Que brusquense com mais de 60 anos não lembra do sabor único das geladinhas produzidas na Sorveteria Gleich? 

Localizada onde hoje é a avenida Cônsul Carlos Renaux, no Centro, no prédio onde está a loja de colchões Ortobom, a sorveteria da família Gleich iniciou suas atividades na década de 1930 e é considerada a primeira do município.

Hoje moradora de Balneário Camboriú, Sueli Gleich, neta de Edith Koehler Gleich e Oswaldo Adolpho Gleich – os proprietários do estabelecimento – tem muitas lembranças da sua época de infância e também da sorveteria sempre cheia.

Ela conta que tudo começou com a fábrica de gelo que seus avós tinham. “Na época, pouca gente tinha geladeira. Eles fizeram uma fábrica de gelo e vendiam porque as geladeiras eram de madeira, revestidas com zinco e forradas com sal para permanecer por mais tempo o gelo”.

Oswaldo Adolfo Gleich e Edith Gleich, proprietários da sorveteria | Foto: Arquivo da família

Tempos depois, Edith decidiu se aventurar e fazer sorvete. Com sabor e qualidade únicos, logo a novidade se espalhou na cidade. “O sorvete dela era diferente. Até hoje eu nunca mais comi um sorvete parecido. Os mais velhos lembram até melhor do que eu”, diz.

Sueli conta que o sorvete feito por Edith era totalmente natural e artesanal. O leite era trazido de Guabiruba, fervido com favo de baunilha, ovo e açúcar. Em seguida, essa mistura era jogada fervendo dentro da máquina de gelar.

“Era um sorvete artesanal, sem nenhum produto químico. O coco era ralado e a gente conseguia até comer pedaços de coco dentro do sorvete”.

Além do sorvete comum, Edith fazia também o esquimó – sorvete de creme com coco mergulhado no chocolate – e os mais variados sabores de picolé. 

Edith Gleich foi a criadora da famosa geladinha | Foto: Arquivo da família

“Agora eu fico pensando isso tudo nos anos 30, o empreendedorismo deles. Tinha os carrinhos de picolé da sorveteria também que percorriam a cidade. O ponto alto era a festa da matriz São Luís Gonzaga e a festa de Azambuja, que reunia uma multidão”.

Mesmo com a sorveteria já consolidada, Edith não parou de inovar. Ela ficou sabendo que no Rio de Janeiro tinha uma fábrica de waffle, ela mandou fazer formas especiais de waffle e foi assim que surgiu a famosa geladinha. “Embaixo era waffle, aí vinha o sorvete e a outra parte do waffle em cima. Ela embrulhava no papel manteiga. Era uma coisa diferenciada. Nunca mais eu vi esse tipo de produto”.

No grupo Curto Fotos Antigas de Brusque, no Facebook, muitos relatam com saudade dos tempos em que saborearam o sabor único da geladinha da Sorveteria Gleich e aproveitaram o frescor das árvores na parte de trás do estabelecimento, onde havia uma espécie de parque.

“Era o ponto de encontro de Brusque. Muitos casais se conheceram e namoraram ali. Sábados e domingos à tarde, era muito movimentada. Era um local saudável, de encontro dos jovens, com um romantismo que hoje acho que faz muita falta”.

Mais tarde, a família abriu também um restaurante nos fundos da sorveteria. O estabelecimento também era muito bem frequentado, inclusive, foi o local escolhido para o jantar do presidente Juscelino Kubitschek, quando em visita à cidade.

A Sorveteria Gleich foi o ponto de encontro dos brusquenses até o início dos anos 60, quando encerrou suas atividades. Edith Gleich faleceu em 1965, já Oswaldo, em 1976.

“É uma história muito bonita, nos orgulhamos muito por saber que as pessoas sentem saudade e reconhecem a qualidade do sorvete que era produzido ali”, diz Sueli.


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