Entre os 400 atores que participaram do espetáculo Paixão e Morte de Um Homem Livre, lá estava eu. O jornal O Município foi convidado a participar da experiência de ter um repórter em cena, acompanhando os ensaios e conhecendo, portanto, os bastidores de uma das maiores e mais belas peças teatrais do Sul do país.

De prontidão aceitei, tanto por valorizar a história da Paixão de Cristo quanto por ser ávido a desafios. Meu personagem não tinha falas. Ou melhor, fazendo justiça, havia sim o que falar: “Crucifica-o! Soltem Barrabás!”. Esse era meu script completo.

Fiz parte do povo, um grupo com dezenas de atores. Mas não se engane: o povo era fatia fundamental da apresentação. Sem nós, muitas cenas não fariam sentido. Desde o nascimento de Jesus até a crucificação, lá estava o povo para admirar, lamentar ou ser injusto com Cristo ao pedir a soltura de um assassino no lugar do salvador.

Todo o elenco, do povo a Jesus, de uma criança que nunca havia encenado até o mestre da teledramaturgia Francisco Cuoco, teve seu grau de importância para que os dois dias de espetáculo corressem maravilhosamente bem, como aconteceu.

Fundamental também foram os 110 integrantes das equipes técnicas, como maquiagem e figurino. Cada um dos 510 voluntários fez com que a peça cumprisse o seu papel de evangelizar e transmitir a mensagem de paz e transformação da Páscoa no coração dos cerca de 9 mil espectadores que acompanharam a apresentação.

Araras com centenas de vestimentas para os personagens. Foto: Cristóvão Vieira

Os ensaios
Cheguei em um domingo de ensaio no salão da Igreja São Cristóvão – santo o qual fui homenageado com o nome -, no bairro Aymoré. Não pude esconder a admiração pela grandiosidade do palco, com 65 metros de comprimento e repleto de caprichados cenários. As pessoas trabalhavam incansavelmente nos últimos detalhes. Sons de marteladas, soldagens e parafusamento ditavam o ritmo acelerado dos ajustes.

Não conhecia nenhum dos voluntários. No entanto, a sinergia entre os participantes e o clima de envolvimento com o espetáculo me favoreceram. As pessoas me ajudaram a me encontrar em questão de minutos. Dois diretores também foram importantes. Marcelo Carminatti, diretor geral, e Joice Teresinha Alves Lana, diretora de elenco, deram todo o suporte e o encaminhamento.

Contudo, foi em membros da comunidade que tive a maior segurança para fazer o papel de povo. Antonia Schlindwein, Carin da Silva, Nair Maria Simas, Nilze Ebel, Rozilene Coelho Albrecht e Tatyane Fischer contracenaram comigo e me fizeram, desde o começo, sentir parte da apresentação.

O primeiro ensaio foi confuso pra mim. Não entendia muito bem a hora certa das entradas, saídas e gestos do povo. Ensaiamos sem nosso figurino, desglamourizados, o que ajudava nesse deslocamento. Carminatti dava instruções em um microfone para que tudo saísse perfeito, como no dia das apresentações. Os demais atores já haviam ensaiado nos cinco domingos anteriores – todos com chuva.

Voluntários deram os últimos ajustes para a o espetáculo. Foto: Cristóvão Vieira

Ao fim, lanchamos. A equipe da cozinha entrou em ação, competentíssima, fazendo e entregando o alimento que as centenas de pessoas, em filas ordenadas, pegavam para repor as energias. Era tempo de se preparar e colocar o figurino. E só aí toda a magia do espetáculo passou a fazer sentido.

Quando cheguei ao nosso ‘camarim’, na verdade o segundo piso do salão, vi-me na Galileia. Ao meu redor estavam soldados romanos, centuriões, sacerdotes, reis-magos e até alguns ‘Jesuses’. Isso mesmo, no plural: três homens vestidos de Jesus, que interpretaram o nazareno em momentos diferentes da apresentação, e eram o centro das atenções.

Aliás, no total foram seis no mesmo papel: Joaquim Habitzreuter como bebê; Gustavo Keller como Jesus jovem; Jansen Gums, Fábio Luis Kormann e Carlos Woitexen já adultos e também um membro do Corpo de Bombeiros que é suspenso por um guincho já na cena final, quando Cristo ascende aos céus.

