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Pioneira, Apae de Brusque celebra 70 anos de dedicação ao desenvolvimento de pessoas com deficiência

Instituição realiza cerca de 50 mil atendimentos por ano

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Brusque celebra 70 anos de fundação de uma história marcada pelo pioneirismo. A instituição foi a segunda do Brasil e a primeira instalada em Santa Catarina, em 1955.

A iniciativa foi capitaneada por Carlos Moritz, que foi prefeito de Brusque, e pela esposa Ruth de Sá Moritz. Em busca de um melhor atendimento ao filho Pierre, que hoje tem 80 anos, o casal mobilizou forças e fundou a Apae na cidade, dando início à uma trajetória que rendeu muitos frutos para a comunidade brusquense.

Hoje, são mais de 200 Apaes em Santa Catarina, com mais de 25 mil usuários devidamente matriculados. Mas tudo iniciou em Brusque.

Sede da Apae de Brusque fica no Jardim Maluche | Foto: Bruno da Silva/O Município

O início da história


A primeira Apae do Brasil foi fundada no Rio de Janeiro. E foi lá onde o casal Moritz buscou informações e referências para implementar a instituição em Brusque.

“Somos em sete irmãos e eu sou a mais nova. O Pierre é o segundo. Meus pais começaram a ver as dificuldades dele, que até frequentou um período o ensino regular, no Feliciano Pires, tinha os seus amigos, mas não era (a atenção) adequada”, conta Maria Teresa Moritz Montibeller, filha de Carlos e Ruth e atual vice-presidente da Apae de Brusque.

Pierre nasceu com anóxia de parto, o que causou falta de oxigênio no cérebro, prejudicando algumas funções.

Os pais viram a necessidade de ele possuir um ambiente adequado às suas especificidades e, junto com amigos, da igreja e de outras entidades, se mobilizaram para criar a Apae.

“Meu pai e minha mãe encabeçaram, mas a cidade se mobilizou para isso. Minha mãe é do Rio, conhecia algumas pessoas para procurar, e assim começou”, relata Maria Teresa.

Em reunião realizada na própria residência da família Moritz, no dia 14 de setembro de 1955, com a participação de membros da comunidade, como Oscar Gustavo Krieger, Cyro Gevaerd, Bruno Moritz, Ayres Gevaerd e Bruno Maluche, foi fundada a Apae de Brusque.

“Como eles tinham muitos contatos – meu pai foi prefeito –, eles conseguiram conversar com pessoas também da capital. Uma professora de Florianópolis chegou a morar na nossa casa enquanto trabalhava na Apae para conseguir dar suporte. A diretoria Edite também foi muito importante e ainda as mães, que sempre se engajaram”.

Casal Carlos e Ruth Moritz viajou ao Rio de Janeiro para conhecer a primeira Apae e trazer iniciativa para Brusque | Foto: Apae/Arquivo

A primeira diretoria provisória da instituição tinha como presidente o próprio Carlos Moritz. A Apae em Brusque foi criada apenas nove meses após a criação da associação do Rio de Janeiro.

“Sempre digo que a Apae, independente dos meus pais, iria ser fundada um dia. Mas eles viram essa necessidade e tiveram a disponibilidade, tudo conspirou a favor. Em função da procura deles e pela facilidade que eles tinham de acesso”.

O presidente da Apae de Brusque, Renato Roda, faz questão de destacar que a instituição deve muito à família Moritz. “Eles lideraram pelo engajamento e também pelo exemplo. Depois deles, vieram muitos outros voluntários que trouxeram a Apae ao que ela é hoje, com um belo patrimônio”.

As atividades da unidade iniciaram com sete alunos, em diversos locais cedidos pela comunidade, até que em 20 de março de 1961, passou para o prédio próprio da instituição, que fica na avenida Augusto Bauer, no bairro Jardim Maluche, que serve até hoje como sede da Apae.

“Esse terreno era uma plantação de cana e foi doado pela família Maluche para construir a Apae”, lembra Maria Teresa.

Instituição passou a funcionar no terreno atual em 1961 | Foto: Apae/Arquivo

Trabalho a muitas mãos


Pierre, hoje aos 80 anos, é um exemplo do sucesso do trabalho da Apae de Brusque. A irmã conta que a instituição é a segunda casa dele.

“Meu irmão frequenta desde os 10 anos e, em 2025, completou 80. A Apae é o segundo lar dele. Ele nunca foi uma criança excluída também pela família, conhece muita gente. Ele conseguiu se integrar, mesmo com a deficiência, pelos estímulos que recebeu aqui”, diz.

Pierre completou 80 anos em 2025 | Foto: Apae/Divulgação

Maria Teresa também dedicou e ainda dedica muito do seu tempo à instituição. Desde pequena, ela se envolveu com a Apae, acompanhando a mãe.

“Eu sou a irmã mais nova e a única que continuou morando aqui depois de casada. Quando pequena, vinha junto com a minha mãe e aprendi os movimentos para ajudar meu irmão a fazer em casa”, conta.

Painel de Carlos Moritz, Pierre e Ruth de Sá Moritz | Foto: Apae/Divulgação

Quando adulta, ela costumava trazer a mãe, que faleceu em 2010, para a Apae e depois buscava. Mas, ao longo do tempo, começou a se envolver ainda mais.

“Eu passei a vir e ficar. Depois que a minha mãe e outras que se engajaram passaram a ficar com mais idade, foram surgindo pessoas novas. E eu fui uma delas”.

Maria Teresa é filha dos fundadores da Apae Brusque | Foto: Bruno da Silva/O Município

Além de vice-presidente, ela também é membro do Clube de Mães, um braço essencial para o funcionamento da Apae. São quase 30 mulheres que se reúnem todas as segundas e terças-feiras. Atualmente, apenas três delas são mães de usuários – o restante são voluntárias.

