Primeira professora do Guarani venceu dificuldades para educar crianças do bairro

Dona Benta Montibeller driblou idioma desconhecido e falta de estrutura na sua carreira

Primeira professora do Guarani venceu dificuldades para educar crianças do bairro

Dona Benta Montibeller driblou idioma desconhecido e falta de estrutura na sua carreira

A atuação como educadora tornou Benta Montibeller, de 87 anos, uma personalidade reconhecida no bairro Guarani. Foi a primeira professora atuante no local, ainda antes da construção da escola João Hassmann. Para construir a carreira responsável por alfabetizar gerações de moradores da região, precisou superar distâncias, limitações e até idiomas.

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Benta cresceu em um período de tensões mundiais e acompanhava as notícias sobre quem se dedicava a salvar vidas durante os conflitos. Ficou sensibilizada com a atuação dos profissionais de saúde durante a Segunda Guerra Mundial e sonhava em ser enfermeira. O magistério se tornou opção por influência da família: outras três irmãs eram professoras.

Durante o período como estudante, Benta dividia o tempo entre os livros, na escola Feliciano Pires, e o trabalho em uma fábrica. A rotina durou os três anos do curso superior. Quando se formou, aos 18 anos, foi trabalhar em Guabiruba. A rotina era intensa e contava com o apoio e incentivo da família para seguir na profissão. No início, lembra, era comum dar aulas também aos sábados à tarde.

No registro de 1963, Dona Benta, acompanha turma da quarta série / Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Logo nos primeiros dias como educadora, ela precisou superar um desafio inusitado: o idioma. Como a maior parte dos alunos da turma não falavam português e ela não entendia alemão, precisou usar a criatividade para que as poucas crianças que entendiam a nova professora, passassem as atividades para os demais e ensinassem o idioma nacional. “O esforço e a vontade de ensinar faz você tentar encontrar uma forma que todos entendam”.

Casa alugada
A mudança para o bairro Guarani veio com o noivado, aos 21 anos. O trajeto até a escola era feito de bicicleta. O número reduzido de estudantes e a limitação de estrutura fazia com que as aulas fossem multisseriadas. Durante boa parte do tempo foi a única professora do bairro.

O sogro se uniu com outros pais nas mobilizações para construção da escola João Hassmann. Apesar do esforço, a demanda por educação no próprio bairro já existia e, até ser finalizada a primeira sala de aula, os alunos eram atendidos em uma casa alugada.

A realidade do magistério nos dias de hoje, afirma, é muito diferente do tempo que ela atuava. As diferenças, segundo ela, não está só no reconhecimento da categoria, mas na participação comunitária no setor.

Outra mudança percebida ao longo dos anos foi a redução da participação comunitária dos professores. Antigamente, lembra, era muito comum os educadores serem atuantes no bairro por morarem próximos das escolas.

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Dedicação ao Guarani
Dona Benta orgulha-se que alguns dos seus alunos tenham seguido seu exemplo profissional, assim como uma das netas. “Era a mais velha do grupo e o restante, a maioria já faleceu”.

Ela chegou a ser diretora e atuou como professora até os 42 anos. Só saiu por problemas de saúde. Ainda hoje, mantêm amizades dos tempos de educadora. Entre elas, guarda com carinho uma de mais de 80 anos com Vilma Walendowsky, ex-colega de escola e também professora.

A ligação com o bairro onde criou os cinco filhos é tanta, que o próprio casamento foi em uma data ligada com o Clube Esportivo Guarani. “Meu marido era tão fanático pelo clube que queria casar na data de aniversário do Guarani, tinha quer ser o 14 de outubro”, brinca. Eles se conheceram na entidade.

Ela e o marido chegaram a fazer parte da diretoria do clube. Chegou a atuar, com outros membros, em atividades para arrecadação do valor necessário para instalação da piscina da entidade.

Superação em família
A voz de Dona Benta, como é chamada no bairro, fica embargada ao lembrar das dificuldades que a família passou durante as enchentes que afetaram o bairro. Só em 1983, a casa onde moravam foi atingida sete vezes.

Um ano depois foi a vez do caso mais crítico, quando a água atingiu o forro da casa e a família da professora e do barbeiro perdeu tudo o que havia conquistado. As lembranças causam medo nela até hoje. “Sempre que começam a dizer que vai chover, fico muito preocupada. Já pensei em mudar, mas somos muito apegados”.

Durante esta enchente, eles precisaram buscar refúgio na casa da cunhada. Enquanto estavam no local, o marido utilizava uma canoa para ajudar os vizinhos. Eles usavam rojões para sinalizar os pontos com demanda de auxílio.

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