Tenho lido no jornal O Município, com alguma surpresa, diversas matérias e considerações sobre tombamento de parte do patrimônio da massa falida da Fábrica Renaux. Como último presidente da empresa e bisneto do fundador, acho importante manifestar-me sobre o assunto.

Considero a ideia de preservação das instalações por entidades culturais de escassos recursos e pelos poderes públicos, embora romântica, inadequada. Tal processo oneraria os cofres do município com elevados custos, em prejuízo de outros serviços relevantes como saúde, saneamento, estradas, etc, e que forçosamente teria de ser pago adicionalmente pelo contribuinte.

Haverá uma desvalorização no leilão que forçosamente virá em prejuízo dos ex-funcionários da empresa com créditos trabalhistas preferenciais pendentes

Outro ponto é que, com obras engessadas pelo tombamento, haverá uma desvalorização no leilão que forçosamente virá em prejuízo dos ex-funcionários da empresa com créditos trabalhistas preferenciais pendentes. Considerando ainda que inúmeros bens imóveis já foram vendidos ou resgatados em garantias pré-existentes, o limitado patrimônio residual da massa falida dificilmente conseguirá atingir valor suficiente para cobrir tudo.

Devo esclarecer que, dos prédios pioneiros da fábrica, nenhum deles mais existe, tendo o último sido demolido, precisamente onde havia a roda d’água que acionava os primeiros teares, na ocasião da reforma da tinturaria, no final do século passado. Os atuais prédios que integram a visão da avenida Primeiro de maio, são parcialmente velhos, mas não centenários e nem de arquitetura que justifique seu tombamento.

A chaminé, que cogitam reformar é relativamente nova. Foi construída, não me lembro da data exata, mas entre o final da década de 50 e início dos anos 60 do século passado. Nada justifica sua preservação. Sua construção foi posterior ao acidente que vitimou funcionários, que ocorreu quando as caldeiras ainda se encontravam em local diametralmente oposto, e onde haviam duas chaminés menores, já demolidas.

Os atuais prédios que integram a visão da avenida Primeiro de Maio, são parcialmente velhos, mas não centenários e nem de arquitetura que justifique seu tombamento

A preservação do ambulatório (Villa Ida), construção desfigurada quando seu acesso foi obstruído pelo escritório central e pela instalação de tanques nos fundos e corte dos barrancos, também não se justifica. Lembro que não foram preservadas na cidade outras residências muito mais expressivas arquitetonicamente, como a de Guilherme Renaux (onde hoje estão diversas concessionárias de automóveis), e a de Otto Renaux, na rua João Bauer.

Posso bem imaginar os sentimentos dos antigos funcionários da empresa, passando frente a uma dispendiosa reforma da nova chaminé, conscientes de que por isso, não vão receber parte de seus justos créditos pelos anos de trabalho prestados à empresa falida.

A casa vizinha ao ambulatório, onde meu pai morava, também foi demolida para construir os novos setores de acabamento, tanque de óleo, caldeiras, chaminé e expedição.

Preservação da Villa Renaux
Embora em desacordo com as proposições relativas à Fábrica, tenho outra visão sobre a antiga casa do Cônsul (Villa Renaux). Esta poderia ser preservada por lei municipal sem onerar o erário (as fachadas e o mausoléu), a exemplo do que foi feito no Rio de Janeiro com o Hotel Copacabana Palace, mantendo a essência, mas admitindo reformas e exploração comercial.

Villa Renaux está localizada no alto da colina da avenida Primeiro de Maio | Arquivo O Município

Eventualmente a edificação e sua área de entorno possam ser desmembradas e sujeitas a um leilão em separado, pensando na exploração econômica da unidade como museu com acesso pago, como local para eventos ou exposições patrocinadas, ou até como restaurante, mas sempre por um empreendimento particular autossustentável, que não dependa de recursos públicos ou filantrópicos que onerem o contribuinte.

Exemplos de patrimônios assim mantidos e administrados com sucesso são inúmeros na Europa, como a casa de Mozart, de Karl Marx, de Anne Frank, e outras inúmeras mais, em que o público paga a entrada.


Rolf Dieter Bückmann, ex-presidente da Fábrica de Tecidos Carlos Renaux S.A.

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