Moradores relembram história da igreja abandonada no Nova Itália

Templo construído pelos imigrantes italianos em 1919 está sem uso há pelo menos seis anos

Moradores relembram história da igreja abandonada no Nova Itália

Templo construído pelos imigrantes italianos em 1919 está sem uso há pelo menos seis anos

Construída há quase 100 anos, a igreja de Santo Amaro, localizada na parte alta do bairro Nova Itália, é motivo de orgulho e de preocupação para devotos e integrantes das famílias que viveram próximas ao local no século 19. O espaço está abandonado há pelo menos seis anos e padece com a ação do tempo.

Para relembrar a história da igreja, a reportagem conversou com três pessoas que moraram próximas ao templo no período em que ele permaneceu em atividade. O professor aposentado Valdevino Minela, de 75 anos, é uma delas. Ele morou no Nova Itália quando ainda era criança.

Minela diz que sua mãe, Etelvina Torresani, contou-lhe que as famílias que residiam no bairro – imigrantes italianos – foram as responsáveis pela construção da igreja. Os moradores fabricavam os tijolos em caixas de madeira: primeiro, o material – barro – era colocado nos moldes e, posteriormente, deixado ao sol para endurecer.

Naquela época, além da família Torresani, as famílias Noldine Minela também auxiliaram no levantamento da edificação. Segundo o tio de Valdevino, Luis Torresani, de 89 anos, sete famílias residiam próximas à igreja. De todos os integrantes das famílias, Davi Noldin – tio de Luis – foi quem doou o terreno à Igreja Católica e fundou o templo da Nova Itália.

“Não achamos documentos que falam a data específica da inauguração da igreja. Mas foi no ano de 1919. As famílias Noldin, Minela e Torresani participaram da construção. Na década de 20, as famílias faziam festa e rezavam a santa missa ali. Em 1948 ela foi fechada por falta de algum morador que cuidasse”, conta Luis.

Depois de 20 anos fechada, a igreja foi reativada em 1968 graças a outro morador que se dispôs a manter o espaço. Quando reaberta, iniciaram-se reformas internas e externas. Durante a reforma, a imagem do padroeiro Santo Amaro foi roubada e, em seguida, vendida. Os moradores encontraram a imagem em Itajaí e, para recuperá-la, tiveram de desembolsar 300 cruzeiros.

Após a recuperação do padroeiro e após a reforma, a igreja foi novamente fechada em 1987, período em que Santo Amaro foi transferido para a igreja do bairro Santa Luzia. Anos depois – não há data específica – reabriu, para encerrar as atividades pela última vez há cerca de seis anos.

Atualmente, a imagem de Santo Amaro permanece na igreja de Santa Luzia. Segundo Valdevino, o padroeiro foi trazido da Itália pelos imigrantes. Quanto à imigração, o historiador Paulo Kons conta que, a partir de 1875, 10 mil italianos foram introduzidos em Brusque, Nova Trento, São João Batista, Botuverá e Guabiruba.

“Quando eles chegaram, as melhores terras das baixadas já estavam ocupadas por alemães, então os italianos foram meio que empurrados para lugares mais distantes. Por isso que hoje tem os bairros Limeira, Ponta Russa, Poço Fundo e Nova Itália. Eu acho que a Nova Itália foi um dos últimos lugares ocupados”, explica.

As famílias de imigrantes que residiam no Nova Itália, segundo Luis, eram originárias da vila de Fonsatti, localizada no município de Belluno. Os Minella, os Torresani e os Noldin, explica o professor aposentado, conheciam os beneditinos e, por isso, tornaram-se devotos de Santo Amaro.

Criados na roça

Para sobreviverem, as famílias que moravam próximas à igreja da Nova Itália exploravam a agricultura. Eles cultivavam produtos como mandioca, aipim, cana de açúcar e milho. O irmão de Luis, Ercílio Torresani, de 93 anos, lembra que o pai de ambos vendia farinha para moradores de Itajaí.

Em relação à igreja, Ercílio conta que a frequentava aos domingos para rezar o terço. Missas celebradas por padres, por outro lado, ocorriam apenas quatro vezes ao ano. Os motivos eram a distância do bairro em relação à região central de Brusque e a dificuldade de locomoção – na época, realizada de carroça.


Devotos lutam para preservar história
O terreno que circunda o templo de Santo Amaro está localizado na fazenda Nova Itália, pertencente ao Industrial Irmãos Hort. Já o espaço que pertence à Igreja Católica tem cerca de 2,5 mil metros quadrados. Para o historiador Paulo Kons, o local poderia ser utilizado como um espaço de retiro e como um pequeno santuário de recolhimento.

“Não adianta restaurar e ficar lá só para o desfrute dos passarinhos. É necessário que alguém cuide. Isso é um patrimônio autêntico e original. Para reformar, podia ser através de recursos de lei de incentivo, seja federal, estadual ou municipal. Há formas e meios de se ter um auxílio. Mas se quisermos fazer alguma coisa, nós temos de participar, porque se depender só do poder público, não conseguiremos”, explica Kons.

Assim como o historiador, Valdevino também apoia a reforma da igreja. Ele afirma que o local traz recordações e preserva a história de fundação do bairro. De acordo com ele, alguém precisa “abraçar a ideia” e correr atrás das mudanças.

A opinião de Valdevino é a mesma do pároco da paróquia São Judas Tadeu, padre Pietro Anderloni. Para o padre, somente se alguma entidade ou algum grupo – de preferência, não pertencente à Igreja Católica – buscar auxílio e tomar a frente da situação, o templo poderá ser reformado e mantido.

“Levamos o Dom Wilson [Dom Wilson Tadeu Jönck, arcebispo metropolitano de Florianópolis] até lá para mostrar a situação. Então ele falou sobre fazer alguma coisa para reativar, porque também se tem a ideia de vender o espaço”, diz. “O primeiro passo para mantê-la é construir uma equipe, uma equipe que acredite naquele lugar. Que não seja algo tão ligado à igreja, que tenha certa autonomia, como os escoteiros”, completa o padre.


Em 6 de janeiro deste ano, a igreja de Santo Amaro foi tema de reportagem publicada pelo jornal Município Dia a Dia. Dia antes da veiculação da matéria, a reportagem esteve no local e constatou a situação de abandono. Paredes descasadas, janelas quebradas, infiltrações e sujeira causada pela ação do tempo são alguns dos problemas do templo.

 

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