José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

O semeador

José Francisco dos Santos

Mestre e doutor em Filosofia pela PUC/SP, é professor na Faculdade São Luiz e Unifebe, em Brusque e Faculdade Sinergia, em Navegantes/SC e funcionário do TJSC, lotado no Forum de Itajaí/SC.

O semeador

José Francisco dos Santos

Certa vez assisti a uma entrevista de um famoso marqueteiro de campanhas políticas. O entrevistador perguntou como era o desafio de convencer eleitores rivais a votarem no candidato para o qual ele trabalhava. Ele respondeu que não fazia propagada com esse intuito.

A menos que aconteça algo fora do normal, nenhuma propaganda consegue fazer o eleitor fiel de um candidato votar no concorrente. Então, a propaganda política é feita para fortalecer e animar os que já pensam em votar no candidato. Se essa militância estiver firme e animada, poderá ajudar a convencer os indecisos, mas muito raramente tirará votos do rival.

Entendi melhor as coisas depois daquela entrevista, especialmente sobre o meu papel de educador. Muitas vezes nos sentimos desanimados e inúteis, ao ver que nosso discurso ou nosso esforço não surte todo o efeito esperado. Temos a mania de querer mudar o mundo com o poder de nosso convencimento, o que, com muita rapidez, constatamos ser uma grande ilusão. Na maior parte das vezes, pregamos no deserto, falamos para ouvidos surdos ou pouco interessados na nossa mensagem.

Se ficarmos nessa primeira camada das coisas, desanimaremos logo. É por isso que a ideia evangélica do semeador é inspiradora. O semeador não tem controle sobre o que acontece com a semente, mas prossegue semeando. Por isso, não pode ficar contemplando, desolado, a semente que morre seca na pedra, sufocada pelos espinhos ou devorada pelas aves. Seu olhar deve se fixar no pouco que cai em terra fértil e nos frutos que daí se pode gerar.

É muito difícil fazer mudanças significativas na Educação, pois o sistema está terrivelmente viciado e as pessoas envolvidas, em sua imensa maioria, sequer conseguem imaginar o que era a Educação clássica de outros tempos, que gostaríamos de reviver. Mas nossa insistência no assunto pode convencer alguns, despertar interesses, criar condições para que, num futuro próximo, tenhamos mais gente engrossando essa corrente. Se, no entanto, nos omitirmos e deixarmos de semear a ideia, o pouco de terra fértil disponível permanecerá tão improdutivo quanto o grande deserto pedregoso. Além do mais, não podemos determinar o tempo de florescer o que semeamos. Nada disso está sob nosso controle. Não são poucas as vezes em que os ensinamentos insistentes dos pais, por exemplo,  ecoam na cabeça de alguém muito tempo depois, especialmente após o gosto amargo das consequências há muito previstas.

Vivemos um tempo especialmente difícil, de valores liquefeitos, de tradições esmaecidas, de pouca disciplina, de exaltação dos instintos. Mas as sementes dessa degradação vêm sendo plantadas há mais de cem anos, pelos pensadores da “revolução cultural”. Eles souberam pregar para sua militância, que se fortaleceu e, pouco a pouco, contaminou toda a sociedade. Para reverter esse processo, precisamos ter a mesma paciência e aprender com os seus métodos. Portanto, não deixemos de semear e de cultivar dentro de cada um de nós os valores que queremos ver vencedores. Somos um elo fundamental na corrente que formará, aos poucos, o mundo renovado que sonhamos. Há muita terra boa esperando semente.

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