Conteúdo exclusivo para assinantes
Alexandre Garcia

Jornalista

Os 300 do Brasil

Alexandre Garcia

Jornalista

Os 300 do Brasil

Alexandre Garcia

O jornal O Globo acaba de divulgar que 71% dos juízes brasileiros, em todos os tribunais, recebem acima do limite estabelecido pela Constituição. Os juízes são os aplicadores da lei. Levantamento mostra que quase 30% dos congressistas estão respondendo a processos por infringirem a lei. Eles que fazem as leis federais – e podem até mudar a Constituição. A empreiteira Camargo Correia acaba de revelar que ela e as demais grandes empreiteiras fizeram cartel para enganar concorrências para metrô em oito unidades da federação, durante 16 anos, desde 1998. Como repórter no Palácio do Planalto, vi, muitas vezes, no governo Geisel, entrarem lá grandes empreiteiros, como Norberto Odebrecht e Sebastião Camargo, mas nunca se soube de alguma ilicitude envolvendo governo e empreiteiras. E isso que foram feitas grandes obras no período. Todos, antes e agora são igualmente brasileiros. O que teria mudado para pior nas consciência nacional?

A violência impera. Esta semana, um juiz de direito em São Paulo foi a nocaute depois de receber um soco de um advogado em plena audiência; no Rio Grande do Sul, criminosos armados invadiram o fórum e tentaram matar a juíza; aqui em Brasília, vizinhos não esperaram a polícia e lincharam um assaltante; no Rio de Janeiro, onde três ex-governadores foram presos, já foram mortos neste ano 128 policiais militares – até o momento em que escrevo; no Maracanã, a maior torcida do Brasil protagonizou vergonhosa selvageria num jogo internacional decisivo. O cantor Lulu Santos, analisando os atuais sucessos musicais, afirmou que estamos voltando à fase anal. Na verdade, parece estarmos voltando às cavernas, voltando a ser primitivos, a nos comunicar com urros.

Preocupado, o Papa postou uma mensagem pedindo que os mais velhos, os idosos, transmitam sua sabedoria aos mais jovens. Os mais jovens, avançados na linguagem digital, estão conversando com máquinas e são vítimas da droga. As mulheres pensam que é novidade o empoderamento, mas a mudança vem de muito tempo. Em 1951, pulei carnaval com a marchinha “Papai Adão já foi o tal/hoje a Eva/é quem manobra/e a culpada foi a cobra.” Os homens já não abrem as portas para as mulheres, já não oferecem o assento, não tiram o boné ao sentar-se à mesa com elas – e elas já esqueceram como segurar um garfo e uma faca. Perdem-se os encantos dos ritos, do romantismo e da cortesia.

O trânsito é um retrato do egoísmo e da falta de capacidade de compartilhar de uma cidade. A civilidade anda pela sarjeta. Parece haver uma conspiração ideológica para destruir os valores individuais, coletivos, da família e do estado. Não acredito em bruxos e bruxas, mas eles se revelam por suas obras. Parece que eles existem. O pior é a banalização do valor maior, que é a vida. Morremos de morte violenta, em assassinatos e no trânsito, à razão de 300 por dia. Os 300 de Esparta deram a vida pela defesa de sua urbe, seus princípios, seus lares. Os 300 sacrificados diariamente no Brasil perdem a vida por nada.

Conteúdo exclusivo para assinantes

Quero assinar com preço especial
[Acesse aqui]

Sou assinante

Sou assinante do impresso,
mas não tenho login
[Solicite sem custo adicional]

Tire suas dúvidas, em horário
comercial, pelo (47) 3351-1980

Colabore com o município
Envie sua sugestão de pauta, informação ou denúncia para Redação colabore-municipio