“Surgiu com as mães dos educandos, mas hoje o perfil mudou. Nós costuramos e bordamos para vender, fazemos bingo com café colonial, com bazar. Graças a Deus, nossas vendas vão muito bem. Tudo que é arrecadado é para beneficiar os alunos. Conseguimos medicação e transporte para alunos que não têm condições, por exemplo, recursos para passeio, alimentação. O clube trabalha para eles”.

Clube de Mães é braço essencial para o funcionamento da Apae Brusque | Foto: Apae/Divulgação

Presidente da Apae, Renato Roda destaca a importância do trabalho do Clube de Mães para o funcionamento da organização. “O clube é muito forte aqui na Apae, faz um trabalho importantíssimo de suporte à diretoria, direcionando todos os valores ao atendimento aos alunos”, explica.

O dia a dia da Apae


Atual presidente da Apae, Renato se envolveu com a instituição após convite do ex-presidente Sebastião Ernani Poia, que é uma figura muito relevante para a instituição.

“Somos vizinhos de comércio e de residência e ele me convidava para me voluntariar em eventos. Quando assumiu a presidência, ele pediu para que eu me aproximasse ainda mais e eu entrei na diretoria há 12 anos. Encerro meu mandato neste ano, mas vou continuar em outra função. Depois que você conhece o trabalho e o esforço dos profissionais e voluntários, você se envolve e não se afasta mais”.

Renato Roda é o atual presidente da Apae Brusque | Foto: Bruno da Silva/O Município

Renato é um dos exemplos de dedicação entre as dezenas de voluntários da Apae de Brusque, que dedicam seu tempo em busca de uma comunidade mais inclusiva.

“Temos que tirar o chapéu para funcionários e voluntários. A diretoria, que também é voluntária, tem a função principal de angariar recursos e este é um trabalho incessante. Financiamento da fundação catarinense para pagamento dos professores, convênio com a secretaria de Saúde, o município é um parceiro importante. Todos os recursos arrecadados para manutenção são buscados com os eventos que promovemos, rifa, festa, corrida, pedágios. Estamos também sempre batendo na porta dos empresários. E isso não para. O planejamento é bastante rígido para que não falte recurso para o funcionamento da Apae”, relata.

“O que faz uma Apae ter resultado é a união de forças. Poder público, entidades, redes sociais, imprensa, além do nosso esforço, é o motivo do sucesso”, completa.

A Apae está instalada em um terreno de 18,5 mil metros quadrados, sendo 5 mil m² de área construída. São 85 funcionários e um investimento mensal de R$ 500 mil. “É um valor significativo, que só é possível ser arrecadado com muito empenho”, destaca o diretor.

Em termos de atendimento, a Apae possui a clínica Uni Duni Tê, no bloco A, que faz o acompanhamento médico, o Instituto Santa Inês, que é o trabalho dos jovens, e o Centro de Convivência para os maiores de 18 anos.

“O trabalho é feito, principalmente, para tornar as pessoas independentes. O plano de trabalho é alinhado para a necessidade de cada um, juntamente com as famílias”. Segundo Renato, nos últimos anos, cresceu muito o número de usuários com autismo – na Apae, são atendidos aqueles que têm o grau 3.

Nesse contexto de independência, Renato destaca o programa voltado à inserção no mercado de trabalho. “São jovens que têm certo grau de deficiência, mas são capacitados para o trabalho. Essa inclusão é o máximo que a gente pode fazer”.

Um dos diferenciais da Apae é um equipamento chamado PediaSuit, uma gaiola de habilidades que atua na reabilitação motora e que foi cedido em comodato pela Federação das Apaes de Santa Catarina, com resultados extraordinários. “Várias crianças que não andavam, chegaram aqui em cadeira de rodas, e, após o protocolo de um mês, saíram andando. Aqui em Brusque, só está disponível em dois lugares, mas aqui é o único gratuito. Além da gaiola, temos a roupa especial, os profissionais têm que fazer um curso em Porto Alegre para se especializar. Exige um conhecimento profundo para garantir os resultados”.

PediaSuit é uma tecnologia inovadora que atua na reabilitação motora | Foto: Bruno da Silva/O Município

A Apae de Brusque dispõe de uma equipe multidisciplinar, com pedagogos, fonoaudiólogos, fisioterapeuta, psicólogo, assistente social, médicos que regularmente fazem o programa de acompanhamento e avaliações. São cerca de 50 mil atendimentos realizados anualmente.

“Quem não conhece, não consegue avaliar o que é feito dentro de uma Apae. Cada usuário tem uma rotina específica. Desde o atendimento na clínica, quando chega bebê, de 0 a 3 anos. Todas as crianças que nos procuram são atendidas. Todos esses profissionais trabalham com um planejamento individual para cada usuário. Cada deficiência é diferente da outra. Também há o contraturno escolar, onde os educandos têm atividades lúdicas, como trabalho no tear, academia, artes”, detalha.

Na visão de Renato, a grande maioria dos profissionais que trabalham na Apae criam uma relação que vai além do trabalho.

“Para trabalhar aqui, além de ser profissional, tem que ter uma aptidão, um algo a mais. E quem trabalhou na Apae, tem serviço garantido. Em algumas áreas, como fonoaudiólogos, temos muita dificuldade para conseguir, pelas limitações financeiras. Alguns, mesmo com outros empregos, dedicam uma parte de sua agenda para a Apae pelo amor que tem pela instituição, mesmo recebendo muito mais em outro local”.


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