José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

No balanço da gangorra

José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

No balanço da gangorra

José Francisco dos Santos

 

O equilíbrio é a regra geral do universo. Na física, na química, na biologia, na psicologia tudo parece buscar repouso no equilíbrio. Aristóteles também definiu a virtude como equilíbrio, um meio termo entre dois opostos. Nós costumamos chamar de “desequilibradas” as pessoas que não sabem lidar direito com a vida, e muitas vezes se busca nos remédios químicos uma ajudinha extra para tentar equilibrar a cabeça e o coração. Mas quem pode dizer, sem medo de errar, que é uma pessoa equilibrada? Alguém aparentemente calmo não é necessariamente equilibrado, pois pode estar “queimando” suas emoções de modo errado no seu interior, e isso não é nada bom.

Lembro-me de um filme a que assisti há muitos anos, chamado “Comboio”. O personagem principal era um caminhoneiro, interpretado por Kris Kristofferson, e cujo apelido era “Pato de Borracha”. Não me lembro de quase mais nada do filme, além de uma montoeira de caminhões, mas há um diálogo que nunca saiu da minha memória. Alguém pergunta a Duck o motivo do seu apelido e ele diz que é como um pato. Se olharmos um pato na lagoa, ele parece deslizar com enorme suavidade, quase parado, mas, embaixo da água, seus pés estão em movimento frenético. A metáfora ilustra que o equilíbrio é uma busca constante, que ninguém pode considerar que já atingiu o ponto em que a gangorra não vá mais oscilar.

Por baixo ou por cima da água, precisamos estar em contínuo movimento. É a pressão maior ou menor que fazemos em cada momento que permite que a brincadeira da gangorra tenha graça.

O símbolo da justiça também evoca o equilíbrio, e todos que trabalham com o Direito sabem que não é nada simples, em cada caso concreto, colocar os dois lados daquela balança em linha reta. Nossa humanidade parece não combinar muito com exatidões matemáticas.

Dentro de nós, o equilíbrio é uma busca diária e contínua, fazendo-nos oscilar entre muitos estados de ânimo, entre muitos erros e acertos. O escritor libanês Kahlil Gibran, em seu livro “O Profeta”, ao falar sobre a razão e a paixão, compara-as ao leme (razão) e às velas (paixão) da nossa alma navegadora. É preciso saber lidar com os dois elementos, pois o leme sem velas não leva a lugar algum, e as velas sem leme nos deixam completamente sem rumo. Essa me parece uma ilustração perfeita da nossa constante busca pelo equilíbrio, que jamais vai estar no mesmo ponto para todos, porque nossa alma e nossas circunstâncias são únicas. Não há receitas prontas para essa empreitada, embora haja muitas indicações valiosas.

Penso que podemos definir a pessoa equilibrada, então, como aquela que está constantemente buscando o equilíbrio. Quem não está nessa busca provavelmente se acomodou em algum dos extremos da balança, ou já se afundou de vez no mar.

Se muitas vezes nos sentimos incomodados e incompletos, apesar dos nossos esforços, é sinal de que estamos vivos, e nos movendo nesse mar imenso – e às vezes revolto – a que chamamos vida. Não parece legítimo o repouso sem incômodo, como também é insuportável o incômodo sem o repouso. Saber lidar com essas oscilações todas, sem perder o foco e sem desanimar, me parece ser a grande arte de viver.

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