A consolidação da indústria têxtil de Botuverá teve como aliado o espírito empreendedor da população. Mas para que as primeiras empresas dessem certo também foi fundamental a participação dos primeiros funcionários, alguns deles sem experiência alguma, mas com vontade de entrar no mercado de trabalho.

Até a década de 1980, a cidade era essencialmente rural. Isso significa que havia dois tipos de trabalhadores: os que se deslocavam até indústrias de Brusque e os que atuavam na agricultura, principalmente fumicultura.

A mistura dessas categorias foi fundamental para formar a mão de obra que alavancou o setor no município a partir de 1985. Conheça a história de algumas dessas pessoas.

Os pioneiros da Fibla

Geramir Vicentini, o Gica, é praticamente sinônimo da Fiação Botuverá. O botuveraense denuncia no seu sotaque as origens italianas. Com orgulho, conta como foi o começo de tudo.

Gica Vicentini treinou os primeiros funcionários da fiação | Foto: Marcos Borges

Filho de agricultores, Gica trabalhou por quatro anos e oito meses na Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, em Brusque. Foi lá que se encontrou Mário Feuzer, o pioneiro do setor em Botuverá. Ele não só conheceu como teve papel fundamental para que o têxtil fosse para a cidade.

Mário Feuzer comentou com Gica que queria abrir uma fiação na pequena cidade. Foi o botuveraense que sugeriu a Feuzer alguns nomes de empresários que poderiam ser sócios na empreitada.

A Fiação Botuverá começou a ser concebida em 1984, e em fevereiro do ano seguinte, as máquinas começaram a rodar. Gica foi um dos primeiros contratados.

“Quando as máquinas começaram a funcionar, vim para cá junto com colegas, porque já tinha conhecimento. Montamos e começamos a ensinar as pessoas. Assim começou”, conta Gica, hoje supervisor da produção da fábrica.

Quando chegou à fiação, em 1985, Gica era responsável pelo treinamento dos novos funcionários, já que tinha experiência da época da Renaux. O começo foi complicado porque era preciso ensinar tudo nos mínimos detalhes.

“Ninguém sabia trabalhar na fiação, só três pessoas vieram sabendo, eu e mais dois. Nós treinamos todo o pessoal. Pegamos gente da agricultura porque o trabalho na fiação era mais manual antigamente”, lembra.

Gica diz que o começo foi cheio de desafios. A primeira carga de algodão caiu do caminhão ao pé do morro antes da fiação. Sem alternativa, os funcionários tiveram de buscá-la nos braços.

Aos longos dos 33 anos na fiação, Gica passou por várias funções, como auxiliar de encarregado e encarregado de turno, antes de ser supervisor. Era, e ainda é, “pau para toda obra”.

Gica já se aposentou, mas ainda continua no batente. A Fiação Botuverá é a sua segunda casa. Deixá-la chega a apertar o coração.

Para o supervisor, a Fibla foi preponderante para o desenvolvimento da cidade. “Foi a salvação de Botuverá. O município está nesse patamar devido à semente plantada aqui, mais de 30 anos atrás. Se dependesse da agricultura, ainda estaríamos na fumicultura”, avalia.

Desde o início
Bernadete Merizio, 50 anos, mais conhecida como a Berna dentro da fiação, é outra figura icônica. Ela começou a trabalhar na fábrica antes mesmo que houvesse uma fábrica.

Berna, como é conhecida, foi contratada para cozinhar para os pedreiros na fase da construção da fábrica | Foto: Marcos Borges

“Antes de começar aqui, estava trabalhando como auxiliar do lar no farmacêutico da cidade. Um dia, o Mário Feuzer foi lá em casa falar com o pai, para saber se ele tinha uma filha para fazer comida”, lembra, e emenda: “mas eu odiava cozinhar”.

Berna, então com 16 para 17 anos, não tinha ideia de que o convite mudaria a sua vida. Ela logo começou a trabalhar. Cozinhava e levava o café da manhã para os pedreiros que construíram a sede da empresa.

“Eu fazia comida para os pedreiros e trazia. Na hora do almoço, eles iam lá”. O primeiro registro da fiação na carteira de Berna foi como cozinheira. As máquinas começaram a rodar em fevereiro de 85, quando ela passou a trabalhar na produção.

A funcionária trabalhou por 15 anos como maçaroqueira. “Na época da produção, comecei a trabalhar à tarde. A gente não conhecia ninguém”, comenta.

Berna passou para o setor administrativo posteriormente, onde está até hoje. Ela também já se aposentou, mas continua a trabalhar ao lado de Gica.

“Sem a fiação, parece que falta um pedaço, é automático: a gente levanta, toma banho, escova os dentes e vem pra cá. Aí vai pra casa comer e vem pra cá. Tem coisa que acontece na cidade que a gente não fica sabendo, porque a gente vive praticamente aqui”, diz.

Do lar para a confecção

A Confebo marcou a história de Botuverá e também a trajetória da dona Rosa Tachini, 84 anos. A senhora lembra com carinho do seu tempo trabalhando para Sérgio Colombi, o proprietário do negócio.

Dona Rosa Tachini trabalhou como chefe de turno da Confebo | Foto: Marcos Borges

A indústria representou não só uma ocupação, mas a alternativa para que ela criasse os filhos. Dona Rosa ficou viúva prematuramente, há quase 40 anos. O marido era motorista de caminhão de calcário.

“Meus pais eram colonos. Primeiro a gente plantava café e coisas para comer. Mas a geada matou, aí começaram as estufas de fumo”, lembra. Ela mesma trabalhou na fumicultura para sustentar a família.

Para complementar a renda, dona Rosa foi trabalhar na indústria Souza Cruz, em Brusque, no turno da noite. Destacou-se pelo afinco à atividade e logo passou a ser contramestre no setor que separava as folhas de fumo.

Dona Rosa foi empregada da Souza Cruz por cinco anos. Quando saiu, apareceu a proposta de ir para a Confebo. Era algo novo, mas ela encarou.

“Eu não tinha experiência, só sabia costurar em casa, mas não eram máquinas industriais. As primeiras máquinas de Botuverá foram as da Confebo”, comenta dona Rosa, que foi a primeira funcionária contratada.

A carteira foi assinada em 1987, assim que começou a Confebo. Dona Rosa foi contratada para cuidar do turno das 13h30 às 22h. O início foi difícil porque praticamente todas as funcionárias eram inexperientes quanto à costura industrial.

Quase todas as empregadas eram donas de casa ou não tinham conhecimento do têxtil. “Ninguém sabia nem enfiar a linha nas agulhas. Uma mulher vinda de Brusque ficou um mês nos instruindo. Ficamos em umas 15 mulheres para trabalhar. A primeira fornecedora foi a Malharia Regina, de Brusque”.

Dona Rosa trabalhou na Confebo por quase 12 anos. Iniciou junto com a empresa e saiu quando do fechamento, já em 1998. Ela lembra com carinho daquele tempo e diz que era um bom serviço.

Ela voltou a ser dona de casa quando saiu da Confebo. No entanto, a semente do têxtil ainda permanece na família. Dois filhos são donos da Rikju Confecção, uma das maiores do segmento na cidade.


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