Rosemari Glatz

Professora da Unifebe

Pastor Lindolfo Weingärtner: De alma para alma – Parte I

Rosemari Glatz

Professora da Unifebe

Pastor Lindolfo Weingärtner: De alma para alma – Parte I

Rosemari Glatz

Cidadão. Doutor. Pastor. Esposo. Filho. Irmão. Pai. Avô. Bisavô. Nasceu no dia 27 de agosto de 1923 em Santa Isabel, município de Águas Mornas, Serra do Mar, nas cercanias de Florianópolis. Filho de Robert Weingärtner e de Wilhelmina Beppler Weingärtner, ele foi o nono de dez filhos de um casal de agricultores.

Contraiu as primeiras núpcias em 1947 em Santa Isabel (SC), com Margret Hatzky. Em 1991, na maturidade da vida, uniu-se em segundas núpcias com Erna Jönk, em Brusque. A graça de Deus permitiu que o casal experimentasse o declinar do dia em paz no sítio onde viviam, em meio a bosques, canteiros e lagos, passarinhos e borboletas. Pastor Lindolfo Weingärtner desviveu no último dia 20 de março, aos 94 anos e 6 meses de idade.

A trajetória de vida do Pastor Lindolfo Weingärtner renderia muitos livros, e sei que nem todas as palavras conseguiriam transmitir a essência da sua mensagem de vida, pois que não há palavras que possam sintetizar a trajetória de um ser tão especial. Mas, numa pequena expressão de gratidão, na edição de hoje e também nas próximas semanas, esta coluna vai dedicar especial homenagem em sua memória e apresentar, “em pequenas pinceladas”, um pouco de uma grande história.

Síntese profissional
Preparando-se para estudar Teologia e ingressar no pastorado, Lindolfo Weingärtner foi estudar em São Leopoldo, no Instituto Pré-Teológico, mas teve que interromper o curso em 1942, quando foi convocado, junto com outros alunos, para exercer o trabalho pastoral nas comunidades, cujos pastores foram proibidos de trabalhar pelo decreto de nacionalização. Iniciava ali uma brilhante trajetória como pastor, professor de teologia, escritor respeitado e poeta admirado.

Aos 20 de outubro de 1942, foi mandado pela primeira vez para uma comunidade pela Igreja. Depois de um rápido preparo superficial de 15 dias, foi mandado para São João da Reserva, São Lourenço e Pelotas. Lindolfo tinha, então, 19 anos, mas com aspecto de 16. Ao referir-se às dificuldades vividas pela Igreja Luterana naquele tempo, o Pastor Lindolfo dizia:

aquele momento foi a grande crise da Igreja Luterana no Brasil e se deu na Segunda Guerra Mundial. A nossa igreja estava muito ligada à Igreja e à cultura alemãs. Em casa só se falava o alemão, e nas igrejas o português quase não tinha vez. Num certo tempo, havia 34 pastores presos em campos de concentração. Éramos uma igreja de pastores, que sem pastores não funcionava. De repente, por causa da situação política de então, pastores foram tirados de circulação e proibidos de trabalhar, de atuar. E as comunidades ficaram órfãs. Não podia haver culto, porque os pastores que não estavam trancafiados não falavam o português, só alemão. E alemão era proibido. A igreja tinha caído numa situação contraditória que ela não sabia mais como resolver. Pessoas aconselharam a abandonar as comunidades da serra e a área rural e a manter só as comunidades dos centros. Mas surgiu a ideia do pastor Hermann Dohms de convocar os 20 formandos do Instituto Pré-Teológico. Tudo rapaziada de 19, 20 anos de idade, que receberam uma rápida preparação de emergência – três semanas – para o pastorado. Naquele momento, houve muitas críticas, mas a decisão se mostrou acertada.

Anos de guerra 
Perguntado sobre as dificuldades desses anos de guerra, o Pastor Lindolfo contava:
Depois de cursar o Instituto Pré-Teológico, que era um colégio humanístico, germânico, com muito grego e latim, mas não tínhamos preparo teológico especial para o ministério, eu me virei, aprendendo a pregar com a própria comunidade. A comunidade foi meu curso de pastorado. A comunidade e a Bíblia”. (Extraído do texto Evangelho é dinamite, publicado no Portal Luteranos).

