Minha irmã foi uma das primeiras jovens intercambistas de Brusque, pelo programa do Rotary Clube. Arrasou meu coração no aeroporto de Navegantes em 1988. Chorei alto, com aquela dorzinha egoísta que sentimos quando sabemos que a partida será uma aventura para quem vai, mas que para quem fica uma angústia que mora na saudade.

Minha princesa, Barbie e fada simplesmente pluft! Foi pras Américas do Norte… Transformou minha percepção sobre o tamanho do mundo e deixou para a família inteira um legado nômade. Transbordou coragem em sair do ninho e se permitir experienciar outros, reinventando-se diante das regras de outro lugar. Intercambiar vivências é metamorfosear-se, é revelador.

Depois dela foi meu irmão mais velho, em seguida eu, passando o bastão para meu irmão mais novo e assim fechamos nosso revezamento familiar.  Entre as despedidas, pousavam lá em casa intercambistas de tudo que era lado.

Mike, nosso primeiro, alemão grandão, ficou um ano conosco e virou irmão mesmo. Até bronca levei dele. Na casa de meus pais meio mundo já dormiu e sentou-se para tomar café, nossa casa tinha porta sei lá pra quê. O que tem é muito penduricalho gringo cheio de histórias. Minha mãe até hoje, quando pessoas do “além mares” pousam por lá, adora servir a mesa e ditar o nome dos pratos, num tom alto, bem alto! Um quase:

– Sei que tu não és surdo, mas boa dicção e volume acordam o linguajar. Repita: FEIJÃO!

O intercâmbio possui nele a sensibilidade em nos fazer compreender que o mundo é uma aldeia, que ao batermos na porta de alguém as cores e cheiros mudam e tal pode ser incômodo, pode ser prazeroso, só poderá ser qualquer coisa se tu entrares. O contrário de modo similar, quando o diferente adentra tua casa, o estranho, o esquisito, o exótico, a visita de outro planeta provoca nosso deslocamento da zona de conforto. Com cuidado podemos nos entreter com as diferenças e conceber outras formas de viver. Pode ser libertador. Pode, e vai, alterar nossa maneira de enxergar nosso próprio lar. A saudade ensina.

Muitos são os “tipos” de intercâmbios, os mais chocantes que te levam por inteiro, corpo e alma. Outros que trazem para ti, para teu canto, gente estrangeira. E ainda, arrisco afirmar, que conheço gente que nunca caminhou para muito longe, contudo garimpa o desconhecido pelos livros, filmes ou falas dos forasteiros e alienígenas e consegue se tele transportar.

Eu caço intercambistas. Quando sei de um que está por perto, busco conhecer, explorar. Curto levar para minhas salas de aula, instigar a curiosidade, tirar a paz dos passivos, escancarar a real nas diferentes culturas por meio da língua, comida, roupa, das relações. O que é bonito e certo para ti pode não ser para mim.

Intercambie-se!


Professora Karline Beber Branco

Minha irmã foi uma das primeiras jovens intercambistas de Brusque, pelo programa do Rotary Clube. Arrasou meu coração no aeroporto de Navegantes em 1988. Chorei alto, com aquela dorzinha egoísta
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