Ao longo dos séculos, o transporte ferroviário em Brusque e região esteve em uma espécie de gangorra: ora visto como solução para os problemas de mobilidade e escoamento da produção, ora como inútil receptador de grandes dispêndios financeiros.

O projeto da Estrada de Ferro de Santa Catarina (EFSC), surgido em meados dos anos 1900, foi inicialmente disputado “a tapa” por municípios, que solicitavam a passagem dos trilhos pelos seus territórios.

A história do famoso túnel do Montserrat, por exemplo, remonta à essa época, e a construção da ferrovia que por ele passaria foi objeto de pedidos de empresários e políticos brusquenses, os quais clamavam para que os trilhos fossem assentados em seu solo.

“Precisavam deste transporte por questões óbvias; desenvolver a cidade”, explica o historiador e memorialista da EFSC, Luiz Carlos Henkels.

Em outros períodos, no entanto, a construção da ferrovia em Brusque navegou por anos no mar da impopularidade.

Com a evolução da produção de veículos e a melhoria da qualidade do transporte rodoviário, que passou a ser a menina dos olhos dos industriais, foram realizadas verdadeiras campanhas à base do lobby e do marketing da classe política e empresarial para que os trilhos fossem sepultados, o que acabou por ocorrer.

Nessa balança do desenvolvimento, os trilhos pesavam mais no início e nas primeiras décadas do século 20, e caíram a peso de pluma a partir da metade do mesmo século.

O historiador Henkels explica que contribuiu para esse desinteresse pelo transporte ferroviário o mesmo que contribui, hoje, para a pouca fé colocada no futuro do transporte rodoviário: a longa demora na execução das obras necessárias.

No caso de Brusque, especificamente, ele lembra que a linha Itajaí-Blumenau, da qual o município cogitava fazer parte, foi inaugurada tardiamente, apenas em 1954, embora tivesse sido concebida mais de 40 anos antes.

Nessa época, diz, “já corria veloz a ideia de que a solução para os transportes no Brasil seria a rodovia, tanto é que em 1958 já se asfaltava a atual rodovia Jorge Lacerda [entre Itajaí e Gaspar]”.

Atualmente, os trilhos voltam a pesar na balança, com instituições empresariais e governamentais repetindo a história e, novamente, disputando que seu município seja rota das novas ferrovias projetadas para ligar o Litoral ao Oeste de Santa Catarina.

De qualquer forma, apesar de hoje não estar em operação e o que se tem ser ruína ou museu, a estrada de ferro deixou marcas indeléveis no estado.

Neste sentido, a pesquisadora Angelina Wittmann, arquiteta, urbanista e autora do livro “A Ferrovia no Vale do Itajaí”, avalia que a construção – ou a promessa de construção – da malha ferroviária teve contribuição decisiva para o surgimento de núcleos urbanos ao longo do traçado previsto para a ferrovia, os quais foram “embriões das atuais cidades da região”.

Nesta reportagem especial, contaremos os altos e baixos da estrada de ferro em Brusque e região, desde os pequenos trilhos cujos carrinhos eram puxados a cavalo, idealizados pelo Cônsul Carlos Renaux, passando pela história do túnel abandonado na rodovia Antônio Heil até o mega projeto de cruzar o estado com a Ferrovia do Frango, ainda sem data para sair do papel.


Você está lendo:  Ferrovias em Brusque: altos e baixos na história


Veja outros conteúdos do especial:

Introdução

O transporte ferroviário

– Carlos Renaux: precursor no transporte ferroviário

– A história do túnel ferroviário na Antônio Heil

– Para que serviria uma ferrovia no município

– O início e o fim da linha férrea no Vale do Itajaí

– Panorama atual: projetos para novas ferrovias


O transporte rodoviário

– O impacto econômico da duplicação da Antônio Heil

– A duplicação e o fortalecimento do turismo de compras

– A história da Antônio Heil: uma década em construção

– Obras de duplicação empacam com atrasos e burocracia

– Falta de investimento em infraestrutura custa vidas

– Complexo portuário depende das rodovias para crescer

– Manutenção constante: desafios do transporte rodoviário

– Duplicação torna Brusque mais atrativa a investidores

– Itajaí planeja desenvolver região limítrofe a partir da rodovia