simultâneo com Florianópolis e Joinville”, explica Gisela Stieven. Dois anos depois, é inaugurado o Cine Gracher na Havan.

A partir de 2013, começa uma expansão para outras cidades. Hoje, Porto União, Arapongas, Pato Branco, Porto Belo, Indaial, São Bento do Sul e Joaçaba possuem as salas que continuam o centenário cinema de Carlos Gracher.

A sala de cinema em 1949 | Foto: Livro Gracher – Uma empresa faz 100 anos

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