Limites que ensinam e libertam


 


José Francisco dos Santos


Filósofo e professor


 


Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova Iorque, surgiram muitas histórias de pessoas que sobreviveram porque deveriam estar no World Trade Center naquele momento, mas não conseguiram chegar a tempo. Houve quem ficou preso no trânsito, recebeu visita inesperada, teve que resolver alguma outra coisa emergencial. Por algum motivo alheio à sua vontade, escaparam dos ataques terroristas. Certamente que esses sobreviventes ficaram irritados por não poderem chegar ao trabalho ou ao compromisso marcado para aquele endereço. Imagino o indivíduo praguejando no trânsito e olhando o relógio, irritado com essa limitação momentânea. Ao saber da tragédia, certamente percebeu o quanto tal contratempo foi providencial.


Nossa vida é permeada de contratempos. E nós tendemos a apenas lamentar e esbravejar contra eles, sonhando uma existência livre de qualquer obstáculo. Mas, embora não estejamos no caso limite de nos livrarmos de um atentado terrorista, nossos obstáculos nos são essenciais.


Muitos ganhadores de loteria estão falidos e com a vida virada do avesso. O dinheiro que deveria representar a grito de liberdade acabou significando a escravidão e o fracasso. Quando os limites são tirados de uma hora para outra, como num passe de mágica, a rota se torna um tobogã escorregadio pelo qual se passa sem esforço, mas cujo destino final está totalmente fora de controle.


Nessa contínua busca pelo equilíbrio, muitas vezes acabamos salvos por aquilo que consideramos um problema. É significativo que muitas pessoas que passaram por enormes dificuldades e desafios aparentam mais calma e controle diante da vida, como se tudo tivesse sempre sido muito fácil para elas.  Mas essa segurança e o sucesso que costuma acompanhá-la são forjados, a todo momento, por quem vive no calor da batalha, e por isso já aprendeu a enfrentá-la com serenidade. Do ponto de vista dos medrosos e dos que sempre deixam para depois o esforço que precisam fazer, o sucesso das pessoas guerreiras é fruto da sorte, como se a vida lhes tivesse sido excessivamente gentil. Ao contrário, uma vida cheia de facilidades costuma produzir fracassados, pois as facilidades minam nossa energia, enquanto as dificuldades nos ajudam a produzi-la. No fim, o guerreiro sempre achará fácil o que o preguiçoso considera um obstáculo intransponível. É uma questão de disposição interna, e que só se forja na luta de cada dia. Quando não há inimigos para enfrentar, os soldados enchem a cara de vinho, criam barriga e se tornam inúteis.


Sou grato pelas inúmeras dificuldades que tive que enfrentar, embora tivesse adorado me livrar de muitas delas à época em que apareceram. Sem elas, certamente seria menos do que sou hoje.


A meu ver, Deus está longe de ser um desses pedagogos modernos, que acham que se deve facilitar sempre mais a vida das crianças. Ao contrário, como sabe exatamente o quanto cada um precisa e pode evoluir, Ele recheia os seus caminhos com as pedras adequadas. Os sábios não titubeiam em passar por elas e colhem as lições que cada uma engendra. Quem quiser tomar um atalho qualquer poderá fazê-lo. Vai chegar mais rápido, mas certamente não ao destino que lhe estava preparado.