Relatos de historiadores apontam a existência de células do partido nazista em Brusque

Brasão alusivo ao nazismo é identificado ao lado da bandeira dos “Estados Unidos do Brasil”

Relatos de historiadores apontam a existência de células do partido nazista em Brusque

Brasão alusivo ao nazismo é identificado ao lado da bandeira dos “Estados Unidos do Brasil”

O ano é 1935. É hora do discurso do então prefeito Victor Gevaerd, na sede da Prefeitura de Brusque, onde hoje fica o banco Itaú, no Centro. Uma multidão acompanha seu pronunciamento, referente ao aniversário de 75 anos do município. Na imagem de cores opacas, que ilustra esta reportagem, é possível identificar, do lado da bandeira dos “Estados Unidos do Brasil”, o destaque a um brasão alusivo ao nazismo.

Essa imagem é um dos poucos vestígios que restaram das influências da Alemanha nazista em Brusque. Historiadores garantem que, no passado, o Nacional Socialismo – ideologia praticada pelo partido nazista da Alemanha, formulada por Adolf Hitler e adotada pelo governo alemão de 1933 a 1945 – construiu “filiais” no município, assim como em outras cidades do Vale do Itajaí.

A discussão sobre o Nazismo – criminalizado depois de descobertos os genocídios e outros crimes praticados sob a batuta de Hitler – volta à tona depois da imagem divulgada recentemente pela Polícia Civil, na qual o professor Wander Pugliesi mantém uma suástica (símbolo do regime nazista) desenhada na piscina de sua casa, em Pomerode.

A lei brasileira considera crime a divulgação do nazismo. Proíbe fabricar, vender ou distribuir imagens e objetos que contenham a suástica, sob pena de multa e prisão. Contudo, não impede que alguém use o símbolo dentro de casa, como fez Pugliesi.

Pugliesi é, na visão de especialistas, não um caso isolado, mas um resquício de uma história antiga no Vale: a presença do ideário nazista. O historiador Álisson de Castro Sousa, da Fundação Cultural de Brusque, diz que, atualmente, é difícil encontrar material para fazer uma avaliação profunda de como essas ideias foram inseridas no município.

“Quem vai investigar algo relacionado ao Nazismo em Brusque não tem material. Não existem mais vestígios – sentencia. Ele explica que, quando foi fundada a Colônia Itajahy, hoje Brusque, por volta de 1860, a Alemanha ainda não estava constituída como Estado-Nação, o que só veio a ocorrer 11 anos depois. Os imigrantes que estavam em Santa Catarina, a partir desta data, adotaram um forte espírito “nacionalista”, semelhante ao pregado por Hitler”.

“Nessa época começou uma forte propaganda chamada Alldeutscher Verband (em português, algo como “União de Todos os Alemães”), onde se tem a divulgação do ideal nacionalista alemão, que chegou aqui na região com bastante força, porque quando eles saíram de lá, não havia esse sentimento de unificação”, explica Sousa.

O historiador da Fundação Cultural recorda a foto na qual o símbolo nazista está em evidência, durante a comemoração do aniversário de Brusque. “A partir dessa foto, podemos vislumbrar que o Nazismo tinha uma certa repercussão, para eles colocarem o símbolo ao lado da bandeira do Brasil. Mas se for investigar a documentação, saber quem de fato aderiu ao Nazismo é praticamente impossível”, ressalta.

Outros indícios da presença nazista também estão documentados, como será visto a seguir, mas, atualmente, quase nada resta.

“A repressão foi muito forte, não só aos nazistas, mas também aos alemães. O símbolo era presente, existiam pessoas que possuíam a suástica. Depois, com a violenta repressão, desencadeada pelo interventor federal Nereu Ramos, se escondeu, praticamente nada mais se manteve”, afirma o historiador Paulo Kons.

Vestígios e lembranças
O historiador Paulo Kons afirma que o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (o partido nazista) teve uma presença significativa em Brusque, sobretudo entre os capitães da indústria, a elite do município.

“Vamos nos situar na década de 1930, cerca de 70 anos depois do início da colonização em Brusque. O sentimento que o povo alemão tinha era de um grande carinho, uma verdadeira devoção à Alemanha, existia um saudosismo e se buscou de muitas formas reconstituir o modo de vida que lá existia”, afirma Kons, ressaltando que a devoção à Alemanha era confundida com adoção do ideal nazista por muitos dos imigrantes.

