Em questão de meses, a vida dos moradores de Brusque mudou completamente. A cultura alemã, com forte influência na rotina da Vila São Luiz Gonzaga, desde a chegada dos primeiros imigrantes em 1860, foi silenciada. Toda a população ficou apreensiva e qualquer ocorrência na sede causava retirada das famílias mais receosas para o interior. 

As celebrações de missas e cultos, as atividades sociais, as aulas nas escolas e até o jornal ‘Brusquer Zeitung’ foram proibidos de circular em língua alemã.

De repente, em 1917, os alunos das escolas particulares da cidade – a católica e a evangélica – foram transferidos para a escola pública, onde deveriam aprender o idioma português, com professores brasileiros contratados. Até aquele momento, os estudantes eram alfabetizados em alemão e, no ato, as duas escolas foram proibidas de funcionar. 

Há relatos de que alunos que já estavam no sexto ano escolar tiveram que entrar na primeira série da escola pública, apenas para aprenderem o idioma pátrio. Alguns, com mais dificuldade de aprendizado, eram castigados por seus professores, seguindo os rigorosos padrões pedagógicos da época.

Igualmente, a rotina nas igrejas foi modificada. Os sermões e homilias, antes em alemão ou italiano, passaram a ser em português, por padres e pastores que nem sempre eram os melhores oradores na língua pátria. Não bastasse, todos os padres católicos alemães com alguma função administrativa dentro da igreja perderam seus cargos. 

Foto: Brusque Memória/Divulgação

Em Brusque, o padre Gabriel Lux, que era o administrador da Santa Casa de Misericórdia de Azambuja, perde o cargo e a partir daquele momento, o comando de Azambuja recai às mãos das Irmãs da Divina Providência.

A vida social, econômica e cultural do brusquense vai se transformar rapidamente. Foi preciso se adaptar e esquecer por algum tempo a cultura alemã pela qual se tinha tanto apreço. 

A influência alemã sobre a Colônia de Brusque tem raízes desde sua fundação. No Centro, prevalecia o idioma germânico, as conversas eram em alemão, os negócios se faziam em alemão, a contabilidade era em alemão, e muitas vezes, inclusive, em alemão gótico.

A influência alemã sobre a Colônia de Brusque tem raízes desde sua fundação

“Há livros de registros no arquivo da Fábrica Renaux que estão em alemão gótico, tratando tanto das atividades técnicas quanto dos negócios. Os primeiros documentos da Sociedade Beneficente da avenida Primeiro de Maio; da Santa Casa de Misericórdia (atual Hospital Azambuja) e do Clube Ipiranga também estão escritos em alemão gótico. Apesar da Revolução de 1892, a Província de Santa Catarina não efetivou ações para integrar as zonas de colonização do Vale do Itajaí; por isso, no início do século 20, a sociedade da Vila Brusque gira em torno da cultura alemã”, destaca o historiador Aluisius Lauth.

Era comum os moradores de Brusque receberem visitas da Alemanha, mantendo assim a ligação com a terra natal.

Em 1905, em uma dessas visitas,  o cruzador alemão Panther aporta no porto de Itajaí. Os tripulantes oficiais e marujos visitam Brusque, Blumenau e Itajaí. Na saída, um dos marinheiros foge da embarcação e é encontrado em um hotel em Itajaí. Uma patrulha alemã vai resgatá-lo e decide trazê-lo algemado à borda. O delegado de Itajaí, entretanto, não concorda com a interferência em seu distrito policial. 

Para ele, em terras brasileiras, nenhum estrangeiro pode prender um cidadão, mesmo sendo ele um estrangeiro. O caso vai parar na embaixada e chama a atenção do Governo da República, que já começava a  perceber a ameaça  da forte influência alemã no Sul do país. 

