No Brasil, há uma tendência natural de que as mudanças venham muito mais por necessidade eminente do que por planejamento antecipado, e da iniciativa privada, em vez do governo.

Com os transportes em Brusque, deu-se o mesmo. A primeira iniciativa do uso de trilhos para carregamento de cargas tomou forma em meados de 1900, pelas mãos do Cônsul Carlos Renaux, empresário visionário do município.

De acordo com relatos históricos constantes no livro “Brusque, Cidade Schneeburg”, o cônsul conseguiu, naquele ano, uma concessão governamental para assentar trilhos na região, constituindo uma pequena e pioneira linha férrea, da qual hoje não restam vestígios.

No entanto, cinco anos antes, em 1895, há registro da abertura de um procedimento governamental para consultar se havia interessados em assentar trilhos. Não houve. Em 20 de setembro de 1900 foi assinado o contrato de concessão.

Segundo o documento, ao qual O Município teve acesso a uma reprodução, a intenção era que fosse uma linha estreita, com tração animal, com extensão de três quilômetros, ligando a antiga ponte Vidal Ramos à Fábrica de Tecidos Carlos Renaux.

Detalhe interessante da época: o termo de concessão estipulava a necessidade dos trilhos não atrapalharem as porteiras das propriedades, de modo que a passagem das carroças fosse facilitada. Ponderável: os carrinhos dos trilhos eram também puxados a cavalo e, sem o devido cuidado, acidentes poderiam acontecer.

O contrato dizia que a estrada de ferro partia da passagem Sul do rio Itajaí-Mirim até a fábrica de tecidos, a qual ficava na localidade conhecida, naquele tempo, como Pomerânia, hoje bairro Primeiro de Maio.

Uma das cláusulas do contrato obrigava o cônsul a disponibilizar sua linha férrea à municipalidade, quando esta precisasse,para o transporte de materiais para obras públicas.

Também estava o empresário obrigado a fornecer as rodas para os carrinhos de transporte desses materiais.

A intenção do cônsul com a construção da estrada de ferro era aprimorar o transporte da produção da fábrica. De acordo com relatos de historiadores, ele já não estava satisfeito com o ritmo do transporte por carroças, o principal da época.

Hidrovia dominava transporte de cargas

Os primeiros trilhos surgiram quando o sistema de transporte pelo rio Itajaí-Mirim era o principal para o escoamento da produção.

Em artigo publicado no ínicio do século XX, o vereador João Jorge Kormann, que hoje nomeia rua no bairro São Pedro, detalha a importância do transporte hidroviário no município.

À época, a hidrovia era o principal meio de transporte no município: na foto, a reprodução do mapa de navegação de Brusque | Foto: Reprodução/Livro Brusque Cidade Schneeburg

Segundo ele, havia uma grande frota de lanchas, que fazia diariamente o trajeto Brusque-Itajaí, transportando cargas, tanto importadas quanto exportadas. A economia e o comércio fluíam, literalmente, pelo Itajaí-Mirim. As lanchas chegavam e partiam do porto de Itajaí.

Eram viagens longas. A distância estimada de Brusque ao porto de Itajaí, pela via fluvial, era de 100 quilômetros. As incursões costumavam demorar de sete a oito horas na ida, e muito mais na volta: às vezes um dia inteiro.

No entanto, o nível do rio era considerado já baixo demais para que o transporte de produtos dependesse dele. Barcos maiores, inclusive, encontravam-se inviabilizados de navegar, tendo em vista que o casco batia no fundo do rio.

Sobre o tema, Ayres Gevaerd, estudioso da realidade brusquense e idealizador do que hoje é o museu Casa de Brusque, publicou artigo na revista Notícias de Vicente Só, em 1978.

Com o título “O porto fluvial e a estrada de ferro”, ele detalhou o funcionamento do transporte hidroviário e o início de seu declínio, dando lugar ao transporte de cargas por terra.

“Com a chegada dos primeiros caminhões de carga, na década de 1920, e melhoria da estrada para Itajaí, foram desaparecendo, aos poucos, as lanchas que faziam o percurso pelo rio”, detalha, no artigo.

Do rio que fazia o transporte da produção até Itajaí, até se vislumbrar efetivamente uma ligação ferroviária com o município vizinho, se passariam algumas décadas. Esse assunto, no entanto, é tema para os próximos capítulos.


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Introdução

O transporte ferroviário

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O transporte rodoviário

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