Binho Mayer: conheça detalhes da vida e rotina do panfleteiro mais famoso de Brusque
Figura conhecida, o brusquense diz que o trabalho o mantém ativo e próximo da comunidade
Quem passa com frequência pelas ruas de Brusque já deve ter encontrado com Rubens Mayer, de 61 anos, mais conhecido como Binho. Carregando pilhas de panfletos nas mãos, ele é uma figura que, ao longo dos anos, se tornou parte da paisagem urbana da cidade.
Com a experiência de quem conhece Brusque a pé, Binho diz que o município é o melhor do Brasil. "Já conheci outros lugares, mas aqui é a cidade do meu coração, é a melhor do país”.
Binho, porém, não deixa de apontar as falhas da Brusque. A principal, segundo ele, é a falta de opções para lazer e convivência. “Brusque virou só casa e trabalho. Falta lugar pra juventude, pra quem quer sair, dançar, ouvir uma música. Falta lugar para a arte”.
Entre a rotina e a rua
O dia de Binho começa por volta das 8h30, quando ele sai da casa onde mora no Steffen para distribuir panfletos em alguns dos principais bairros de Brusque. “Tô onde o povo tá. Eu circulo, vou pra lá, pra cá, volto pra casa, almoço, descanso um pouco e volto pra rua. A gente tem que seguir o movimento das pessoas”.
Nos bairros mais afastados, ele diz que depende dos contratantes para se locomover e se alimentar. Apesar das dificuldades, ele não se queixa. Diz que trabalhar nas ruas é mais do que um meio de sustento, "é também uma forma de estar no mundo".
“O que eu gosto é de estar entre as pessoas. Converso, aprendo, conheço histórias. E todo dia é diferente. Fiz muitos amigos assim”, diz.
Uma vida de muitos trabalhos
Antes de se tornar panfleteiro, Binho teve muitas ocupações. Já vendeu livros, foi estampador, e também 'viveu como hippie'. “Ainda sou. Isso não sai do sangue. Ser hippie é ser contracultura, é representar um movimento que defende a paz, o amor livre, a liberdade pessoal, o respeito pela natureza e a igualdade”, afirma.
Ele se define como uma pessoa livre, que gosta de viver sem amarras. “Sou liberal, espontâneo. Falo o que penso. Se não gostar, paciência”.
Esse modo de se expressar, no entanto, já lhe causou problemas. “Tem gente que me olha torto. Já me chamaram de vagabundo na rua”. Mesmo assim, conta que muitas dessas mesmas pessoas acabam voltando para pedir o seu serviço.
“Aí eu cobro o preço justo e entrego direitinho. Quando me contratam, sabem que eu entrego os panfletos da maneira certa. Não sou igual a outros por aí que pegam o dinheiro e colocam os panfletos dos clientes em uma lixeira”.
Preconceito
Binho é crítico à forma como certos trabalhos, como o dele, são vistos socialmente. Ele compara sua profissão a outras consideradas simples, mas fundamentais para a cidade funcionar. “O varredor de rua, o catador de latinha. Sem eles, ia ser uma sujeira só. Mas o povo julga pelo que tu faz, não pela pessoa que tu é”.
Ele diz que o preconceito está por toda parte. “Tem loja que te trata mal só porque tu é panfleteiro. Aí chega alguém engravatado e eles mudam na hora. Eu não guardo mágoa. Só sigo o meu caminho como sempre fiz. Quem me conhece sabe o quanto eu trabalho. Não preciso provar nada para ninguém”.
Carinho pela família
Binho vive sozinho. Os dois filhos, já adultos, seguiram caminhos diferentes. Um mora sozinho e o outro vive com a mãe. Apesar da distância, ele fala dos dois com orgulho. “São meus amores. São homens criados, trabalhadores, independentes. Isso me dá uma alegria enorme. Eu choro fácil quando falo deles, pois são tudo para mim”, diz, com lágrimas nos olhos.
Sobre relacionamentos amorosos, ele é direto. “Hoje meu amor são meus filhos, meus amigos e minhas amigas. Estou solteiro e feliz. Quem procura, sempre acha, mas não estou focado nisso no momento”.
Com problemas de pressão e no nervo ciático, ele toma remédios e evita bebidas fortes. “Antes gostava mais de destilado, um vinho, um gin. Mas hoje é só a cervejinha, de preferência, a mais barata”, diz, rindo.
Ele já ouviu de médicos que poderia precisar de cirurgia, mas prefere seguir com cuidados paliativos. “Me disseram que se operar, posso correr o risco de não andar mais. Então é melhor ir levando”.
Apesar das dificuldades, Binho fala com orgulho do que faz. “Sou apaixonado pelo meu trabalho. Já entreguei panfleto em quase toda a cidade. Conheci quase toda Brusque caminhando”.
Ele vê o próprio serviço como uma forma de se manter ativo, útil e conectado com a comunidade.
Por fim, diz acreditar que seu trabalho o aproxima da realidade. “Vejo mais coisa que muito político ou padre. 'Tô ali', direto com o povo, vendo o dia a dia, ouvindo o que ninguém escuta e dando atenção para todos. Eu ajudo as pessoas e elas me ajudam. Fico feliz quando alguém me reconhece ou pergunta sobre mim. Ser lembrado não tem preço".
E conclui: “aprendi durante toda essa minha trajetória que cada pessoa tem algo pra ensinar. E eu ainda quero aprender muito. Enquanto eu puder caminhar por essas ruas, vou seguir aprendendo e entregando, como sempre fiz”.
Assista agora mesmo!
Como surgiu e o que restou da primeira usina elétrica da região, criada em 1913 em Guabiruba:
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