É tudo uma questão de símbolo. Nada mais distante, nada mais oposto, do que as figuras da boneca mais “padrãozinho” do mundo e a artista mexicana mais inquieta e contrária aos padrões. Mas não é que elas se encontraram, meio que nas “comemorações” do Dia Internacional da Mulher? Ou será que o mais correto seria dizer que elas colidiram?

Foi assim: a Mattel, dona da Barbie, resolveu fazer uma série chamada Mulheres Inspiradoras. As primeiras lançadas foram três mulheres bastante conhecidas, tanto que todas elas já renderam filmes. Além de Frida Kahlo, foram lançadas também a pioneira da aviação norte-americana Amelia Earhart e a cientista da Nasa Kaherine Johnson – que foi vivida no cinema por Taraji P. Henson, no relativamente recente Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures), e que ficou quase branca na versão boneca.

É só olhar para as bonecas para perceber que a coisa deu um pouco errada. As barbies parecem estar prontas para uma festa à fantasia com temática, digamos assim, feminista. Todas magérrimas, arrumadinhas… nem as sobrancelhas de Frida Kahlo, tão icônicas foram respeitadas. Tanto que a família dela veio a público reclamar.

Mara Romeo é sobrinha-neta de Frida e sua herdeira. Além de criticar a boneca em uma nota oficial, dizendo que a barbie não tem os traços da artista, ela fez uma acusação mais séria: disse que a Mattel não pediu autorização para usar a imagem de sua tia-avó. Sobre isso, a empresa respondeu, alegando que tem a autorização da Frida Kahlo Corporation, que é quem detém os direitos sobre a identidade e o nome de Frida. Um autêntico angu.

Até Salma Hayek, que viveu a artista no cinema, fez questão de dar sua opinião em seu perfil no Instagram. “Frida Kahlo nunca tentou ser ou parecer com ninguém. Ela celebrou a sua singularidade. Como puderam transformá-la em uma barbie?

https://www.instagram.com/p/BgMLqsfAgj-/?taken-by=salmahayek

Pois é, puderam e fizeram. A Mattel parece estar se esforçando, nos últimos anos, em mudar a imagem da boneca, trazendo para seu universo etnias e formatos de corpos que remetam à diversidade. Mas parece ter muito cuidado em não mexer no que a gente pode chamar de “essência barbieana”. Por mais diferentes que elas tentem ser, todas as barbies se parecem. Todas são igualmente irreais (você já deve ter lido que as proporções da boneca, se trazidas para o mundo real, gerariam mulheres que não conseguiriam se sustentar em pé), presas a uma simetria impossível.

Mattel, liberte a Barbie! Permita que ela seja irreconhecível, que explore o que alguns chamariam de feiura e que se alinhe a quem questiona os padrões de beleza! Ela já fez esse papel de ser representante do padrão por tempo demais, para muitas gerações, demais, de meninas aprisionadas pelo que deveriam ser e se tornar. Deixe, de verdade, que as garotas se identifiquem com ela. Que as identifiquem com suas mães, irmãs, tias. O mais bonito da nossa época é essa abertura (a fórceps) ao que é diferente. Mas não vale abraçar o que é só mais ou menos diferente, o que não muda de verdade, o que parece estar brincando de ser fora dos padrões.

Com toda essa polêmica, as bonecas colecionáveis esgotaram rapidamente no site da empresa. Vão virar itens raros e caros. Aliás, diz que a barbie Frida Kahlo vai ser vendida no Brasil, ao preço inicial de R$ 250,00. Como bônus, ela já vem com essa história de críticas, para que suas donas possam contar, um dia, para suas netas e netos. Será demais desejar que as crianças do futuro achem tudo isso absurdo, em um mundo que já terá derrubado os padrões?

A gente sonha.


Claudia Bia
– jornalista, nunca teve uma Barbie

 

É tudo uma questão de símbolo. Nada mais distante, nada mais oposto, do que as figuras da boneca mais “padrãozinho” do mundo e a artista mexicana mais inquieta e contrária
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