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O diário radical de André Gohr, cortando os Estados Unidos de bicicleta em competição

Ciclista brusquense relata experiências na Race Across America, que venceu com a equipe Econew Brasil

"Se um dia eu fizer isso aí, eu tô ficando doido", dizia o ciclista André Gohr sobre a Race Across America (RAAM), corrida que corta os Estados Unidos desde a costa oeste à costa leste.

Contudo, em 20 de junho, o brusquense de 29 anos não só estava finalizando a prova, como a estava vencendo na categoria de quartetos 18-49 anos. Acabava de enfrentar desertos, calor, frio, vento, chuvas, montanhas, rodovias, avenidas e ruas, cercado dos mais diferentes tipos de paisagens, ao longo de 4.937,79 quilômetros.



"São praticamente seis dias pedalando sem parar. A gente dorme pouco, come quando dá. Começa atravessando o deserto com 50°C, para chegar no quarto dia pedalando com 5°C", resume.

A prova passa por 13 estados: Califórnia, Arizona, Utah, Colorado, Kansas, Missouri, Illinois, Indiana, Ohio, West Virginia, Maryland, Pensilvânia e Nova Jersey. A equipe terminou o trajeto em cinco dias, 22 horas e oito minutos, saindo de Oceanside, na Califórnia, e chegando a Atlantic City, em Nova Jersey.

Convite inesperado


As especialidades de André Gohr são as provas de estrada e de contrarrelógio, totalmente diferentes do ultraciclismo. "Precisei pensar um pouco, porque não tinha essa prova no meu calendário. Eu tinha que alinhar meus compromissos aqui também. Mas consegui e aceitei o convite."

O convite foi feito após a saída de um dos integrantes do quarteto da Econew Brasil. A equipe, campeã também das edições de 2023 e 2024, precisava de um quarto integrante e viu no brusquense uma oportunidade de ficar completa. André Gohr, Tales Camargo, Ciro Damiani e Leonardo Simões Zica treinaram nos 10 dias anteriores à largada em Boulder, no Colorado.

"Boulder é uma Meca do triatlo e do ciclismo do mundo. O pessoal vai para lá para treinar. Foi bem bacana e ali a gente já viu que o grupo se acertou."

Foto: Rômulo Cruz/Econew Brasil

Estratégia no revezamento


Nas provas por equipes da RAAM, é necessário criar estratégias de revezamento. No caso da Econew Brasil, havia uma estratégia padrão. André Gohr e Leonardo Simões Zica se revezavam entre o meio-dia e a meia-noite. Da meia-noite ao meio-dia, os pedais ficavam por conta de Tales Camargo e Ciro Damiani. A ideia era cada um cumprir uma meta de distância percorrida.

Um motorhome acompanha o trajeto com membros da equipe, o staff. Enquanto um ciclista pedala, o outro vai descansando. No momento da troca, o motorhome ultrapassa quem está pedalando, e precisa parar num local apropriado para que não haja punições. O ciclista que estava descansando desce e se prepara para largar, aguardando ser ultrapassado pelo colega que vai terminar o turno.

"Tinha dia que a gente conseguia adiantar, entregava [o percurso ao colega] uma hora antes, tinha dia que, às vezes, atrasava um pouquinho. Porque às vezes pegava um vento contra. Teve dia que a gente pegou 500 km com vento contra. No dia seguinte, 400 km com vento a favor. Teve dia que choveu. As intempéries também vão influenciando."

Intermináveis retas no deserto | Foto: Rômulo Cruz/Econew Brasil

Tempos e regras

A estratégia só mudou de fato na parte final, com o aumento da intensidade para tentar finalizar a RAAM em menos de seis dias. Conforme as informações recebidas por André, a Econew Brasil terminou em cinco dias, 22 horas e oito minutos, mas teria recebido uma punição de tempo porque um motorhome da equipe teria parado em local proibido.

Ao longo de todo o trajeto, é necessário obedecer todas as regras de trânsito, incluindo obedecer às placas de "pare" e não furar nenhum sinal vermelho.


O cumprimento é verificado por fiscais da prova à paisana e por monitoramento de GPS. Ao longo do trajeto, os participantes param e registram seus tempos nas chamadas Time Stations. São 53 espalhadas nos 13 estados percorridos pelos ciclistas.

Primeiros dois dias de prova eram de calor intenso no Oeste dos EUA | Foto; Rômulo Cruz/Econew Brasil

Calor, frio e tornados

Deserto


A equipe saiu da Califórnia e entrou no deserto de Anza-Borrego, enfrentando temperaturas de 50°C, 20% de umidade relativa do ar e, em determinado ponto, o solo está 47 metros abaixo do nível do mar. "Uma paisagem de reta infinita de um lado e, do outro, só aquela vegetação rasteira", descreve. No segundo dia, foi a vez de passar pelo Arizona, um estado também com bioma desértico.

