O brusquense Fernando Boettger teve sua história perdida com o tempo, sem escritos fidedignos como possuem alguns de seus contemporâneos, também integrantes da chamada “alta sociedade” do município.

Pouco se sabe de sua vida ou de sua carreira, e há inclusive uma confusão histórica sobre se o pioneiro se chamava Georg ou Fernando. Na história repassada à sua neta, Mônica Tietzmann, é possível remontar um pouco a trajetória daquele que teve invenções marcantes, como o fortificante Sadol e os medicamentos Melagrião e Bálsamo Branco.

Aos 67 anos, Mônica Tietzmann guarda as memórias que recebeu de sua mãe e, ao contrário do que raras lembranças populares apontam, afirma que foi Fernando Boettger o pioneiro em farmácia de Brusque, não Georg Boettger. Georg foi tio de Mônica, que viveu de 3 de dezembro de 1923 até 13 de outubro de 1954, quando cometeu suicídio, em Joinville. Ele também foi um farmacêutico.

Conforme relata Mônica, seu avô pioneiro, Fernando Boettger, nasceu em Brusque, em 15 de setembro de 1875, quando o município ainda era a Colônia Itajahy, e morreu em 23 de setembro de 1947, também em Brusque. Teve dois filhos: Liedelott e Georg Paulo Boettger. “Meu avô fazia os remédios, tinha seu laboratório em Brusque. Ele vendia os remédios para o Laboratório Catarinense, em Joinville. O negócio foi muito bem.”

Laboratório foi vendido para a empresa que hoje é a Catarinense Pharma, em Joinville | Foto: Patrícia Barberis/Arquivo pessoal

O site do Laboratório Catarinense, chamado atualmente de Catarinense Pharma, exibe uma linha do tempo sem exatidão, mas cita que por volta de 1945 a empresa adquiriu “renomados laboratórios de Brusque, Itajaí, Blumenau e Joinville.”

“Foi minha vó quem vendeu o laboratório, com meu avô já falecido. Minha avó não sabia o que fazer com a empresa e a vendeu”, explica Mônica, que não acredita que o fato de Georg ter morado em Joinville tivesse algo a ver com a venda do laboratório. “Georg Boettger, sim, chegou a morar um tempo também na Alemanha.”

Em 17 de março de 2003, o Diário Comércio, Indústria e Serviços (DCI) publica matéria explicando:

“Na época, o fundador Alberto Bornschein tinha uma rede de farmácias denominada Drogaria Catarinense, formada hoje por 70 lojas. Diante disso, Bornschein enxergou uma oportunidade de negócios e adquiriram diversas empresas entre eles os laboratórios Fernando Boettger, de Brusque, Santa Catarina, responsável por criar o Agriomel, em 1918, que mais tarde denominou-se Melagrião. O xarope é composto de agrião, guaco, acônito, bálsamo de tolu, ipecuanha e polígala.” O Sadol, por sua vez, foi criado em 1924 por Fernando Boettger.

O historiador Paulo Kons resgata trecho do livro Recordando o Passado, da professora Dinorah Krieger Gonçalves, sobre a vida de Gertrudes Régis Krieger, nascida em 17 de novembro de 1905 e falecida em 2 de novembro de 2002.

“No laboratório trabalhavam várias moças, com as quais Gertrudes fez amizade. Elas, primeiro, dissolviam a gelatina para a fabricação das cápsulas que serviam de invólucro para os remédios fabricados pelo Laboratório. Colocavam a gelatina já dissolvida em pequenas formas. Depois de fria e seca, despejavam o conteúdo, isto é, o medicamento, preparado pelo farmacêutico. Fechavam as cápsulas, embalavam em vidros e rotulavam os remédios. Gertrudes adorava o ambiente do laboratório. Nos intervalos do trabalho, as moças conversavam e riam, faziam o lanche trazido de casa ou preparado ali mesmo, principalmente os bolinhos cozidos no mesmo fogão a lenha onde dissolviam a gelatina.”

Consta também no livro que “o patrão, Sr. Boettger, era o farmacêutico responsável e proprietário, sempre muito gentil com as funcionárias. Era casado com Dona Paula Mayerle Boettger, uma senhora muito requintada. O Laboratório também ficava próximo à alfaiataria da família Krieger”.

O livro explica que Gertrudes precisou deixar o emprego que tanto amava porque iria se casar, e preparar todo um enxoval feito à mão. “Ela gostava muito de seu trabalho. Tinha consciência da importância do Laboratório Boettger, para a cidade. Contava sempre que, mais tarde, com o falecimento do farmacêutico Boettger, o laboratório foi vendido e a matriz transferiu-se para Joinville, dando origem ao Laboratório Catarinense [na verdade a empresa joinvilense já existia antes da aquisição].”

Outras fontes relatam que foi Georg Boettger o pioneiro. Ele teria sido o alemão que nasceu no século XIX, e atribui-se a ele também pioneirismo na vacinação em Brusque e participação política ativa na cidade.

Farmacêutico também criou o Bálsamo Branco, contra problemas digestivos | Foto: Patrícia Barberis/Arquivo pessoal

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