Brusque 157 anos: Indústria alavanca o desenvolvimento

Paulo Vendelino Kons, historiador

Brusque 157 anos: Indústria alavanca o desenvolvimento

ARTIGO Brusque 157 anos: Indústria alavanca o desenvolvimento Paulo Vendelino Kons Historiador paulokons1@gmail.com **foto: histórica A pioneira Fábrica Renaux nos anos iniciais do século XX. Em primeiro plano, os trilhos da via férrea de bitola estreita que ligava a Fábrica ao Porto Fluvial, no Centro de Brusque Crédito: Acervo Paulo Vendelino Kons

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A colônia Itajahy, instalada em 4 de agosto de 1860 por 55 alemães liderados pelo barão Maximilian von Schneéburg, hoje transmudada na cidade de Brusque, tem a indústria como principal alavanca de seu desenvolvimento.

A ética do trabalho e da poupança, a fé cristã, o associativismo, o respeito às leis, a valorização da iniciativa particular e familiar e a preservação da cultura, dentre outras características, plasma o desenvolvimento do território compreendido pelas colônias imperiais Itajahy e Príncipe Dom Pedro.

Indústria pioneira
A indústria têxtil da cidade “Berço da Fiação Catarinense” teve sua gênese em 11 de março de 1892, com a entrada em funcionamento dos teares da indústria pioneira, a Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, que desencadeou um profícuo e contínuo processo de crescimento industrial em Brusque.

A fábrica teve seu início com oito teares manuais. Para a sua fundação, o imigrante franco alemão Carlos Renaux associou-se ao agricultor e comerciante Augusto Klappoth e a Paul Hoepcke.

A chegada de tecelões provenientes da região têxtil de Lodz, na Polônia, foi decisiva para a implantação do ramo têxtil em Brusque, pois detinham o conhecimento do ofício de transformar fios de algodão em tecido. Haviam emigrado para o Brasil por causa das más condições de trabalho e por constituírem uma minoria étnica – eram na sua maioria de origem alemã, vivendo na região da Polônia sob o domínio russo e sofrendo diversas restrições de ordem política e social. Ao se estabelecerem na região, receberam lotes impróprios para a prática da agricultura e, por não possuírem experiência agrária anterior, aceitaram o trabalho assalariado no empreendimento têxtil.

Há menos de uma década da instalação do município (8 de julho de 1883) e ressentindo-se dos conflitos ocasionados pela derrubada do Regime Monárquico e a ascensão do Republicano, Brusque tinha sua economia vinculada ao engenho de farinha e açúcar, às atafonas, à manufatura de charutos, à produção de banha e cachaça, à exploração da madeira e outras atividades agrícolas, pastoris e de exploração. A contratação do tecelão Jackowsky, pelo comerciante João Bauer, em 1890, marcou nossa história como uma tentativa isolada de produção de tecidos no município.

Filho do tecelão de Lodz Gottlieb Tietzmann, Rudolf Tietzmann fundou sua fábrica de tricô, provavelmente em 1897.

Novas indústrias
Em 9 de fevereiro de 1898, Eduard von Buettner e seu filho Edgard fundam a Eduard von Buettner & Cia, especializada e pioneira no Brasil na produção de bordados finos.

O ‘slogan’ do Centenário de Brusque, de autoria do padre cientista Raulino Reitz, “Brusque, Berço da Fiação Catarinense”, foi inspirado e fundamentado no fato de a Fábrica Renaux ser a primeira indústria a instalar uma fiação em Santa Catarina. As dificuldades na aquisição da matéria-prima principal para a confecção dos tecidos e a constatação da existência de um mercado promissor para a indústria têxtil, que vinha se firmando em todo Vale do Itajaí, incentivou a empresa a montar, em 1900, uma fiação de algodão. Para a realização desse empreendimento foi contratado, na Alemanha, o técnico especialista em fiação Gustav Walter Bueckmann que, com modernos equipamentos trazidos da Inglaterra, instalou a nova unidade na cidade.

O rio Itajaí-Mirim era utilizado largamente como via fluvial na exportação dos produtos brusquenses, tanto de produtos agrícolas e exploração, quanto dos produtos têxteis que eram transportados em balsas até o porto de Itajaí.

