Certos investimentos nascem em cenários em que não há garantias mínimas de que irão prosperar.

Na década de 1960, saneamento básico não era um tema lá muito recorrente entre as famílias e o poder público brusquense. A canalização do esgoto nas cidades, então, era sonho distante.

Apesar disso, a família Pereira colocou de pé, em 1962, uma pequena empresa para produção de tubos, os quais posteriormente se tornariam cada vez mais imprescindíveis à vida urbana, com o crescimento dos municípios. Sua intenção, contudo, era apenas melhorar o local onde moravam.

“A ideia não era fazer uma fábrica, era fazer os tubos para o esgoto da rua, que na época não tinha”, explica Ademir Pereira, proprietário da Tubos Pereira, fundada ao lado do pai, Manoel Vergílio Pereira, quando ele tinha apenas 14 anos.

“Quando tinha uma quantidade x de tubos prontos, o pessoal veio e começou a querer comprar, e o pai começou a vender”, relata.

Àquela época, o trabalho era estritamente manual e lento. As fôrmas de madeira onde era depositada a matéria prima tinham capacidade para produção de apenas dois tubos de 30 centímetros de diâmetro por dia. O material era colocado no molde e, após retirado, deixado no sol para secar, durante todo o dia.

Até 1968, a empresa familiar contava também com a sociedade dos tios de Ademir, e levava o nome de Artefatos de Cimento Rodrigues.

Naquele ano, um dos tios do atual proprietário observou o funcionamento de uma máquina para confecção de tubos, e fez uma de madeira, a primeira da fábrica. A automatização fez com que houvesse um salto na produção: de dois tubos diários até seis anos antes, a empresa passou a produzir 60.

Hoje, com todo o processo feito com uso de máquinas, o salto da produção é impressionante: a empresa é capaz de fazer entre 250 e 300 tubos por dia.

O negócio prosperou e, em pouco tempo, a Tubos Pereira era a única fornecedora de tubos para as prefeituras da região. O pioneirismo e a visão de futuro fizeram com que a empresa, nos primeiros anos, não enfrentasse concorrência.

Aqui na região, quem quisesse comprar tubos para esgoto, encanamento e construção civil teria que se dirigir, obrigatoriamente, à Tubos Pereira; a alternativa era buscar mais distante, em Blumenau. Foi assim que a empresa tornou-se, hoje, referência em Santa Catarina.


Idas e vindas entre a fábrica e a Casa Avenida

Até se consolidar como empresário, Ademir Pereira teve idas e vindas entre a fábrica da família e a antiga Casa Avenida, uma espécie de magazine que vendia de tudo.

“Desde uma agulha até um carro”, diz ele, relembrando da época, quando começou na empresa como office boy, e terminou como assessor da diretoria.

Da primeira vez que ele foi para a Casa Avenida, ainda jovem, a irmã e o pai continuaram a tocar a empresa. Seu Ademir só voltou à fábrica em 1974, quando ele e um amigo compraram a parte dos tios na empresa, e junto ao pai continuou a tocar o negócio.

Ele assumiria definitivamente o comando da Tubos Pereira somente em 1997. Entre idas e vindas, trabalhou por 32 anos na Casa Avenida. Até esse ano, relembra que a empresa ficou algum tempo na mão de gerentes, pois ninguém mais da família tocava o negócio.

Questionado sobre os motivos de ter saído de uma empresa para outra, seu Ademir afirma que se trataram das circunstâncias. A Casa Avenida, diz, era uma ótima empresa, pagava bom salário, mas foi ruindo com o passar dos anos. “Eu fui obrigado a sair porque a firma acabou, encerrou as atividades”.

Quando Ademir finalmente focou-se na empresa, ela tinha sete empregados. Ele já havia decidido a estratégia para fazê-la crescer, e começou a se movimentar. Procurou diversas prefeituras para oferecer os serviços, e chegou a ser fornecedor de 12 delas.

