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Raridade sagrada: conheça o item de uso pessoal do papa Pio XII que está exposto em museu de Brusque

Peça foi presenteada a um filho do cônsul Carlos Renaux meses antes da morte do pontífice

Em 1º de julho de 1958, o brusquense Guilherme Renaux viveu um momento singular: foi recebido em audiência particular pelo papa Pio XII no Vaticano e recebeu das mãos do pontífice um solidéu de uso pessoal, peça que, por ter sido utilizada por um papa, pode ser considerada altamente rara e sagrada, principalmente pelos católicos.

Na ocasião, Renaux representava o Brasil em compromissos internacionais na Suíça e na Itália, ligados à Organização Internacional do Trabalho (OIT) e ao Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), sendo indicado pelo Conselho da Confederação Nacional da Indústria e com nome aprovado pelo então presidente Juscelino Kubitschek.

Durante a audiência, Renaux recebeu a bênção papal "em nome dos trabalhadores do Brasil, com menção especial aos operários de Brusque". A peça foi presenteada 100 dias antes da morte do pontífice, em 9 de outubro daquele ano.

A autenticidade do solidéu branco é comprovada por um bilhete da Anticâmara Pontifícia do Vaticano, que afirma: "o solidéu branco que é entregue com este bilhete foi usado por Sua Santidade PIO XII, felizmente reinante". O bilhete está exposto ao lado do objeto.

O documento é assinado pelo Monsenhor Mario Nasalli Rocca di Corneliano, que na época era camerlengo do papa, cargo responsável por administrar os bens e assuntos temporários do Vaticano.

Guilherme (de óculos) ao lado do papa durante a visita em 1958 | Acervo Museu Arquidiocesano Dom Joaquim

O solidéu, pequeno chapéu redondo usado por papas e bispos durante cerimônias religiosas, era de uso pessoal do papa Pio XII e simboliza respeito e autoridade dentro da Igreja Católica.

Hoje, a peça está preservada no Museu Arquidiocesano Dom Joaquim, em Azambuja, aberto de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30 às 18h. A entrada custa R$ 10, com meia a R$ 5.

Otávio Timm/O Município

Quem foi Guilherme Renaux


Falecido em 13 de março de 1981, aos 85 anos, Guilherme Renaux foi uma das figuras mais influentes da indústria e da vida social de Brusque no século 20.

Filho do cônsul Carlos Renaux, fundador da Fábrica de Tecidos Carlos Renaux S/A, ingressou na empresa em 1927 após estudos no Brasil, Suíça e Estados Unidos, onde se especializou em agronomia e contribuiu para o avanço da cultura do algodão no país.

Dirigiu a Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, presidiu por três décadas a Empresa Força e Luz de Santa Catarina S/A e teve papel decisivo no Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem de Brusque e Itajaí.

Na Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), foi presidente entre 1960 e 1964, deixando como legado o Centro Social do Sesi em Brusque.

Além da atuação empresarial, fundou a Associação Rural de Brusque e foi ativo em projetos religiosos, culturais e sociais, incluindo a construção da Igreja Matriz (católica) e apoio a instituições locais.

Guilherme Renaux | Foto: Fiesc/Divulgação

Pontificado discutido


O papa Pio XII (Eugenio Pacelli), que governou a Igreja Católica de 1939 a 1958, manteve contato com o Brasil, concedendo bênçãos a representantes do país e apoiando bispados e instituições religiosas.

Seu pontificado, marcado pela Segunda Guerra Mundial e pelo Holocausto, reforçou, segundo alguns especialistas, a presença da Igreja Católica e práticas devocionais no país.

No entanto, sua atuação durante a guerra é alvo de debates. Uma carta descoberta recentemente no Vaticano, datada de 14 de dezembro de 1942, escrita pelo padre Lother Koenig, jesuíta da resistência antinazista, foi dirigida ao secretário pessoal do papa, padre Robert Leiber.

O documento relatava assassinatos em Belzec, Auschwitz e Dachau, incluindo cerca de 6 mil mortes por dia em Belzec, mostrando que o Vaticano tinha conhecimento detalhado dos crimes.

Seus apoiadores dizem que Pio XII atuou discretamente para proteger judeus e católicos; críticos afirmam que lhe faltou coragem para divulgar as informações.

Por esses motivos, Pio XII não foi beatificado, mas foi declarado Venerável em 2009 pelo papa Bento XVI, reconhecimento de suas virtudes heróicas. O processo de beatificação permanece parado, aguardando a comprovação de um milagre.

Papa Pio XII | Foto: Domínio Público

"Conexão indireta" com Brusque


Dentro desse contexto e um ano após o fim da Segunda Guerra, o papa nomeou Dom Jaime de Barros Câmara cardeal em 1946, reconhecendo seu trabalho pastoral e a relevância de sua atuação em Brusque e no Brasil.

Dom Jaime havia sido reitor do Seminário Nossa Senhora de Lourdes, dedicando-se intensamente à formação de seminaristas e à consolidação da instituição, o que tornou o Seminário referência na região.

Foto do papa: Domínio Público/Arquivo Nacional | Foto do Dom Jaime: Brusque Memória

Museu das relíquias


O Museu Arquidiocesano Dom Joaquim, onde o solidéu está em exposição, ocupa um prédio histórico de 1907 que inicialmente abrigou o Hospital de Azambuja e, depois, o Seminário Menor Metropolitano Nossa Senhora de Lourdes.

O espaço tornou-se museu oficialmente em 1960, durante as comemorações do centenário de Brusque, reunindo um acervo que hoje ultrapassa milhares de peças.

Sua origem remonta a 1933, quando uma pequena coleção foi doada por Joca Brandão, em troca da gratuidade dos estudos de um de seus filhos no seminário.

Sob a liderança do padre Raulino Reitz, o museu tornou-se referência na preservação cultural do Vale do Itajaí e foi o primeiro de sua especificidade museológica no sul do Brasil, reconhecido pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM).

Bruno da Silva/O Município

Revista que eterniza histórias


A memória de Guilherme Renaux, e da visita que ele fez ao papa, foi preservada pela revista Notícias de Vicente Só – Brusque: Ontem e Hoje, criada em 1977 por Ayres Gevaerd e mantida pela Sociedade Amigos de Brusque (SAB). A edição de número 26, do ano sete da revista, foi utilizada como fonte de pesquisa para essa reportagem.

Impressa inicialmente em tipografia de chumbo, a publicação reunia artigos de pesquisadores e colaboradores para registrar a história de Brusque e dos municípios que dela se originaram.

De acordo com o pesquisador Saulo Adami, a revista começou como trimestral, depois tornou-se quadrimestral, em seguida semestral e, mais tarde, anual, chegando a transformar-se em anuário.

“Mesmo sem recursos governamentais, apenas com a colaboração da comunidade,  empresários, industriais, o povo enfim, seu Ayres conseguia imprimir vários números durante um mesmo ano”, relembra.

Para ele, a credibilidade de Gevaerd foi decisiva: “ele era determinado e organizado, e a sua honestidade era garantia de que os investimentos que recebia seriam empregados conforme o combinado”.

Ayres Gevaerd | Foto: Museu Casa de Brusque

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