O coronel Carlos Renaux, após transferir sua fábrica para a atual avenida Primeiro de Maio, firmou contrato, em 1900, com o município e construiu uma linha férrea de bitola estreita, de tração animal. Partia da passagem sul do Itajaí-Mirim (porto fluvial localizado nas imediações da atual ponte estaiada Irineu Bornhausen), teve extensão de três quilômetros, ligando a fábrica ao porto.

Na Exposição Nacional, realizada no Rio de Janeiro em 1908, Brusque foi destaque com seus tecidos de algodão, meias, rendas e bordados e outros produtos, conquistando três grandes prêmios, 13 medalhas de ouro, 14 de prata e 14 de bronze.

Gustavo Schlösser e seus filhos Hugo e Adolfo, em 1º de janeiro de 1911, fundaram a Gustavo Schlösser & Filhos.

Novos impulsos na área industrial se dariam com a construção e inauguração da usina elétrica na Guabiruba Sul, em 13 de novembro de 1913. A geografia econômica e social de Brusque se transformava definitivamente, através da contribuição do empreendedor João Bauer no desenvolvimento de Brusque.

Otto Schaefer também contribuiu com o setor têxtil brusquense, com a fundação da Fábrica de Fitas de Seda.

A Fábrica Renaux passou a constituir-se Sociedade Anônima a partir de 1918, ano em que o fundador Carlos Renaux recebeu o título de cônsul honorário do Brasil em Arnhem, na Holanda.

Por iniciativa de Otto Renaux, Otto Neitsch e outros sócios, é fundada em 27 de abril de 1925, as Indústrias Renaux S.A. (atual RenauxView). Até o final da década de 60, a empresa foi uma das principais fornecedoras nacionais de tecidos para estofamentos, cortinas, toalhas de mesa e outras aplicações domésticas. Juntamente com a hoje RenauxView, a fundação do Banco Indústria e Comércio – INCO, em 1934 (o maior banco privado de Santa Catarina, adquirido pelo Bradesco, em 1968); a criação da Companhia Catarinense de Cimento Portland, em 1943; a produção e distribuição de energia elétrica, com a Empresa Força e Luz de Santa Catarina (hoje Celesc) e a criação de novas fronteiras agrícolas, com a Companhia Madeireira Rio Paraná – Maripá, marcam o caráter empreendedor de Otto Renaux, filho do Cônsul.

Em 1935, a pioneira Fábrica Renaux possuía 294 teares (21,85% dos teares em Santa Catarina) e 649 trabalhadores (22,50% por cento do total da mão de obra empregada no ramo têxtil no Estado).

No pós-guerra, dois fatores conjunturais favoreceram o processo industrial de Brusque: a questão da inflação brasileira e a liberação da demanda, no mercado mundial, de produtos que haviam sofrido retratação no consumo, motivada pela abrangência da guerra.

Inaugurado em 1º de agosto de 1971, pelo presidente da Fiesc, Carlos Cid Renaux, o Centro de Treinamento Têxtil de Brusque, com o Laboratório de Fiação e Tecelagem – Lafite, teve grande importância na transformação da Indústria Têxtil de Brusque e região.

Setor metalúrgico
A ampliação do panorama industrial de Brusque se dá com a inserção do setor metalúrgico na economia local a partir dos anos 60, graças à experiência adquirida no ramo têxtil, quando da proibição à importação de maquinário durante a guerra, necessitando-se fazer o conserto das peças faltantes e até mesmo criar maquinário localmente e com isso inaugurando, mesmo que ainda não intencionalmente, um novo e próspero ramo dentro da indústria brusquense.

Instalam-se em nossa cidade as metalúrgicas Siemsen, Brusque, Irmãos Fischer, e outras. A Irmãos Zen, fundada em São Paulo em 1960, transferiu-se para Brusque em meados da década de 70. O ramo metalúrgico atua na área de automobilística, eletrodoméstica, construção civil, máquinas de processamento gerais, fundição e serralheria.

Novo impulso desenvolvimentista deu-se através da implantação da indústria de malhas, a partir dos anos 80. Dezenas de micro, pequenas e médias empresas do ramo de confecções instalaram-se, provocando verdadeira revolução econômica, na medida em que dezenas de operários têxteis passaram à condição de empresários, descentralizando a renda.

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