Com ruas largas, canteiros centrais e poucos prédios, o Jardim Maluche é um dos bairros com terrenos mais valorizados em Brusque. O loteamento feito sobre a área da fazenda da família Maluche na década de 1950 foi um projeto inovador, especialmente para a época, quando não era comum se pensar em crescimento ordenado das cidades. O planejamento foi capitaneado pelos quatro filhos de Antonio Maluche, proprietário da fazenda, após seu falecimento.

O Brasil vivia, durante os anos 1950, o período que, posteriormente, ficou conhecido como “anos dourados”, uma época de modernização e efervescência cultural no país todo. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a década seguinte foi o momento de recuperação econômica e de estilo de vida. O país tinha Juscelino Kubitschek na presidência e viu a construção de Brasília, cidade projetada pelo arquiteto carioca Lúcio Costa para ser a capital nacional, afastando o centro administrativo do Rio de Janeiro.

Em Brusque, o loteamento do Jardim Maluche foi lançado como “o maior e mais moderno loteamento de Santa Catarina”. Datado de 14 de janeiro de 1954, o projeto foi encomendado ao engenheiro Wladislau Rodacki, de Blumenau, que realizou o levantamento da área, os estudos topográficos e desenvolveu a planta do que viria a ser o bairro.

Foi apenas em 1995 que o loteamento se tornou um bairro de Brusque, por meio da lei nº 2.042 de 23 de novembro de 1995, promulgada pelo prefeito da época, Danilo Moritz, que estabeleceu o Plano Diretor do bairro Jardim Maluche, fixando seus limites. Ao norte, o bairro faz divisa com o rio Itajaí-Mirim; ao sul, com os fundos do lado direito da avenida Dom Joaquim e das ruas Germano Furbringer e Maximiliano Furbringer; ao leste, com a rua Gerônimo Coelho e com o rio Itajaí-Mirim; e, a oeste, com o rio.

Loteamentos, de acordo com o arquiteto e urbanista Anderson Buss, que é vice-presidente Clube de Engenharia Arquitetura e Agronomia de Brusque (Ceab), são os principais empreendimentos que definem o crescimento da cidade.

“Por esse motivo devem ser concebidos de forma a gerar benefícios. O projeto do loteamento Jardim Maluche teve total influência na conformação que definiu o bairro Jardim Maluche de hoje. Apesar do limite do bairro atual ser maior do que os limites do loteamento da época, o empreendimento foi o principal definidor das suas características, ordenando seu crescimento ao longo dos anos de acordo com o que foi planejado.”

Ainda segundo o arquiteto, o desenvolvimento sustentável e ordenado só é possível de ser alcançado ao se pensar na cidade como um todo, e é necessário se considerar o tempo como um fato importante nesse crescimento.

“O próprio Maluche é um exemplo disso: foi uma inovação na época que foi planejado, mas precisa se atualizar ao longo do tempo, contribuindo para sua função social da propriedade e para uma cidade sustentável”, explica.

História
A família que dá o nome ao bairro chegou ao Brasil vinda da Alemanha. Augusto Maluche casou-se com Maria Werner, filha do pioneiro Pedro José Werner. Dali vieram as terras que deram origem ao atual Jardim Maluche, que foram herdadas pelo filho de Augusto e Maria, Antonio, e então por seus filhos, Bruno, Winiton, Oscar e Laura.

O filho de Augusto, Antonio, teve terras em Lages e também no bairro Limoeiro antes de adquirir a fazenda que viria a se tornar o bairro.

Em entrevista ao jornal O Município em julho de 2010, Oscar José Maluche relatou: “A indústria automobilística surgiu no Brasil nos anos 50, com a fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP). Eles [os irmãos Maluche] foram buscar subsídios para a fazenda. Lá, viram que os bairros próximos da montadora foram desenvolvidos já prevendo áreas verdes, de jardins, praças e ruas com até 30 metros de largura”. Inspirados pelo que viram no interior paulista, os irmãos pediram ao engenheiro Wladislau Rodacki que projetasse o loteamento nos mesmos moldes.

“Os lotes eram vendidos por preços baixos e parcelados em longas prestações, então as famílias foram comprando e se mudando para o bairro”, conta Veronica Maluche Loos, neta de Antonio, proprietário da fazenda, e filha de Bruno, um dos idealizadores do loteamento.

Ela recorda que, antes de se tornar loteamento, a fazenda do avô Antonio tinha um portão onde hoje é a loja Calçados Gevaerd, na rua Pedro Werner. Uma estradinha de chão levava até a casa principal, que permanece até hoje na rua Augusto Bauer e já foi a sede do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) em Brusque.

Espaços adjacentes à fazenda, como onde hoje está a panificadora Sassipan, eram terrenos baldios, muitas vezes ocupados por circos ou ciganos. “Pelo fato de nossa família ser a dona do terreno, nós éramos convidados para assistir às apresentações. Teve até uma festa de casamento de ciganos para a qual fomos chamados”, conta.

O bairro tinha também seus personagens, figuras quase folclóricas da região. Um deles é Ginoca, Orgino Domingos Francisco, que morava na rua João Paulo Pinheiro. Natural de Tijucas, Ginoca mudou-se para Brusque com a a família quando o pai teve uma oportunidade para trabalhar na empresa ferroviária, a década de 1920. Com 10 anos de idade, Ginoca já trabalhava na fazenda Maluche, ainda no bairro Limoeiro.

Após seu casamento, ele voltou a trabalhar para os Maluche, já na fazenda. Foram mais 14 anos de convivência, e Ginoca só saiu de lá para morar no bairro que leva o nome da família. Falecido em 2007, ele é lembrado por andar pelas ruas do Jardim Maluche com sua carroça, vendendo areia para as construções, e também por sua alegria característica.

Ginoca começou a trabalhar para a família Maluche aos 10 anos | Arquivo Pessoal

Crescimento
“Com o loteamento, tudo mudou”, resume Veronica. Famílias começaram a ocupar os terrenos, o bairro foi se modernizando e crescendo a cada dia. Ela, acostumada com a fazenda, viu as transformações acontecendo de perto – morou até o ano passado na casa de tijolos ao lado da casa da fazenda, na Augusto Bauer.

No início, praticamente só a Augusto Bauer era calçada, e as outras ruas eram todas estradas de barro. O bairro, projetado para ser residencial, só teve o calçamento e asfaltamento feito nas demais vias na década de 1990, segundo recorda Eduardo Loos, filho de Veronica.

Para Oscar Maluche, filho de Oscar e neto de Antonio, o que alterou drasticamente o bairro foi o poder público: “Com a construção da ponte, virou via de passagem, com tráfego muito intenso para outros bairros, e também a Beira Rio”.

Desde a década de 1980, o Jardim Maluche deixou de ser apenas residencial e abriga educação, saúde e lazer. Muitos dos terrenos foram doados à Prefeitura de Brusque pela família, como a área da Unidade Básica de Saúde, parte do terreno da Apae, do Sesi, da Escola de Educação Básica Dom João Becker e do Centro de Educação Infantil Hilda Anna Eccel II, antigamente ocupada pelo fórum.

Terreno onde é o Sesi foi um dos que a família doou para a prefeitura | Acervo Casa de Brusque

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