A riqueza nos detalhes das vestes e dos acessórios nos transmitia muita realidade e sensação de pertencimento àqueles tempos. O segundo ensaio do dia, que também contou com o sistema de iluminação, foi a confirmação de que todos ali estavam prestes a participar de uma imensurável celebração à história de Jesus Cristo de Nazaré.

Expectativa e bastidores
Jamais saberia de alguns detalhes se eu não tivesse participado da apresentação. Principalmente o quanto a comunidade acolhe a apresentação. Maridos e esposas, crianças, senhores de idade, todos envolvidos de tal maneira que impressionava.

“Eu estou encantado. Sei que quase todos são voluntários e amadores, mas não ficam atrás de outros espetáculos do mesmo porte”, Marcelo Carminatti, diretor teatral.

Antes da apresentação de quinta-feira, Carminatti não escondia o orgulho. “Eu estou encantado. A equipe de cenografia caprichou ainda mais, os contrarregras trabalharam muito bem e o elenco fez as cenas ficarem ainda melhores do que imaginei. Sei que quase todos são voluntários e amadores, mas não ficam atrás de outros espetáculos do mesmo porte”.

Muitos dos participantes sacrificaram parte de suas vidas pessoais para estarem ali. Uma pessoa que tive contato precisava acordar às 4h do dia seguinte aos ensaios para trabalhar na costura. Outra mulher ficou sabendo de um acidente de carro com integrantes de sua família e também sofreu, mas não abandonou o espetáculo. Uma menina de 10 anos chorou copiosamente ao saber que sua mãe não poderia lhe ver no espetáculo, mas ela engoliu as lágrimas e suportou até o fim das apresentações.

No domingo antes da estreia, estrutura de iluminação ainda não estava suspensa. Foto: Cristóvão Vieira

As apresentações
A previsão para os dias de apresentação era de chuva. Mas até o tempo colaborou. Parecia compreender a importância de que, em Guabiruba, o céu ficasse limpo na Semana Santa. Antes de cada uma das três apresentações oficiais – quarta-feira recebemos as Associações de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apaes) da região e também gravamos os DVDs do espetáculo -, fizemos orações. Marcelo Nascimento, presidente da Associação Artístico Cultural São Pedro, agilizava tudo e organizava as centenas de pessoas.

Francisco Cuoco chegou na quarta-feira e já gerou burburinhos. Ídolo de muitos participantes, ele logo se preparou para a estreia. Com 83 anos e mais de 60 de carreira, mostrou-se muito feliz e satisfeito de estar fazendo parte da peça. Doou-se ao máximo, mesmo com dores nas pernas, precisando sentar o tempo todo e se apoiando em colegas de palco para chegar à sua posição.

“Jamais imaginei que depois de tantas novelas e tantas peças eu receberia um prêmio como esse. Saio daqui transformado. Essa cidade me acolheu muito bem”, Francisco Cuoco, ator

Por fim, tocou a todos ao afirmar que se sentia privilegiado ao estar ali. “Jamais imaginei que depois de tantas novelas e tantas peças eu receberia um prêmio como esse. Saio daqui transformado. Essa cidade me acolheu muito bem”, afirmou ao fim da apresentação da quinta-feira.

O céu colaborou ainda mais na sexta-feira. Estava estrelado, com as Três Marias em destaque. Parecia homenagear as três Marias do espetáculo – Rosane Ebele, Wanneida Siegel e Denise Fernanda da Silva Carminati -, que interpretaram a mãe de Jesus espetacularmente.

Nos rostos dos milhares de espectadores havia uma mistura de atenção, admiração e respeito. Ao fim da última apresentação, na sexta-feira, com o soltar dos fogos e a saudação dos atores no palco, a sensação também era plural. Estávamos satisfeitos e orgulhosos. E com saudade. As amizades feitas e a honradez ao nome do Senhor preencheram nossos corações. O espetáculo vai continuar, e espero poder acompanhar muitas edições da mais prestigiada apresentação teatral da região.

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