José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

Mas os homens preferiram as trevas…

José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

Mas os homens preferiram as trevas…

José Francisco dos Santos

Um dos textos mais conhecidos da filosofia é a “Alegoria da Caverna”, de Platão, trecho do livro “A República”. Para falar do processo do conhecimento, o filósofo imagina uma caverna escura, no fundo da qual três prisioneiros estão acorrentados, de tal forma que não podem ver nada do que se passa do lado de fora. Com os olhos voltados para o fundo da caverna, veem projetadas aí sombras das coisas que passam lá fora. Como nunca viram o que há lá, imaginam que as sombras que veem são a realidade, e discutem sobre elas. Quando um deles consegue se libertar, com dificuldade sai da caverna, tentando habituar os olhos à luz, até que passa a enxergar as coisas como elas realmente são, percebendo o quanto era ilusória sua crença na realidade das sombras do fundo da caverna. Decide voltar para avisar seus companheiros, mostrar a eles o quanto estão iludidos, mas estes o chamam de louco, irritam-se com sua insistência e o matam. Ao tempo em que mostra a analogia do conhecimento como a saída da escuridão em direção à luz, Platão relembra a condenação do seu mestre Sócrates, que foi obrigado a tomar um veneno mortal, pois sua filosofia estava incomodando os atenienses. O destino trágico dos que tentam conduzir a humanidade à luz, como Jesus ou Sócrates, se deve ao fato de que pouca gente parece realmente querer se libertar das correntes da caverna, tão acostumados que estão com suas sombras e ilusões.

Apegados aos nossos costumes, opiniões e “bardas”, costumamos resistir tenazmente às opiniões contrárias. Se não podemos condenar à cruz ou a tomar cicuta, condenamos à nossa indiferença. Como bem descreve Platão, os olhos de quem está no escuro doem ao contato com a luz. É muito mais cômodo voltar para o conforto das ilusões conhecidas, do que enfrentar o processo de aprender, crescer, lapidar-se. É incrível a nossa capacidade em insistir nos erros, como se uma força irresistível nos impedisse de dar um passo à frente.

Vejamos alguns exemplos simples: de que lado obscuro da mente vem a ordem para que motoristas forcem ultrapassagens, para além de qualquer propósito minimamente racional, transformando a estrada numa roleta russa? De onde vem o ciúme doentio dos crimes passionais, a avidez para o vício e o desejo mórbido de vingança, que recheiam nossas páginas policiais? As propagandas do Ministério da Saúde não parecem conter o afã dos amantes do cigarro, inclusive dos novos fumantes (muitas mulheres, diga-se), que entram para esse time diariamente. Os exemplos do cotidiano se multiplicariam! Por que em muitas das nossas escolhas não é o adulto racional que decide, mas o menino cheio de birra e ímpeto? Mahatma Gandhi se estrebuchou para libertar a Índia do império britânico. Mal o conseguiu, seus liderados se engalfinharam numa guerra religiosa tão estúpida quanto violenta, e ele próprio foi assassinado por um fanático. Seu discurso de não-violência não resistiu às forças obscuras que regem a conduta humana. Por que o conhecimento, a razão, a prudência e o discernimento espiritual não guiam nossa conduta, ou pelo menos boa parte dela? Por que essa teimosia e essa enorme dificuldade em procurar a verdade e viver de acordo com ela? As pessoas costumam ser muito ciosas de suas opiniões e do comportamento que é associado a elas. Diz um velho jargão que é mais fácil mover uma montanha do que mudar um hábito. A escuridão da caverna é convidativa, pois, se não vemos a luz, ela não nos obriga a encarar os defeitos que precisamos mudar. E como à noite todos os gatos são pardos, todo mundo acaba meio que se acomodando à sua própria escuridão e à dos outros. Mas fora da caverna, o sol continua brilhando.

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