O início trouxe o primeiro choque a André Gohr na prova. O brusquense relata nunca ter pedalado sob temperaturas tão altas. "No primeiro dia, a gente rodou quase 900 km, faltavam 4 mil. Você vai acompanhando no mapa os dois primeiros dias, e parece que não vai chegar nunca."

Uma de suas experiências preferidas foi mesmo no deserto, passando pelo Monument Valley. É uma região na reserva do povo originário Navajo, que engloba Arizona, Colorado, Novo México e Utah. "Foi surreal, o final de tarde, o sol se pondo. Passei pedalando por este trecho e é um lugar com energia surreal. Aquelas retas infinitas, e aquelas esculturas de pedra, só você e um carro acompanhando atrás."

O pôr do sol no Monument Valley | Rômulo Cruz/Econew Brasil

Montanha

O lugar mais bonito da corrida, contudo, estava no Colorado, ao longo do terceiro dia. "É o lugar mais bonito de toda de toda a travessia. As montanhas, o verde. A gente saiu do deserto, e começa a ver o verde. Começa a esfriar. Também foi o lugar mais alto também pelo qual a gente passou: o Cuchara Pass, com 3 mil metros de altitude. Eram 6°C ou 7°C meio-dia."

Foi um alívio após os dias no deserto. "Parece que o negócio vai muito mais fácil, porque a temperatura já é mais amena, é mais úmido, o próprio visual é mais legal, é mais verde, mais bonito. Fica um negócio mais leve."

Gohr no Cuchara Pass | Foto: Arquivo pessoal

Tornados no Kansas

O trajeto da RAAM inclui o estado do Kansas, que passa por uma temporada de tornados. A organização avisa e deixa as equipes em alerta sobre os riscos. A responsabilidade é do time: decidir ou não parar.

"No quarto dia, a gente tava atravessando o Kansas. Era muito vento, muito, muito vento. E no horizonte, a gente via um tornado querendo começar a se formar. Chegavam alertas climáticos pelo celular. É uma formação de nuvem que eu nunca tinha visto."

Foi um dilema para a Econew Brasil. A equipe estava na frente dos adversários da Eide Mental Salmon, e parar poderia recolocá-los na disputa. Por outro lado, havia um consenso de não passar por riscos desnecessários.

"Passamos por uma cidade que era um ponto decisivo. Se passasse dela, teríamos que chegar até a próxima. Não havia alertas naquele momento. Ainda dava para tocar, e tocamos. Os outros participantes, que estavam atrás, já tiveram que parar. Deste ponto em diante, começamos a focar em terminar em menos de 6 dias."

Foto: Rômulo Cruz/Econew Brasil

Finalizando


O quinto dia, em West Virginia, era dificultado pelas subidas e pela chuva. André Gohr assumiu mais riscos, pegando trechos de descida, à noite e na chuva, atingindo de 70 a 80 km/h. Um dos riscos era o de se chocar com animais silvestres, de diversas espécies, que tentavam atravessar as estradas em diversos trechos.

Mas esta nem foi a velocidade mais alta atingida pelo brusquense, que relata ter atingido 98 km/h ainda no Arizona. Ainda assim, principalmente nas regiões mais altas, a visibilidade era prejudicada pela neblina. As luzes do veículo que segue o ciclista são uma forma de mitigar o problema.

A parte final teve uma estratégia diferente. O quarteto fez o encontro entre os dois motorhomes e o revezamento era com força máxima.

"Já foi totalmente no automático. Quando vai chegando no final, você quer terminar logo, mas não pode se afobar para terminar, porque se fizer muita força num lugar errado, você quebra e não chega mais. Este gerenciamento de força numa competição de 5 mil km foi uma experiência bem bacana para eu me conhecer como atleta."

Foto: Rômulo Cruz/Econew Brasil

Equipe de apoio


Gohr destaca o trabalho do staff, que formou uma equipe de apoio com trabalho constante em prol dos ciclistas. A Econew Brasil foi a única, por exemplo, a conseguir fazer paradas em hotéis e pousadas, para não dormir apenas no motorhome.

"Tínhamos dois motorhomes, um para cada dupla, com três staffs administrando. Os caras ficaram cuidando de bike, limpando o motor home, dando jeito de lavar nossas roupas. Chegaram a virar três dias só com sonecas."

Efeitos no corpo


Os problemas não eram as longas distâncias percorridas. "O cansaço físico em si, para mim, foi o mais tranquilo. Eu pedalava de sete a oito horas todos os dias, 250, 260 quilômetros. Mas eu sou acostumado a fazer isso."

