Em 2 de agosto de 1971, um grande incêndio no Centro de Brusque, próximo ao Colégio Cônsul Carlos Renaux, mobilizou a população 13 anos após a tragédia similar na Casa do Rádio. O fogo significava o fim da Loja das Malas, empresa tradicional fundada no início do século 20 por Arthur, Hélio e Ervino Olinger como Selaria Olinger, e razão social Arthur Olinger e Cia Ltda. O proprietário da loja na época, Moacir Laus, jogava canastra na Churrascaria do Maestri, na rua Primeiro de Maio, quando recebeu a notícia. Aposentou-se 14 anos mais tarde, em 1985.

É dito que a Selaria Olinger foi a pioneira, ou pelo menos uma das primeiras lojas do ramo em Brusque. Com curtume próprio, fabricava produtos em couro e também vendia os de outras marcas. É dito, também, que a empresa foi a primeira a vender e produzir bolas de futebol. Malas eram uma das especialidades, assim como artigos de montaria, todos costurados à mão. Entre 1956 e 1971, o proprietário da empresa, já com o nome Loja das Malas, era Moacir Laus.

Diferente do que ocorreu com a Casa do Rádio, a Loja das Malas não conseguiu se recuperar | Foto: Moacir Laus/Arquivo pessoal

Hoje aos 82 anos, Laus mora no bairro Jardim Maluche, e lembra que Arthur Olinger, principal responsável pela Selaria Olinger, era seu padrinho. Sua mãe era empregada da família Olinger. “Meu pai era tecelão da Renaux, ganhava uma miserinha. A minha infância teve, sim, algumas dificuldades.” A ajuda dos Olinger foi fundamental para uma melhor condição de vida.

Após ter estudado no colégio Feliciano Pires, Laus aprendeu sobre contabilidade com o então contador da Prefeitura de Brusque, José Rubik. “Comecei a trabalhar com 14 anos. Eram outros tempos”, comenta. O ofício foi fundamental para seu futuro. Muito por causa deste aprendizado, passou a trabalhar na Selaria Olinger, em 1951.

Ainda em meados dos anos 50, um dos sócios foi embora para Blumenau. Em 2 de fevereiro de 1956, a loja foi comprada por Laus, sob condições especiais para pagamento. Os funcionários, a princípio, iriam seguir caminho rumo a Blumenau com os antigos proprietários, mas logo retornaram a Brusque e voltaram a trabalhar na loja, que agora era a Loja das Malas.

Eram cerca de 20 funcionários com os quais a empresa mantinha funcionamento normal. A Loja das Malas adquiriu os direitos de exclusividade de venda de algumas marcas, direitos estes que pertenciam a concorrentes. Credibilidade e reputação exemplares na praça davam a Moacir Laus mais tranquilidade para trabalhar.

“Havia uma clientela boa, inclusive de São João Batista, que comprava nosso couro. Ia bastante gente para a loja, o estoque era bem variado”, relembra.

As fotos mais acessíveis nos arquivos da família Laus são do incêndio, e não de anos anteriores | Foto: Moacir Laus/Arquivo pessoal

Depois de 5.660 dias, 15 anos e meio à frente de uma renomada empresa, tudo acabou no incêndio. Na verdade, ainda foi possível trabalhar com o couro no curtume, mas a Loja das Malas foi destruída, e o incêndio fortalecido com produtos inflamáveis. A causa do incidente jamais foi descoberta. Para piorar, o pouco que foi recuperado foi furtado pouco tempo depois.

“O dia 2 é muito marcado para mim. Em um 2 de fevereiro comprei a loja, em 2 de maio de 1959 me casei e em um 2 de agosto houve a tragédia”, comenta.

Na época, a Loja das Malas também vendia a crédito. Após o incêndio, ainda recebeu calotes. “Teve gente que disse na minha cara, não queria pagar o que devia dizendo que o seguro pagaria. Uns três, quatro clientes. E não dava, o escritório, a papelada, tudo ficava dentro da loja.”

Moacir Laus se aposentou em 1985, aos 49 anos, por tempo de serviço. “Modéstia à parte, fui um lutador, um trabalhador. Mesmo com algumas dificuldades, as coisas acabaram dando certo. Estamos aí.”


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