“Esse fato ajuda a formar o pressentimento de que no Sul existia o perigo de separação do Brasil. Na capital federal, eles entendem que os alemães poderiam ser um perigo para a integração do território. Porém, há pouca evidência de que os nossos alemães desejassem a criação de um Estado Alemão no território de colonização”, destaca Lauth.

A forte presença da cultura germânica no sul do país e, principalmente, no Vale do Itajaí, é fruto do processo de colonização do território, agravado pelo isolacionismo econômico e social de outras terras brasileiras. Não havia, no entanto, interesses em separatismo.

Desta forma, com o início da Primeira Guerra Mundial, em 1914, a vida brusquense segue seu rumo normalmente, dentro das possibilidades sociais e os moradores apenas se mantêm atentos ao que acontece na Alemanha. O sentimento na capital da República, entretanto, era outro. Havia a ideia do chamado “perigo alemão”.  

A República acreditava que os descendentes de alemães que viviam em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul importavam centenas de armas de fogo e as cidades de Brusque, Blumenau e Joinville eram apontadas como centros de concentração das forças teuto-brasileiras que, em certo momento, atacariam  as forças nacionais, conforme publicação do jornal Gazeta do Commercio, em junho de 1917.

É nessa época que surgem as primeiras iniciativas do governo federal para mudar a realidade das cidades colonizadas pelos germânicos.

Em dezembro de 1916, o general Luiz Barbedo faz uma visita a Brusque e decide criar o Tiro de Guerra. São escolhidos 68 rapazes para a primeira turma, a maioria, de descendência alemã. O principal objetivo era ensinar o sentimento de pátria brasileira aos brusquenses. Até o momento, a cidade não festeja as datas nacionais, como o dia da Independência e a República. 

De acordo com Lauth, o que se comemorava em Brusque era o aniversário do Kaiser alemão, com celebração religiosa e festa no clube de Caça e Tiro. Tinha ainda a festa popular de três dias da Páscoa e todas  as festas religiosas de Natal, acompanhadas de muito folclore germânico.

Em outubro de 1917, com a declaração de guerra do Brasil contra a Alemanha, a nacionalização ficou ainda mais evidente. O estopim, que abriu o processo de abrasileiração da sociedade brusquense, foi a publicação de três leis municipais no idioma alemão e não em português. Era comum a publicação de atos oficiais em língua alemã para melhor se entender com a população local.

“Em questão de meses as mudanças aconteceram. De repente, proíbe-se o uso da língua alemã e é preciso se adaptar. Foi um golpe na vida do brusquense, talvez a maior crise histórica para a população, mas que dela resulta, por sua coragem e esforço coletivo, no maior avanço social e econômico dos anos seguintes”, diz o historiador. 

O fim da guerra, em novembro de 1918, traz de volta, lentamente, a cultura alemã, que renasce em atos sociais em Brusque, agora no respeito aos símbolos nacionais e os novos atos cívicos.  O maior deles, o desfile de 7 de setembro, com todos os estudantes uniformizados;  o entoar do hino nacional brasileiro em frente à prefeitura, o hasteamento das bandeiras e a declamação de poesias brasileiras se tornam costume da cidade.

Vemos aqui a capacidade do povo brusquense em se adaptar, ele baixa a voz por um período, mas não se deixa dominar pelos constrangimentos políticos, e volta com mais força nos anos seguintes

As lembranças da guerra ficam no passado. As missas e cultos voltam a ser realizados no idioma germânico. A escola da comunidade evangélica retorna em 1921, e o som de conversas no idioma alemão volta a ser ouvido nas ruas, no interior das casas, e estabelecimentos de negócio de Brusque.

“Nós não esquecemos a língua alemã na guerra. Esse fenômeno nacionalizador é muito rápido, mas não extingue os valores culturais germânicos da sociedade. Vemos aqui a capacidade do povo brusquense em se adaptar, ele baixa a voz por um período, mas não se deixa dominar pelos constrangimentos políticos, e volta com mais força nos anos seguintes”.


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