Sono


As principais dificuldades estavam na privação do sono. Dormindo três ou duas horas por dia, Gohr sentia o corpo dar sinais de que não estava no modo normal.

"Quando conseguia parar em hotel, era tomar um banho decente, deitar na cama e dormir duas horas. Dava para acordar, era difícil dormir. Porque você entra no automático, já está no embalo. E o corpo não entende quando é a hora de parar. Às vezes se apagava por 15 minutos no motorhome, mas já despertava. Até agora não voltei a dormir normal. Rotina, horário de refeição, sono, tá tudo meio bagunçado", relatou o brusquense, em entrevista na quinta-feira, 26.

Tempo no motorhome era para descanso | Foto: Rômulo Cruz/Econew Brasil

Alimentação


Todos os cuidados com alimentação ao longo da carreira sofreram um baque para sobreviver pedalando em um país que tem acesso dificultado à comida natural e saudável como os Estados Unidos. Para além dos trechos com opções escassas, havia uma corrida sendo disputada.

"Foi um negócio bem diferente. Acho que eu nunca tinha passado uma semana pedalando e comendo tanta porcaria. Como são muitas horas de pedal, é ingerir caloria. E também é aquela coisa, uma alimentação saudável não te dá tanta caloria. Então, tem que apelar para a porcaria. Era lanche, era donut, era pizza, era burrito, era refrigerante."

"Às vezes havia trechos com duas, três horas, sem passar por uma cidade. Quando chegávamos em uma, o que tinha de acesso rápido? McDonald's, né?"

A alimentação era baseada em lanches e fast food | Foto: Arquivo pessoal

Autoconhecimento e equipe


Gohr considerou a experiência na RAAM um sucesso, tanto pelo resultado esportivo quanto pelo que adquiriu para a sequência de sua carreira.

"Tem muito de entender que às vezes você consegue bem mais do que acha que consegue. E justamente eu topei o desafio também por isso. (...) É legal ver que eu consigo desempenhar, mesmo não tendo toda a condição perfeita e necessária."

O brusquense evita descartar um retorno à RAAM, mas, passado pouco tempo da experiência, tem dúvidas. Ainda assim, a aventura que já foi tratada com "se eu fizer, estou ficando doido", já se tornou "coisa de uma só vez na vida". Repetir a dose é improvável hoje, mas pode estar no horizonte de possibilidades.

"Não sei se vou de novo. Fui pela oportunidade de atravessar os Estados Unidos de bicicleta. E assim, no fim de tudo eu sou apaixonado por andar de bike. E acho que poucas pessoas do mundo fizeram isso, tiveram essa oportunidade."

A equipe será uma das memórias mais importantes, com todos os objetivos conquistados. "Acabei indo com a ideia de fazer isso de uma vez só na vida, e fazer para dar certo. E deu certo."

Foto: Econew Brasil/Divulgação



"O grupo que se formou saiu mais amigo do que quando começou a prova. Então isso é o mais importante, a galera é muito massa. Porque é tenso, é um negócio que vai ficando muito sensível. todo mundo vai ficando cansado, todo mundo vai ficando com sono, todo mundo vai ficando estressado, todo mundo quer chegar. E foi muito suave, a gente não teve estresse nenhum. Foi uma galera muito massa."

A Econew Brasil preparando a largada | Foto: Rômulo Cruz/Econew Brasil

Próximos desafios


Os principais eventos no calendário de Gohr neste final de semana são o Mundial de Ciclismo Gravel (cascalho), que será disputado na Holanda em 11 e 12 de outubro; e os Jogos Abertos de Santa Catarina, em novembro. Outros pontos importantes da agenda são o Campeonato Brasileiro e a Volta de Brusque.

"Estou baseado aqui em Brusque. Desde o ano passado eu estou viajando bastante. Consigo ficar duas, três semanas em casa, e geralmente fico duas, três semanas, um mês viajando. Mas quando posso, estou em casa, estou em Brusque. Gosto daqui para treinar, tenho minha família, tudo aqui. Viajo já querendo voltar. Já viajei muito e até hoje não encontrei nenhum lugar que me desse vontade de morar", explica.

"Agradeço à Econew Brasil pela oportunidade. E também à Prefeitura de Brusque, através da Fundação Municipal de Espotes (FME) por ter o bolsa-atleta. Querendo ou não, em todas as competições que vou, levo o nome de Brusque. Algo que sempre frisei, que tenho muito orgulho de ser brusquense e levar o nome da cidade", completa.

Novos troféus para a galeria do brusquense | Foto: André Gohr/Arquivo pessoal
Novos troféus para a galeria do brusquense | Foto: André Gohr/Arquivo pessoal

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Como surgiu e o que restou da primeira usina elétrica da região, criada em 1913 em Guabiruba:


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