Hoje, não dá para imaginar a crise de 1942-1945. Antes, os membros da Igreja Luterana eram tolerados e respeitados. De repente, ficava bem falar mal deles. Prendê-los. Judiá-los. Os membros da igreja apanharam. Em sua garganta, foi-lhes empurrado um cano de fuzil com óleo de motor, fazendo-os engolir. Poderíamos dizer: mas isso foi por causa do evangelho. O cristão tem que sofrer. Mas não foi por isso. A perseguição foi porque nós não soubemos, nos 100-150 anos de existência da comunidade da Igreja Luterana no Brasil, espalhar o evangelho para os caboclos e para os que não falam o português, nós não soubemos ser missionários, não fomos capazes de entrar na vida deles, e assim isso pôde acontecer.

A falta de interesse, de amor pelo próximo, de contato dos cristãos luteranos, quebra o crescimento do evangelho. Tudo é possível quando alguém tem amor e a nossa igreja conseguiu passar por tudo isso, passou por essa crise. Isso é um dom de Deus. Mas nós não devemos desprezar o ‘retrovisor’.  Temos que olhar e ver os nossos próprios erros e as nossas vantagens.

Faculdade de Teologia
Após o término da guerra, Lindolfo Weingärtner ingressou na Escola de Teologia, recém-inaugurada (1946). Fez parte da primeira turma e se formou em 1948, mesmo ano em que foi trabalhar como pastor em Timbó (SC). No ano seguinte foi trabalhar em Ituporanga (SC) e em 1950 assumiu a direção da Escola Evangélica em Panambi (RS). Passados três anos, voltou a atuar em comunidade, desta feita no bairro Itoupava Central (Blumenau) e depois em Brusque.

No ano de 1960, retornou à Faculdade de Teologia como professor lecionando na cadeira de Teologia Prática, onde trabalhou por 11 anos, período em que fez o doutorado na Universidade de Erlangen, na Alemanha, versando sobre Umbanda, publicado em 1969. Ele foi o primeiro docente brasileiro, de tempo integral, a ministrar aulas em português na Faculdade de Teologia. Além de professor, também foi reitor da Faculdade de Teologia.

Aposentadoria
De 1972 até julho de 1975 atuou na Paróquia da Paz em Joinville (SC), seu último campo de trabalho, antes da aposentadoria. Encerrou sua carreira prematuramente, aos 54 anos, por conta de problemas de saúde, vivendo desde então em Brusque.

A vida do Pastor Lindolfo na igreja luterana brasileira se confunde com a própria história da IECLB. Ao se manifestar sobre o assunto, ele dizia:

Ao longo de minha própria biografia, a igreja se foi aglutinando em torno da pessoa de Hermann Dohms. Eu fui um pupilo de Dohms. Quisesse ou não, eu era parte do processo de formação da igreja. Vejo uma linha na evolução da igreja. Partimos de um particularismo, de comunidades e sínodos onde cada comunidade e cada sínodo queriam a sua própria coisa e não se interessavam pela causa de um evangelismo brasileiro, que tinha a missão de trabalhar, de evangelizar de dentro para fora. Isto me parece muito claro hoje: tanto a partir da própria direção da IECLB, que vê a função missionária da igreja, como também de movimentos dentro da igreja e das próprias comunidades, me parece assegurada que a dimensão missionária da igreja foi descoberta e redescoberta e não desaparecerá mais da história (extraído do texto Evangelho é dinamite, publicado no Portal Luteranos).

Fala do Pastor Lindolfo Weingärtner no XXX Concílio da IECLB (2016)

“Eu sei que o meu tempo passou. Estou pronto para o grande mistério. O grande milagre do reino de Deus. Mas eu gostaria de deixar um testemunho claro. Eu sou do centro do evangelho, onde corre o rio, a mensagem de Deus, onde o sedento bebe água. Não da margem esquerda onde alguém cavou uma poça, ou da margem direita onde os barulhentos estão chamando a atenção. Mas do centro, onde realmente corre o rio, onde corre a mensagem que Deus mandou e onde ele manda qualquer sedento beber água. Igreja missionária que, com prazer e com alegria, espalha a semente boa que Jesus Cristo deixou para nós. Então que eu possa deixar essa semente para a Igreja e para vocês todos. Deus permita que essa Igreja se ache a si mesma. Deus me manda falar e dizer que vos ama. Em nome de Cristo, amém”.

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