Hoje, os dois filhos é que tocam a empresa. “Eu hoje faço só o meio de campo, dou a assessoria técnica”, explica ele, que completou 70 anos em 2017.

Aos 70 anos, Ademir Pereira começou a trabalhar na fábrica de tubos aos 14 | Foto: Marcelo Reis

Consolidação no mercado e expansão dos negócios

Os anos 2000 marcaram uma nova fase na vida da empresa. Por volta de 2003, Ademir decidiu expandir os negócios e montou uma fábrica no bairro Limeira.

O objetivo era a produção de paver, lajota e meio-fio. O empresário credita a essa iniciativa o crescimento que a empresa tem obtido na última década.

Assim como em 1962, a empresa não tinha concorrência na região, justamente por ter saído na frente em um mercado ainda inexplorado localmente.

“Quando montamos a fábrica, estávamos praticamente sozinhos, fomos pioneiros na produção de paver na região. Apenas nós tínhamos”, conta seu Ademir, sem disfarçar o orgulho.

“Nós que começamos isso aqui, hoje temos em cada esquina um concorrente, é uma demanda muito alta. Mas nós sempre primamos pela qualidade do nosso produto, a gente quer vender sempre, não uma vez”, afirma Ademir Pereira.

Ele não nega que a empresa teve problemas, estagnou em algumas épocas, mas hoje, avalia, está na sua melhor fase, com mercado consolidado e todo o maquinário seminovo, atendendo em todo o estado de Santa Catarina.

O sucesso de sua firma também é creditado à cidade de Brusque, e sobretudo ao poder aquisitivo de sua população.

“Brusque é uma cidade, eu posso dizer pra ti, empreendedora. É uma cidade boa para o negócio, com o poder aquisitivo muito alto. Brusque sempre foi referência no estado pela sua qualidade de vida, se destaca perante as demais”, discursa o empresário.

“São poucas as cidades que têm esse privilégio, que tem um parque industrial muito diversificado. Todas as áreas da economia, a indústria, do comércio, os serviços, estão no nosso municipio”.

Para ele, o poder aquisitivo sempre foi alto justamente pelo grande número de empresas em diversas áreas. Os empregos, avalia, sempre foram abundantes, e pagavam bons salários.

“Na construção civil, por exemplo, teve época em que a construção civil andava de velinha procurando empregado para trabalhar. É uma cidade muito promissora e tem potencial para continuar crescendo”.


Dedicação ao meio empresarial há décadas

Ademir Pereira é uma figura conhecida em Brusque e, além de tocar sua fábrica de tubos, sempre esteve ligado a atividades do setor empresarial.

Já foi presidente do Lions Clube, do Sindicato dos Empregados do Comércio e do patronal da construção civil (Sinduscon). Foi secretário de Turismo de Brusque e duas vezes presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas(CDL).

Hoje, ainda acumula cargos semelhantes. É presidente do Brusque Convention & Visitors Bureau, entidade de fomento ao turismo, e também diretor de Comércio e Turismo da Associação Empresarial de Brusque (Acibr), além de conselheiro do Sesi.

O empresário, apesar de ter enfrentado algumas nestas décadas, não gosta de falar em crise.

“Nunca considerei como crise, é mudança de hábito, são situações que vem para você empreender mais, buscar alternativas”.

Ele considera o momento econômico e político difícil para todo mundo, mas compartilha o sentimento da maior parte do empresariado: as coisas estão começando a melhorar.
Porém, afirma que o governo deve fazer a sua parte, com menos intervencionismo.

“Enquanto o Lula deixou o pessoal trabalhar, a economia estava forte. Se os politicos esquecerem da indústria, deixarem ela trabalhar, eu tenho certeza que ela se toca sozinha”, diz o empresário, que emenda.

“A política atrapalha muita coisa. Esperamos que lá em cima, em Brasilia, eles coloquem a cabeça no lugar, porque a tendência é melhorar bastante”.

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