Ele explica que já na década de 1930 Brusque se industrializava, haviam técnicos e empreendedores, e todas as empresas eram de alemães ou de descendentes diretos. Com isso, era impossível dissociar totalmente a política praticada na Alemanha do pensamento dos imigrantes aqui estabelecidos.

“O imigrante de maior notoriedade era o Cônsul Carlos Renaux. Existe uma denúncia de um coronel do Exército brasileiro, em um livro escrito nos anos 1930, que evidencia a presença nazista no Vale. Nesse livro ele relata, inclusive, que o Cônsul tinha um grande quadro do Führer (Hitler). As pessoas chegaram a confeccionar flâmulas nazistas”, relata o historiador.

Ele também cita registros de que, na mesa de trabalho do Barão de Schneeburg, que foi o primeiro administrador de Brusque, na gaveta existiam alusões ao símbolo máximo do Nazismo.

Sede do partido nazista, em Blumenau: historiadores indicam presença de ramificação também em Brusque / Fotos: Arquivo/Divulgação

A antropóloga brusquense Giralda Seyferth, hoje pesquisadora do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, registra, no seu livro “A assimilação dos imigrantes como questão nacional”, que a população imigrante alemã no Vale do Itajaí era considerada, no mínimo, simpatizante ao Nazismo, o que dificultou, inclusive, a repressão às “culturas estrangeiras”, por parte do Estado Novo brasileiro.

“O treinamento, em Vassouras, dos soldados e oficiais que iriam formar o 32º Batalhão de Caçadores, procurou influenciar, assim, a composição do corpo de tropa destinado a nacionalizar o Vale do Itajaí. Afinal, tratava-se de uma região com considerável influência alemã, e os industriais e a população urbana, em geral, eram considerados, no mínimo, simpatizantes do Nazismo”, relata.

Kons afirma que os imigrantes instalados aqui na região ficaram contentes com a ascensão do Nazismo, porque ele elevou a Alemanha ao nível de potência hegemônica, mas desconheciam, na sua maior parte, as práticas criminosas. – O povo era simpático com a Alemanha, mas não sabia muito bem sobre o Nazismo, o povo não tinha ideia sobre as questões do genocídio, da solução final”, salienta.

Contudo, para o historiador, é comprovada a existência de células do partido nazista no município. “Tenho relatos de que em Brusque havia pessoas, inclusive com financiamento, que queriam montar uma organização. Um partido nazista local, como filial da Alemanha. Era sabido, também, que havia pessoas infiltradas nas fábricas”, afirma.

Conforme Kons, eram núcleos pequenos, porque o Nazismo aqui, visava os indivíduos financeiramente afortunados. “Não estava interessado no povão, estava mais interessado em captar as elites”, conclui.

Imprensa e nacionalismo
O historiador Álisson de Castro Sousa ressalta algumas particularidades da propaganda nacionalista alemã em Brusque. Conforme material por ele estudado, a partir de 1875 houve uma forte imigração de italianos que, aqui instalados, passaram a ter uma assimilação do pensamento defendido pela Alldeutscher Verband. “A partir disso, esse pessoal começa a se ver como alemão”, afirma.

Souza explica que a imprensa, inclusive, também passou a colaborar para a difusão deste pensamento. O jornal Brusquer Zeiting, editado a partir de 1912, estritamente em alemão, privilegiava notícias favoráveis à Alemanha e à Itália, em detrimento de notícias que envolviam os ingleses, considerados inimigos dos alemães.

Por fim, em relação aos registros do Nazismo no município, ele afirma que há, como pesquisa documentada, somente as que enfocam o integralismo, uma versão brasileira do nacionalismo alemão. “As referências estritas ao Nazismo não existem mais”.

Lendas
Consta nos registros históricos que o centro do Nazismo no Vale do Itajaí era Blumenau. Inclusive, a sede do partido nazista era localizada lá, com pequenas ramificações nas cidades vizinhas, como Brusque. Paulo Kons relembra uma das famosas lendas sobre o tema, a qual faz referência à existência de “túneis nazistas” no teatro Carlos Gomes, em Blumenau.

A lenda conta que entre 1940 e 1945 foram construídos túneis subterrâneos na cidade, que foi fundada por imigrantes alemães, em 2 de setembro de 1850. A conversa é de que os túneis serviriam para o escoamento da água das enchentes, mas também há versões de que eles serviriam para uma fuga rápida de Adolf Hitler, em caso de perigo, quando ele viesse ao Brasil.

“Existia uma expectativa pela presença de hitler. Fala-se que esses túneis foram construídos pensando em uma visita dele a Blumenau”, diz o historiador.

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