Ewaldo Bohn sempre sonhou em ser dono de seu próprio negócio. Nascido em Buenos Aires, na Argentina, ele começou ajudando o tio, Leão Belli, em sua oficina mecânica. Depois alugou um galpão e abriu sua própria oficina. Mais tarde, deu um passo maior: comprou um ônibus que se transformou no primeiro transporte coletivo de Brusque.

O ano era 1938 quando Ewaldo começou a fazer a linha circular do município. No começo, devido, principalmente, às dificuldades de infraestrutura, eram feitos apenas poucos horários.

“Ele fazia horários durante a semana, mas eram poucas viagens, para o Primeiro de Maio, Azambuja, Guabiruba, não tinha nada de asfalto”, conta Maria Nilda Schwarz, uma das filhas de Ewaldo.

Garagem dos ônibus ficava no começo da avenida Primeiro de Maio | Foto: Arquivo pessoal

Com o tempo, entretanto, o negócio começou a engrenar. Ewaldo era muito amigo do cônsul Carlos Renaux, que sugeriu que ele transportasse os operários da fábrica. E assim foi feito. Diariamente, Ewaldo transportava, principalmente, os operários que moravam em Guabiruba, que na época era um bairro de Brusque.

Ao longo dos anos, o trabalho com o transporte de passageiros foi crescendo. Assim, o empresário pioneiro foi comprando mais veículos. Chegou ao total de nove ônibus.

Nilda lembra que toda a família ajudava no negócio. Desde cedo, ela e os irmãos: Mario Francisco, Augusto Francisco e Maria Odete trabalhavam para o pai.

“Eu com 11, 12 anos já ajudava ele. Meu pai tinha uma fama de homem bravo, era muito rígido. Chegava o domingo e tínhamos que varrer todos os ônibus, tirar pó dos assentos. Ele dizia: ‘limpa bem porque eles pagam para andar de ônibus e no domingo colocam a melhor roupa’”.

Empresa foi criada em 1938 | Foto: Arquivo pessoal

Com o negócio indo muito bem, Ewaldo comprou um terreno no início da avenida Primeiro de Maio. Lá, construiu a casa da família e, ao lado, um grande galpão onde guardava os ônibus e também mantinha sua oficina. Mais tarde, ele também abriu um posto de gasolina da bandeiraTexaco no local.

Nilda recorda que seu tio Balthazar, irmão de Ewaldo, também comprou um ônibus e começou a fazer a linha de Santa Terezinha. Seu pai ficou com Azambuja, Primeiro de Maio e Guabiruba. “Meu tio sempre ajudava o pai quando apertava”, diz.

Ônibus também era fretado para passeios | Foto: Arquivo pessoal

Entre as principais lembranças de Nilda está a época de festas no Santuário de Azambuja. Era Ewaldo que, com seus ônibus, transportava os centenas de visitantes para as festas de maio e agosto.

“Em festa de Azambuja ele trabalhava com mais ônibus porque pra ir pra Azambuja a estrada era muito estreita, não tinha passagem para dois ônibus, então os ônibus de fora vinham até o centro e, dali, o pai que levava até a festa”.

O grande incêndio

Em 1954 um grande incêndio destruiu o galpão onde Ewaldo guardava os ônibus e mantinha a oficina. “Na época foi até falado que foi um incêndio criminoso porque começou nos fundos do galpão. O assento de um dos ônibus estava rasgado e colocaram um cigarro lá”, lembra Nilda.

O fogo destruiu praticamente tudo. Poucos ônibus conseguiram ser salvos. Vários carros que estavam para serem consertados na oficina também foram perdidos. “Ele tinha muitos clientes, de carros particulares, e queimou tudo”.

Como Brusque ainda não tinha Corpo de Bombeiros, foram os brigadistas da fábrica Renaux e também da Schlösser que ajudaram a controlar o incêndio.

Ewaldo Bohn precisou reconstruir suas empresas praticamente do zero. Alguns dos ônibus que escaparam do fogo continuaram circulando por mais algum tempo, até que o pioneiro decidiu vendê-los e ficar apenas com a oficina. O empresário faleceu em 1984, por problemas de saúde.

“Temos muito orgulho do meu pai. Ele trabalhou, lutou muito para conquistar tudo que conquistou”, diz.


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